ISSN: 2359-3822
Temática

PROFISSÃO DE PROFESSOR: CENÁRIOS, TENSÕES E PERSPECTIVAS


   Entre os anos 2014 e 2015 tivemos a consolidação no Brasil de orientações importantes no que se refere à intencionalidade de mudar o cenário educacional brasileiro e, neste, o cenário da formação de professores para a educação básica, a partir de amplas consultas, discussões e debates acalorados nos vários anos que antecederam sua promulgação. Essas sinalizações acham-se colocadas especialmente nas disposições da Lei 13.005/2014 que aprova o Plano Nacional de Educação para o decênio, no Parecer CNE/CP nº 2 de 9 de junho de 2015 que trata de Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial e Continuada do Magistério, e, na Resolução CNE/CP nº 2 de 1ª de julho de 2015 que “Define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação Inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada.”

   Esses documentos partem de dados e análises do cenário educacional atual e das pesquisas sobre formação, carreira de professores e condições de trabalho na educação básica, como também trazem em seu interior uma perspectiva filosófico-política para a educação nacional, considerando os variados contextos sociais e as diversidades socioculturais. Abrem perspectivas para políticas de ação futura que permitem vislumbrar possibilidades de mudanças na situação atual da educação brasileira, cujo quadro geral ainda mostra que estamos um tanto longe de oferecer formação escolar de qualidade para todos os brasileiros. Haverá um espaço de tempo para que ações derivadas dessas proposições normativas possam se efetivar e outro espaço de tempo para se avaliar as consequências dessas ações no cenário da educação escolar em geral e em suas diferentes etapas, na formação inicial e continuada de professores, em suas carreiras e remunerações e nas condições de trabalho nas escolas. Estas ações não serão desenvolvidas sem tensões ante o cenário social em que estamos imersos, tensões que já estão colocadas e tensões que serão geradas no curso de movimentos e dinâmicas políticas e sociais que sobrevirão. Que elas não prevaleçam de modo aleatório e sem que perspectivas lhes deem sentido, é o que se espera.

   No III Congresso Nacional de Formação de Professores e no XIII Congresso Estadual Paulista de Formação de Educadores se abrem espaços para que venham à luz análises e perspectivas relativas ao nosso cenário educacional, em sua relação com a formação inicial e continuada de professores, bem como para reflexões sobre as tensões nesse campo de ação e de conhecimentos.

   Redes educacionais e escolas são instituições integrantes da sociedade e, como tal, nelas se encontram os mesmos traços característicos das dinâmicas sociais, aí incluídas tensões e conflitos de uma dada conjuntura. Vivemos um cenário social cambiante, onde competitividade e individualismos preponderam, em que sentimentos de realização ou de injustiça se constroem, em condições de multiculturalismo, de novas linguagens e da emergência de demandas por justiça social e equidade educacional. Nesta ambiência o trabalho dos professores e gestores se efetiva, a aprendizagem dos alunos se constrói. Compreender essas condições e seus impactos na educação escolar coloca-se como necessidade para quem busca caminhar na direção de superação de impasses educacionais e impasses sobrevenientes no campo do trabalho docente. Dilemas se levantam quanto às formas de compreensão do momento contemporâneo, sobre condições de exercício da democracia, sobre valores, diversidades e sentidos do agir humano, do agir educacional, do trabalho nas redes escolares.

   Vivemos tensões nas propostas e concretizações da formação inicial de professores, com padrões culturais formativos arraigados em conflito com o surgimento de novas demandas para o trabalho educacional, que se colocam em função de contextos sociais e culturais diversificados, pelo desenvolvimento de novas formas de comunicação e das tecnologias como seu suporte. Pergunta-se sobre as perspectivas concretas na formação de docentes, sobre sua relação com as necessidades sociais e educacionais das novas gerações, sua relação com perspectivas político-filosóficas quanto ao  papel da educação escolar. Dilemas aparecem: formar professores para quê? Para quem e onde? Como? Qual o cenário hoje dessa formação, qual cenário deveríamos considerar? Esses questionamentos se expandem para a formação continuada, onde tensões se colocam quanto às escolhas realizadas em diversos níveis de gestão educacional sobre essa formação, seus impactos reais, sobre sua ancoragem em necessidades concretas em um particular contexto, entre aquilo que é intenção e aquilo que de fato se concretiza.

   O tema proposto para estes eventos dá continuidade ao mote do II e XII Congressos realizados dois anos atrás - “Por uma revolução no campo da formação de professores”. Naquele momento muito se refletiu sobre a necessidade de novas posturas no campo da educação e da formação para os profissionais do magistério, e, várias contribuições inovadoras foram trazidas. No livro que reúne algumas das falas do último evento (no prelo) consta o texto do Prof. Celestino A. da Silva Júnior, apresentado em uma das mesas redondas, em que reflete: “Se, efetivamente, pretendemos revolucionar precisamos estar conscientes e convictos da exaustão histórica das formas de análise e dos processos de intervenção até aqui utilizados no tratamento da situação social que nos desafia, com sua inoperância e sua petrificação.” Na busca de explicitar o sentido do termo revolução nos fala de revoluções em sentido mais abrangente e em revoluções em sentidos mais específicos, por exemplo, revolução cultural ou técnico-científica. Assim, coloca que as transformações radicais podem se operar em campos determinados da vida social, mas são frutos da ação organizada de pessoas e instituições que se propõem a alterar radicalmente situações dadas. Trazemos para o presente evento esse pensamento quando nele se propõe tratar com profundidade de aspectos tensionais e de perspectivas no cenário da profissão de professor.  Esperemos que as exposições, debates e contribuições diversas que estarão se processando neste novo momento eliciem pensamentos inovadores e ações transformadoras. Cabe lembrar aqui colocação feita por Saviani e Duarte (2012, p.15) que nos alertam para o fato de que, para mudar é necessário uma “reflexão radical, rigorosa e de conjunto sobre os problemas que a realidade apresenta”.

Bernardete A. Gatti

Referências

SAVIANI, D.; DUARTE, N. Pedagogia histórico-crítica e luta de classes na educação escolar. Campinas: Autores Associados, 2012.

SILVA JÚNIOR, C.A. Construção de um espaço público de formação. In: II CNFP e XII CEPFE: Por uma revolução no campo da formação de professores, São Paulo: Editora UNESP, (no prelo).