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Setembro/2008 – Ano XXII – nº 237   ::   Suplemento   ::   Encarte Eleição [Voltar]
 
:: DESAFIOS PARA OS PROFESSORES ::

Entrevista
Formação do docente é principal alavanca da escola pública

Marilda da Silva

Deve-se ensinar como se aplica o conhecimento nos vários âmbitos do desenvolvimento
humano e social

Graduada em Pedagogia e História, mestre em Filosofia e História da Educação pela PUC-SP, doutora em Educação pela USP e pós-doutorada em Estudos Comparados em Educação pela Universidade de Lisboa, Marilda da Silva é professora-adjunta da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, câmpus de Araraquara. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Didática, e atua nos temas de formação de professores, didática e formação de professores, história de escolarização de alunos e ensino na sala de aula. É credenciada para orientar mestrado e doutorado no Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar da FCL.
(Entrevista a Oscar D’Ambrosio)

Jornal Unesp: Qual é a sua avaliação da educação brasileira hoje como conjunto? Onde está o principal gargalo?
Marilda da Silva: A educação brasileira está longe de ser aceitável como uma possibilidade de atingir o patamar da dignidade social e humana. É bem verdade que há muitas escolas no Brasil que estão funcionando e formando bem, mas elas estão tão isoladas e são tão raras que servem apenas a uma modesta comunidade. Não desfrutamos ainda de boa formação de professores. Isso não foi ainda resolvido, apesar de muitos investimentos terem sido feitos nessa direção. O que também está em jogo é o fato de a democratização do ensino, historicamente, ter sido conscientemente nivelada por baixo pela política nacional. Portanto, a escola para os pobres é tão pobre quanto eles. O gargalo está na complexidade na qual gravita o sistema educacional brasileiro, sendo os principais problemas a formação de professores e os salários que eles recebem, o déficit da infra-estrutura e equipamentos nas escolas, o valor que o conhecimento tem em nossa cultura, a falsa democracia em que vivemos e o estrangulamento moral e ético que a nação enfrenta há muito tempo.

JU: Quais os principais desafios do professor nesse contexto?
Marilda: Primeiramente ter o conhecimento como principal alimento de sua alma. Em qualquer profissão a alma deve imiscuir-se com nossa prática laboral. O eu profissional e o eu pessoal são uma mesma constituição. Também não se pode negar que os alunos buscam em nós uma espécie de espelhamento. Quem, independentemente da idade que freqüentou a escola, não têm algo a dizer de seus professores? Se o conhecimento for o bem maior do professor, teremos muitas chances de que seja também dos alunos. Por isso, a formação dos professores é a principal alavanca da escola pública brasileira. O fato é que o conhecimento tem em si mesmo muitas armas que possibilitam a seu usuário, no caso o professor, a enfrentar as tantas misérias que ele encontra na sala de aula, possibilitando às comunidades mais carentes a apropriação desse bem maior da humanidade.

JU: Como será o professor do futuro?
Marilda: Como sempre deve ser um professor: deverá dominar o conhecimento para que possa socializá-lo na escola. Assim, o seu aluno pode ter a chance de dominá-lo também. O conhecimento tem em si sua própria didática, seja mediada pelas tecnologias ou pela voz do professor. O que, de fato e de direito me interessa, é que sempre haja um ensino de boa qualidade.

JU: Como o professor pode se preparar para as mudanças que estão ocorrendo e para as que virão?
Marilda: Isso pode ocorrer pelo irrepreensível domínio do conhecimento associado a um capital cultural, em sentido largo, robusto. Conhecimento não é apenas dominar o conteúdo pelo qual responde no âmbito dos currículos escolares, mas igualmente aplicá-lo e ensinar a aplicá-lo nos diferentes âmbitos do desenvolvimento humano e social. Não estou atribuindo à profissão docente uma característica salvacionista. Estou tratando o professor como ele merece. Quero que se dê a César o que é de César. Neste caso, o conhecimento.

 

 
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