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Setembro/2008 – Ano XXII – nº 237   ::   Suplemento   ::   Encarte Eleição

 
:: REPORTAGEM DE CAPA ::

Literatura
Um escritor no centro das atenções
Especialistas de vários países discutem em São Paulo a importância do maior autor brasileiro

A obra de Machado de Assis, pela erudição e amplitude das influências que demonstra, inovações formais dos textos, visão crítica e caráter universal dos temas que aborda, coloca o autor brasileiro entre os grandes nomes da literatura universal. A discussão do trabalho do escritor brasileiro reuniu especialistas de vários países, durante o Simpósio Internacional “Caminhos Cruzados: Machado de Assis pela Crítica Mundial”. O evento, realizado pela Unesp e a Fundação Editora da Unesp (FEU), com apoio do Ministério da Cultura (Minc), aconteceu no auditório do Masp, em São Paulo, entre 25 e 29 de agosto.

Integrado às comemorações pelo centenário da morte do escritor, o simpósio buscou dar visibilidade a novas abordagens sobre Machado. “A organização desse evento teve seu início há mais de dois anos, com a preocupação sobre qual contribuição a Universidade poderia oferecer para o avanço do conhecimento sobre o maior escritor brasileiro”, disse o reitor Marcos Macari. O reitor participou da mesa de abertura com Jeferson Assunção, coordenador-geral do Livro e da Leitura do Minc, José Castilho Marques Neto e Jézio Hernani Bomfim Gutierre, diretor-presidente e editor-executivo da FEU, respectivamente.

Universal – Na conferência de abertura, o professor Roberto Schwarz, da Unicamp, analisou a crônica O punhal de Martinha, na qual Machado compara a arma de Martinha, acusada de matar um homem na cidade baiana de Cachoeira, e a usada no suicídio de Lucrécia, na narrativa do romano Tito Lívio. Apresentando diversas citações, como a história do assassino francês François Ravaillac (1578-1610), Schwarz assinala que a crônica critica as aspirações progressistas da ex-colônia e também a condição humana de considerar o que foi imaginado mais belo que o real. “Dessa forma, o cronista universaliza uma história local”, sentenciou.

A presença da Divina comédia, de Dante Alighieri, cujo Sexto Canto foi traduzido por Machado, é perceptível nos textos do brasileiro, segundo Amina di Munno, da Universidade de Gênova, na Itália. De acordo com a professora, a influência italiana na obra machadiana se evidencia no uso de aforismos, paradoxos, redundâncias, estranhamentos, ironia e até sarcasmo – características presentes, por exemplo, nas crônicas de Giacomo Leopardi e nos contos de Giovanni Boccaccio.

Entretanto, as influências literárias nem sempre são evidentes, e podem nem ser conscientes, como explicou Elide Valarini Oliver, da Universidade da Califórnia (EUA). “Temos também uma ‘biblioteca imaginária’, restos de livros, poemas, trechos memorizados ou não, palavras, cenas, enfim, tudo o que guardamos bem ou mal em nossa memória consciente e inconsciente. No caso de Machado, ou de qualquer escritor ou poeta dignos desse título, sabemos que essa biblioteca imaginária é imensa, tão incomensurável como a biblioteca de Babel”, diz.

O que se destaca no autor de Helena é a capacidade de dar significados irônicos ou satíricos às citações. Elide apontou uma fala de Hamlet, de William Shakespeare, citada textualmente pelo narrador-protagonista em Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Para o professor Todd Garth, da Academia Naval dos Estados Unidos, é em Shakespeare e Miguel de Cervantes que Machado encontra formas para criticar a prosa realista de Eça de Queirós e a ética do filósofo Arthur Schopenhauer. “O Realismo intensificava a confusão da realidade com a fantasia. Schopenhauer e seus antecessores nos ajudam a ver tudo isto, mas o mesmo filósofo sofre pela dependência da fé no gênio artístico e na mimese”, argumentou.

Ao não optar pela narrativa dos romances realistas clássicos, Machado pôde abordar temas como a loucura e criticar a crença nas ciências, segundo o escritor Milton Hatoum. “Ele antecipou tendências, desmascarou as contradições da belle époque e, com ironias finas e sutis, fez duras críticas à autocracia brasileira”, salientou.

A forma ‘shandyana’ – Os estudos apresentados durante o simpósio concentraram-se, em sua maioria, na fase de maturidade do escritor, iniciada em 1881, com a publicação de Memórias póstumas. Nesse livro, ele emprega a forma narrativa próxima ao estilo do britânico Laurence Sterne.

Para o embaixador Sérgio Paulo Rouanet, a forma shandyana (por ter sido usada no romance A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy) apresenta elementos que aproximam o brasileiro de outros autores europeus, como a ênfase da subjetividade e a ausência de ordem cronológica.

Outro recurso é a mistura do riso e da melancolia, que expressam um momento difícil vivido por um autor. “No caso de Machado, quando escreveu Memórias póstumas de Brás Cubas, ele estava vivendo a crise dos 40 anos, a possibilidade de ficar cego e o agravamento de sua epilepsia”, explica Rouanet. No entanto, para o embaixador, a relação entre Machado e Sterne ocorre mais pela forma do que pelo conteúdo propriamente dito.

“O grande mérito da prosa machadiana, assim como das de Sterne e do japonês Natsume Soseki, está em criar situações ambíguas, em que o leitor é levado a cometer enganos levado pela sutileza e ironia da narrativa”, assinalou Dain Borges, professor da Universidade de Chicago (EUA). Segundo Borges, os três se voltam para problemáticas ideológicas cosmopolitas.

