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Setembro/2008 – Ano XXII – nº 237   ::   Suplemento   ::   Encarte Eleição

 
:: DESAFIOS PARA OS PROFESSORES ::

Três pontos para reflexão sobre a docência
Newton Duarte*

É preciso um projeto pedagógico
comprometido com a luta contra a propriedade privada do conhecimento

O primeiro ponto que trago para a reflexão sobre nosso trabalho de docência é de natureza socioinstitucional. Refere-se à tarefa da universidade pública de socialização do conhecimento em suas formas mais ricas e desenvolvidas. É muito comum ouvir-se a afirmação de que a universidade pública deve atender às necessidades da sociedade. Essa afirmação dificilmente encontraria alguma objeção, se formulada de maneira tão vaga. Mas é necessário definir-se com mais precisão o que seja essa sociedade da qual tanto falamos.

Vivemos numa sociedade capitalista. O conhecimento, assim como a quase totalidade do que é produzido nessa sociedade, torna-se propriedade privada e, mais especificamente, parte integrante do capital. A docência numa universidade pública exige uma posição política: somos favoráveis a que o conhecimento produzido e difundido pela universidade esteja a serviço das necessidades do capital ou defendemos a apropriação universal do conhecimento, sua socialização a todas as pessoas, sua transformação, de propriedade privada em propriedade pública?

Mesmo defendendo a segunda alternativa, sabemos que nossa instituição reproduz as contradições que marcam nossa sociedade e que a socialização plena e irrestrita do conhecimento pela universidade é algo que requer uma luta constante, que vai desde nossas ações em sala de aula até as medidas no plano da política institucional. A socialização do conhecimento pela universidade é algo que não se realizará plenamente numa sociedade comandada pelo capital. [...]

O segundo ponto é de natureza epistemológica. Nas últimas décadas tornou-se muito comum, ao menos na área das ciências humanas, uma atitude de negação do conhecimento objetivo da realidade natural e social. Muitos intelectuais confundiram conhecimento objetivo com conhecimento neutro e absoluto e defenderam que tudo aquilo que chamamos de conhecimento seriam construções subjetivas, seriam maneiras como cada pessoa ou cada grupo social vê o mundo.

Defendo uma posição diferente dessa. [...] Existe sim a objetividade do conhecimento, o que não elimina a existência de disputa e de conflito entre as diferentes explicações sobre o mundo no qual vivemos. [...]

Ainda nesse campo da análise epistemológica, é necessário definirmos o tipo de conhecimento a ser ensinado na universidade. Para um real enfrentamento dos grandes problemas existentes na prática social contemporânea é preciso que nossos alunos dominem os fundamentos teóricos que lhes permitam compreender criticamente o que se passa na sociedade atual. [...] É por isso que defendo que devemos ensinar na universidade o conhecimento científico, filosófico e artístico em suas formas mais desenvolvidas e mais ricas. Isso aponta para a direção oposta ao utilitarismo e ao pragmatismo que infelizmente tem prevalecido na montagem ou na reformulação da estrutura curricular de muitos de nossos cursos de graduação e pós-graduação.

O terceiro ponto é de natureza pedagógica. Sou pedagogo e pesquisador da área educacional e sinto-me no dever de fazer um alerta aos colegas de outras áreas que estejam empenhados no aprimoramento de sua prática pedagógica. Tomem cuidado com as “pedagogias do aprender a aprender”!

Ao contrário do ar progressista com que elas se apresentam, suas conseqüências são fortemente conservadoras, pois contribuem para que o conhecimento continue a ser propriedade privada. Essas pedagogias apóiam-se em quatro pressupostos.

O primeiro é de que tudo aquilo que o aluno aprendesse por si mesmo teria um valor pedagógico muito maior do que aquilo que aprendesse como resultado da atividade de ensino pelo professor. Esse pressuposto também aceita as aprendizagens que os alunos realizem coletivamente, desde que sem a transmissão de conhecimento pelo professor. Em oposição a esse pressuposto defendo que nossa tarefa, como professores, é sim a de transmitir, da melhor forma possível, o conhecimento que dominamos.

O segundo pressuposto é o de que o método de aquisição (ou construção) do conhecimento seria mais importante do que a apropriação do conhecimento já existente na sociedade. [...] Pergunto como alguém pode dominar o método (ou métodos) em seu campo de conhecimento sem dominar as teorias que já existam nesse campo. [...]

O terceiro pressuposto das pedagogias do aprender a aprender é de que toda atividade pedagógica só teria real valor educativo se fosse dirigida espontaneamente pelas necessidades e interesses dos alunos. Em oposição a esse princípio defendo que é dever do professor dirigir as atividades educativas e saber com clareza o que ensinar e como ensinar. [...]

O quarto pressuposto dessas pedagogias é o de que a melhor educação seria aquela que formasse indivíduos com alta capacidade de adaptação às constantes mutações sociais. Ora, se nos lembrarmos que estamos falando da sociedade capitalista, isto é, da sociedade de mercado, por mais que alguns defensores dessas pedagogias evitem usar palavras como “mercado”, “capital” etc. [...], o fato é que preconizar uma educação centrada no conceito de adaptação tem como conseqüência inevitável, na sociedade contemporânea, a formação de indivíduos alienados e conformistas.

A área de educação tem, por certo, muito a contribuir para o aperfeiçoamento da docência da universidade, mas, para isso, será necessário superar essas pedagogias que desvalorizam a transmissão do conhecimento, assim como as epistemologias que desqualificam o próprio conhecimento, e será necessária a construção de um projeto pedagógico para a universidade comprometido com um projeto político de luta contra a propriedade privada do conhecimento.

* Palestra apresentada no IX Congresso Estadual de Formação de Professores, promovido pela Unesp em Águas de Lindóia (SP), em setembro de 2007.

Newton Duarte é docente da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, câmpus de Araraquara. É pedagogo e mestre em Educação pela Universidade Federal de São Carlos, doutor pela Faculdade de Educação da Unicamp, com pós-doutorado na Universidade de Toronto, Canadá. É livre-docente em Psicologia da Educação
A íntegra deste artigo está no “Debate acadêmico”, no Portal Unesp, no endereço
http://www.unesp.br/aci/debate/docencia_duarte.php

 
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