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Setembro/2008 – Ano XXII – nº 237   ::   Suplemento   ::   Encarte Eleição

 
:: DESAFIOS PARA OS PROFESSORES ::

Inquietações de uma professora
Maria Isabel Nogueira Tuppy

Gostaria que meus alunos
contraíssem o “vírus” que clama por mudança nas práticas pedagógicas

Sempre me inquietou a responsabilidade de formar professores, principalmente pela coerência que acredito deva existir entre o que teoricamente apóio e difundo e a minha ação dentro da sala de aula, pois entendo que parte da formação de nossos alunos se consolida, não só por meio do conhecimento teórico que adquirem, das reflexões que são propostas no meio acadêmico, das infindáveis atividades que realizam no âmbito da universidade, mas também por meio de suas experiências acadêmicas e dos exemplos que eles podem apreciar, rejeitar ou simplesmente reproduzir, sem questionar.

Tal inquietação se ampliou com a perspectiva de assumir a docência da disciplina introdutória de Pedagogia, que visa iniciar os alunos nos meandros da organização escolar. Tentei planejá-la de forma dinâmica, com opções de atividades que pudessem contribuir com o desenvolvimento teórico e garantir maior envolvimento dos alunos nas e com as aulas. [...]

Dentre as atividades, sugeri a busca de experiências diferenciadas acerca da organização do trabalho escolar, para que os alunos pudessem observar e refletir sobre algumas propostas educacionais e, em seqüência a esse trabalho, depois de “bombardeados” com uma série de iniciativas interessantes, pedi que elaborassem um boneco de Regimento Escolar, tendo como objetivo avaliar como estavam processando o conteúdo teórico discutido e como haviam absorvido as informações levantadas no trabalho de pesquisa. Apenas um grupo, dentre seis, considerou alguns dos princípios teóricos trabalhados em sala, mas mesmo este passou a compor um regimento cheio de regras, horários, códigos de conduta, reproduzindo categoricamente as experiências trazidas de sua vida escolar. Mas o trabalho, ainda assim, foi válido, proporcionando debates e processos de reflexão.

Isso, contudo, não me pareceu suficiente para romper com o processo de submissão a que os alunos estão sujeitos ao longo de sua jornada escolar, ou para estimulá-los a pensar em sua prática profissional futura. Pensei, então, em promover uma experiência didática que privilegiasse alguns dos conceitos teóricos trabalhados ao longo do curso, tais como: autonomia, democracia e participação, sem perder de vista a qualidade de ensino. Busquei em minhas experiências algo que pudesse ser interpretado como ruptura do mecanismo reprodutor e me deparei com uma triste e desconfortável realidade. [...]

Percebi, incomodada, que minha ação em sala de aula sempre esteve muito mais comprometida com a realização dos rituais acadêmicos tradicionais do que com princípios que geram mudanças efetivas na área educacional. [...] Assim, passei também a considerar a necessidade de “transgredir”, de colocar em jogo esse “poder”.

Numa primeira e tímida tentativa de transgressão, na elaboração da avaliação final e individual, contei com a parceria dos alunos, o que permitiu avaliar, de um lado, o que os alunos haviam apreendido do conteúdo trabalhado ao longo do semestre e, de outro, meu próprio desempenho docente [...].

A ruptura maior, entretanto, veio com outra proposta: a de que os alunos elaborassem o plano de curso para a nossa próxima disciplina, oferecida no segundo semestre de 2008. O desafio foi aceito por eles, e, a partir da ementa, eles estão formulando o curso que desejam ter, o que os tem envolvido num esforço de pesquisa de um conteúdo que desconhecem ou pouco conhecem. Foi interessante observar a perplexidade de muitos, frente à proposta. Uma aluna registrou como aspecto positivo do curso “a autonomia que a professora nos deu e a liberdade sobre tomadas de decisão. É novo para mim”, e como aspecto negativo “a nossa própria reação à descoberta desta liberdade e autonomia. Senti-me desorientada, inicialmente (e ainda me sinto um pouco)”. [...]

Eu não sei como será o resultado dessa iniciativa, só poderei avaliá-la ao final do percurso e com a participação dos alunos. Mas posso, de antemão, dizer que me sinto instigada, motivada, como há muito não me sentia, e creio que isso possa ser contagiante. Gostaria, e muito, que meus alunos contraíssem esse “vírus” que clama por mudança nas relações e práticas pedagógicas.

Maria Isabel Nogueira Tuppy é docente do Departamento de Educação do Instituto de Biociências, câmpus de Rio Claro, e atual coordenadora do Curso de Pedagogia da unidade. Possui mestrado e doutorado em Educação pela Unicamp e desenvolve pesquisas em Educação Profissional.

A íntegra deste artigo está no “Debate acadêmico”, no Portal Unesp, no endereço http://www.unesp.br/aci/debate/inquieta.php

 
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