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Março/2009– Ano XXII – nº 242   ::   Suplemento

 
:: HUMANIDAES ::

Lingüística
A ilusão vendida em livros de auto-ajuda
Obras sugerem que leitores superem problemas com otimismo e receitas de comportamento

O conceito de “self-made man”, ou seja, daquele que sobe na vida às custas do próprio esforço, é cada vez mais difundido. Segundo essa idéia, para conquistar êxito em todos os sentidos basta confiar em si mesmo e ir à luta. Por meio de argumentos como esses, os livros de auto-ajuda conquistam adeptos e vendem milhões de exemplares no Brasil e no mundo, de acordo com Anna Flora Brunelli, professora do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce), câmpus de São José do Rio Preto.

O gênero da auto-ajuda vale-se de vários recursos lingüísticos relacionados à confiança e à certeza. “Dessa forma, esse discurso se transforma numa espécie de tábua de salvação para todos os que se sentem inseguros e incertos, especialmente quanto à sua situação financeira”, afirma a pesquisadora.

Outra característica, segundo Anna, é a quantidade de enunciados imperativos. “A auto-ajuda oferece supostas receitas contra a angústia, o medo, a falta de confiança própria, como se realmente pudesse resolver os problemas do sujeito contemporâneo, que, perdendo as antigas referências, precisa que lhe digam como gerir sua vida”, avalia a docente, autora da tese O sucesso está em suas mãos: análise do discurso da auto-ajuda, defendida na Unicamp em 2004.

A ilusão, para Anna Flora, é um dos componentes embutidos nos enunciados: “Dizer que cada um constrói seu próprio destino é desconsiderar as condições sócio-históricas a que estamos submetidos”, enfatiza. A docente acredita que esse gênero sustenta um ideal do capitalismo. “A auto-ajuda induz o sujeito a mudar sua forma de pensar para obter sucesso, em vez de questionar a realidade em que vive”, explica.

Força de vontade – Idéias como “self-made man” ou “make money” (“fazer dinheiro”) são comuns no meio empresarial pós-moderno. Ao analisar os textos do kit promocional e de publicações da empresa de vendas em rede Amway, que teve sucesso na década de 1990, Anna Flora também identificou a certeza como o sustentáculo desse discurso.

A lei da atração, que se tornou famosa com a obra O segredo, de Michael Losier, é mais um exemplo apontado por Anna Flora. Segundo o livro, essa seria mais uma lei do universo, pela qual os seres humanos podem atrair tudo o que desejarem, de bom ou ruim. “A tese da lei da atração utiliza o discurso científico como sustentação”, analisa. “Uma vez que a ciência é a voz da razão, é um discurso altamente persuasivo.”

A pesquisadora afirma ainda que, no discurso da auto-ajuda empresarial, o argumento religioso é pouco utilizado. “Isso acontece, geralmente, em livros de auto-ajuda ligados à saúde”, diz.

Ligya Aliberti


 
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