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Setembro/2008 – Ano XXII – nº 237   ::   Suplemento   ::   Encarte Eleição

 
:: ALIMENTAÇÃO ::

Geografia
Pobres têm melhor dieta em Prudente
Famílias com menor renda consomem alimentos mais saudáveis que classes média e alta

As famílias com menor renda per capita alimentam-se melhor do que as de classe média e alta em Presidente Prudente, no interior paulista. Esse foi o resultado da dissertação de mestrado apresentada em março por Fabiana Caldeira, na Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT), do câmpus local da Unesp.

O objetivo do estudo foi identificar e analisar os elementos que explicam o perfil do consumo alimentar das diferentes classes sociais, em uma cidade de médio porte como Prudente. “Analisei alguns pontos, como a relação entre a renda per capita familiar e os tipos de alimentos consumidos, os estabelecimentos utilizados para aquisição dos produtos por parte das famílias e o porcentual da renda familiar comprometido com a aquisição de alimentos”, explica Fabiana.

Segundo a pesquisadora, as classes sociais elevadas estão mais expostas aos apelos da mídia em relação ao consumo de alimentos industrializados e de fast food. Porém, esses alimentos apresentam excesso de gordura saturada e podem levar a diversos tipos de doenças, como diabetes e hipertensão. “Famílias com menor poder aquisitivo possuem melhores hábitos, em alguns casos sem querer, pois não dispõem de renda para freqüentar fast foods e restaurantes e consomem mais alimentos essenciais, que constam em cestas básicas, como arroz e feijão, que propiciam uma alimentação mais saudável”, diz Fabiana.

A pesquisa mostrou que apenas 14% das famílias de baixa renda disseram freqüentar fast foods, em média, somente duas vezes ao ano, enquanto 51% das famílias de renda elevada se alimentavam nesses locais ao menos uma vez por semana.

Falta de dados – Realizada em um período de três anos, a pesquisa surgiu do interesse de Fabiana pela falta de informações sobre segurança alimentar no País. Atualmente, as referências sobre o tema provêm do Endef (Estudo Nacional da Despesa Familiar), realizado pela FIBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e da POF (Pesquisa de Orçamento Familiar). “Os inquéritos são realizados apenas nas regiões metropolitanas e, dessa forma, o padrão alimentar do interior do País é praticamente desconhecido”, analisa a pesquisadora.

O estudo aponta que não existe nenhum caso de fome aguda ou extrema pobreza no município, mas também não existe o apoio das autoridades locais à adoção de hábitos alimentares saudáveis. “Atualmente, cerca de sete mil famílias prudentinas são beneficiadas com a bolsa-família, mas cito algumas recomendações para melhorar a situação, como a criação de um Comsea (Conselho Municipal de Segurança Alimentar), ampliação da alimentação escolar, hortas comunitárias, intensificação da reforma agrária na região e orientação alimentar”, finaliza.

O orientador do estudo, Raul Borges Guimarães, do Departamento de Geografia da FCT, câmpus de Presidente Prudente, disse que o trabalho pode subsidiar a formulação de políticas públicas de segurança alimentar, que ainda é incipiente no município e na maioria das cidades de porte médio do interior paulista.

“Avalio que a contribuição da dissertação extrapola a realidade local, porque permite uma reflexão sobre a segurança alimentar em cidades que não são consideradas metropolitanas”, explica o orientador, que também é coordenador do Centro de Estudos e de Mapeamento da Exclusão Social para Políticas Públicas (Cemespp).

O Cemespp é um grupo interdepartamental da FCT, na interface das áreas de Geografia, Planejamento Urbano, Saúde Pública e Coletiva, Educação e Estatística Espacial, que trata de assuntos ligados a exclusão e inclusão social.

O grupo iniciou suas atividades em 1997, após a elaboração de um mapa da exclusão/inclusão social em Presidente Prudente. A iniciativa subsidiou a formulação de diferentes políticas sociais por parte do poder público local, como os Programas de Garantia de Renda Mínima, de Gerenciamento da Merenda Escolar, de Saúde da Família e Criança Cidadã, entre outros.

Renato Coelho


 
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