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Setembro/2008 – Ano XXII – nº 237   ::   Suplemento   ::   Encarte Eleição

 
:: DESAFIOS PARA OS PROFESSORES ::

Ensino na Universidade: o que faz a diferença?
Marília Freitas de Campos Tozoni-Reis

A formação
profissional precisa estar articulada à formação humana plena nos cursos de graduação

Entendo que discutir a metodologia de ensino na Universidade, na perspectiva de identificar “o que faz a diferença”, significa partir de referenciais teóricos e metodológicos que fundamentam nossa prática como professores e pesquisadores. Para o pedagogo Newton Duarte, docente da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, câmpus de Araraquara, há três perspectivas para a ação educativa na universidade pública.

Na perspectiva sociológica, Duarte – elaborando uma consistente crítica sobre a lógica do capital, que determina a dinâmica da sociedade colocando o conhecimento como propriedade privada – identifica o papel da universidade pública com o objetivo da formação humana plena, como socialização da riqueza humana no que diz respeito ao conhecimento. Na perspectiva epistemológica, ele sintetiza o conhecimento científico como o fundamento do ensino, com o objetivo de apropriação, por parte dos nossos alunos, da base teórica necessária à formação. Na perspectiva pedagógica, ele propõe superar as propostas de ensino que desvalorizam, ou secundarizam, o papel dos conhecimentos científicos na formação dos alunos.

A partir desses pressupostos, entendo que o ensino na universidade pública precisa “revalorizar” os conteúdos, tratando-os, não de forma memorizadora e mecânica, mas de forma crítica e reflexiva. Trata-se de superar as “tendências” encontradas hoje no ensino nos cursos de graduação: a supervalorização dos conteúdos em detrimento dos processos de ensino e o seu contrário: a supervalorização dos procedimentos de ensino em detrimento dos conteúdos.

A metodologia de ensino, conforme a compreendo, se expressa fundamentalmente como prática pedagógica cotidiana, construída pela reflexão e ação sobre o ensino das disciplinas ou de um conjunto de disciplinas, se quisermos avançar rumo à interdisciplinaridade. [...]

Não se trata, portanto, de conhecer e discutir diferentes teorias pedagógicas, mas de apropriar-se, pela contribuição que essas teorias podem dar à reflexão da ação docente, de instrumentos para essa reflexão. [...] A metodologia de ensino pode, portanto, contribuir para dar mais elementos a essa reflexão, mas é importante destacar que a prática pedagógica é construída pelos próprios docentes, individual e coletivamente.

Entre os principais elementos metodológicos, destaco os que, para mim, fazem a diferença no ensino na universidade pública:

– partir da necessidade de conceber a formação profissional como especificidade articulada à formação humana plena nos cursos de graduação: não se formam profissionais sem formação humana;

– identificar a produção e socialização do conhecimento científico como as principais funções da universidade: o conhecimento científico voltado para a transformação da sociedade injusta e desigual;

– compreender a apropriação crítica e reflexiva dos conhecimentos científicos, os conteúdos, como princípio pedagógico fundamental no ensino de graduação: o conhecimento científico é a base da formação na universidade;

– superar tanto o diretivismo autoritário quanto o espontaneísmo pedagógico no ato de ensinar [...]: o professor dirige, como mediador, o processo de ensino-aprendizagem para garantir que ele ocorra da forma mais adequada possível;

– dedicar-se, com compromisso e criatividade, ao planejamento das disciplinas, compreendendo-o como organizador flexível da prática cotidiana: planejar significa tomar decisões relacionadas ao conteúdo a ser ensinado e às formas de ensiná-lo;

– lançar mão, de forma crítica, de diferentes e variadas estratégias – articuladas aos conteúdos – para facilitar o processo de apropriação dos conhecimentos por parte dos alunos: são os conteúdos o objetivo de ensino e não as estratégias;

– compreender o papel, facilitador mas secundário, dos recursos de ensino, em particular dos recursos tecnológicos: é o professor que ensina, como mediador, e não os recursos;

– e superar o caráter estritamente administrativo da avaliação pela perspectiva pedagógica: como diagnóstico que informa as dificuldades de aprendizagem dos alunos, direcionando a busca de novas ações no processo de ensino-aprendizagem.


Marília Freitas de Campos Tozoni-Reis é pedagoga, professora do Departamento de Educação no Instituto de Biociências da Unesp em Botucatu. É mestre em Educação pela UFSCar e doutora em Educação pela Unicamp.

A íntegra deste artigo está no “Debate acadêmico”, no Portal Unesp, no endereço http://www.unesp.br/aci/debate/metodologia_marialiareis.php

 
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