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Setembro/2008 – Ano XXII – nº 237   ::   Suplemento   ::   Encarte Eleição

 
:: OPINIÃO ::

Machado de Assis e a educação de Brás Cubas

A obra de Machado de Assis permite diversas leituras. Nós vamos abordar os conteúdos humanos relevantes sobre a educação, isto é, a experiência transmitida acerca da escola, já que na obra machadiana há uma interpretação histórica de seu tempo.

Em “Conto da escola”, Machado de Assis pergunta: E o que desejava o mestre?
– “Lição de cor e compostura na aula, nada mais, nada menos do que quer a vida.”

A escola procura modelar no indivíduo uma segunda natureza, a das convenções, das condutas constantes, a repetição das relações sociais.

Em Memórias póstumas de Brás Cubas há um bom retrato da educação no Brasil monárquico. O personagem vai à escola de primeiras letras, onde aprende a ler, escrever e contar, dar e receber cacholetas e fazer travessura nos morros e praias. Na escola também se aprende o convívio social, a brincadeira e o prazer não isento de pequenas agressões entre amigos.

A atitude do mestre introjeta os comportamentos desejados, mas não sem inspirar a chacota. Lembrando seu primeiro professor, Brás Cubas não se esquece das baratas mortas colocadas na gaveta de sua escrivaninha por causa do seu nome, Ludgero Barata. [...] Brás Cubas nasceu numa família abastada e com boas relações na Corte. Aprendera com o pai a ter horror da vida obscura e calada. Tinha “amor da glória e da nomeada”. Fez o curso superior de Direito para ser deputado.

Numa sociedade de coloração aristocrática que, contudo, não tinha aristocracia tradicional, coube à escola formar a nobreza de toga que o Estado patrimonial nobilitou com a concessão de cargos públicos. [...] Os quadros administrativos e políticos que atuaram no período da consolidação do Império foram preparados pela Universidade de Coimbra. As Faculdades de Direito de São Paulo e Recife formaram a elite política que atuou a partir de 1850.

Bem, mas o que a Universidade de Coimbra ensinou aos estudantes de Direito?

Desde as Reformas Pombalinas da Instrução Pública, os ventos liberais atingiram aquela universidade. Ensinava-se, além do Direito Romano, Direito Português, Direito Natural, Direito Público Universal, Direito das Gentes, História Civil dos Povos, etc. Mas o espírito da universidade permaneceu conservador; Rousseau, Voltaire, entre outros, continuavam proibidos.

Vamos acompanhar a trajetória de Brás Cubas para ver o que ele aprendeu.

O capítulo sobre a ida de Brás Cubas para a universidade tem o título “Curto, mas alegre”. [...] Decorou “as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto”. Embolsou “três versos de Virgílio, dois de Horácio, uma dúzia de locuções morais e políticas, para as despesas de conversação”. Assim tratou a história, a jurisprudência, a filosofia, colheu a “fraseologia, a casca, a ornamentação”. Aprendeu o “liberalismo teórico” e as “Constituições escritas”. E viveu em Coimbra a vida do estudante folgado e folião, chegado às aventuras amorosas.

A cultura retórica de Brás Cubas vestiu como uma luva aquela inteligência pouco afeita às indagações teóricas e sempre disposta a contemporizar, a buscar o meio termo, a conciliar idéias opostas. Aliás, para conciliar as contradições do Império, “os aprendizes do poder” precisariam ser como Brás Cubas, dados a extrair de todas as coisas a casca, de modo a aderir prudentemente a doutrinas opostas, para buscar fórmulas moderadas.

Na formatura, ao receber o diploma, Brás Cubas chegou a sentir um certo medo da responsabilidade, que logo foi dissipado pela promessa de grande futuro que o diploma representava e por seu ardente desejo de influir, de ser nomeado para um cargo, de ser reconhecido pela opinião e, assim, gozar a vida, prolongando a universidade.

Com o diploma de bacharel e o apadrinhamento do regente, conseguido por intermédio do pai, Brás Cubas fez-se deputado.

Um dia encontrou-se com um antigo colega de colégio que era ministro. E teve vontade de ser ministro, mais por “amor da glória” do que por amor ao poder. Por vaidade, ambição, gosto de ser reconhecido pela opinião pública, para saborear a vida. Faltou-lhe contudo o “interesse de outra natureza. Vira o teatro pelo lado da platéia; e, palavra, que era bonito. Soberbo cenário, vida, movimento e graça na representação”. Por isso, Brás Cubas não conseguiu chegar ao topo da pirâmide, por ver o teatro do lado da platéia.


Sonia Marrach é professora adjunta de História da Educação da Unesp, câmpus de Marília, e autora de O lúdico, o riso e a educação no romance de François Rabelais; FFC- Unesp, entre outros.

A íntegra deste artigo está no Portal Unesp, no endereço
http://www.unesp.br/aci/debate/sonia_marrach.php

 

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