Professor na Universidade de Lisboa, Abel Barros Baptista afirmou que Machado supera o “mestre” Sterne, ao questionar a crença no cientificismo e no progresso da humanidade, com uma visão irônica e até cômica. Para o docente, a forma livre adotada em Memórias póstumas e radicalizada em Dom Casmurro é o que permite esse questionamento. No primeiro romance, Brás Cubas dialoga com o leitor e assume a responsabilidade pela não linearidade da história. No segundo, Bentinho constrói os capítulos como se fossem provisórios.

Em sua apresentação, Victor Mendes, da Universidade de Massachusetts Dartmouth (EUA), enfatizou que o narrador e o leitor criados por Machado são personagens usados pelo brasileiro para manipular as histórias, como ocorre também em Sterne e Almeida Garret.

Os diferentes narradores dos textos machadianos assumem atitudes controversas, ou adotam discursos diferentes para abranger a fragmentada vida social do Rio de Janeiro do final do século XIX, de acordo com o diplomata chileno Jorge Edwards. “Os narradores funcionam como os heterônimos de Fernando Pessoa”, disse. “Os dois escritores têm a capacidade de assumir posições externas a si.”

A dialética do tempo – Para o professor Kenneth David Jackson, da Universidade de Yale, o fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL) trabalhava na prosa a dialética entre o tempo secular e uma perspectiva universalista, “perspectiva essa que vê nas personagens no Rio de Janeiro durante o Império apenas os casos nacionais da época de uma humanidade milenar, que enfrenta os mistérios seculares da existência”.

O também norte-americano Paul Dixon, Universidade de Purdue (EUA), aprofundou o tema, ao expor a contraposição da consciência do moderno e a arqueologia das culturas expressa no emplasto de Brás Cubas. O emplasto carrega em si a modernidade do capitalismo e, ao mesmo tempo, as lembranças das pajelanças – ritos de cura xamânicos.

Machado também não escapou dos vislumbres causados pela invenção da fotografia, segundo Thomas Sträeter, da Universidade de Heidelberg (Alemanha). Próximo dos 25 anos, Machado de Assis, escreveu uma peça de teatro onde o fotógrafo exercia um papel central. “Já em Memorial de Aires, seu último romance, o invento francês não respeitava mais as intimidades. Ele escreveu: ‘A fotografia hoje já está entrando nos quartos dos moribundos’”, cita.

A menção ou omissão sobre as paisagens do Rio de Janeiro são provas da intimidade do autor com a cidade. Para o memorialista e diplomata Alberto Costa e Silva, a natureza integra-se aos personagens, como a ressaca do Flamengo se expressa nos olhos de Capitu, de Dom Casmurro. “Nos romances, não havia descrições das ruas nem explicações longas. Podemos dizer que ele era o anti-Eça de Queirós”, acentuou.

O homenageado também tinha suas ambições de fama, como comentou Jean Michel Massa, professor da Universidade de Rénnes (França). Em seu estudo A década do teatro: 1859-1869, Massa apresenta uma fase pouco estudada do autor, mostrando seus desejos de se tornar um dramaturgo reconhecido, e vê nas frustrações um motivo para compreender as obras da maturidade.

A ausência de paternidade nos romances foi destacada pelo poeta e ensaísta Antonio Carlos Sechin, membro da ABL. “A única paternidade, a de Bentinho em Dom Casmurro, é posta em dúvida pelo narrador”, fala.

Apesar da importância que recebe nos estudos literários mundo afora, a obra de Machado não registra sucessos de venda, sobretudo nos Estados Unidos, conforme pesquisa apresentada por Daphne Patai, da Universidade de Massachusetts. “A leitura de Machado se resume a um nicho cada vez mais elitista, intelectualmente”, afirmou.

Diretor-presidente da Vunesp (Fundação para o Vestibular da Unesp) e presidente da Comissão Científica e Organizadora do simpósio, Benedito Antunes comemorou o sucesso do evento. “Como nas comemorações do centenário de nascimento, em 1939, e do cinqüentenário do falecimento, em 1958, é natural que o centenário de morte desse autor seja assinalado por conferências e palestras”, enfatizou.

No encerramento do simpósio, a FEU lançou a publicação Novos ensaios sobre Machado de Assis. Com a intenção de ampliar a participação e visibilidade dos estudos apresentados, o evento foi transmitido ao vivo pela WebTV, da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac), do câmpus de Bauru. E, a partir de outubro, os debates e conferências estarão disponíveis no endereço: www.faac.unesp.br/webtv

Pesquisadora participa de publicação sobre autor
Docente do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, câmpus de São José do Rio Preto, Lucia Granja participou da edição especial sobre Machado de Assis da publicação Cadernos de literatura brasileira, editada pelo Instituto Moreira Salles, com o ensaio “Domínio da boa prosa: narradores e leitores na obra do cronista”. Trata-se de uma edição dupla que reúne ensaístas, escritores e pesquisadores que se dedicam a decifrar os enigmas do autor de Dom Casmurro. Lucia também foi debatedora da mesa-redonda “Machado de Assis: tradução, recepção, leituras críticas fora do Brasil”, no Simpósio Internacional organizado pela Unesp,

O volume, de julho de 2008, números 23 e 24 (R$ 95,00, informações: 11 - 3825-2560), traz textos de Carlos Heitor Cony, Antonio Candido e Marcelo Coelho, ensaios de Alfredo Bosi, John Gledson, Jean-Michel Massa, Cristóvão Tezza e Hélio de Seixas Guimarães, além de reprodução de manuscritos do escritor.

Oscar D’Ambrosio

 
Livreto de contos é distribuído em SP
Durante o simpósio, foram distribuídos gratuitamente 50 mil exemplares do livro de bolso Machado de Assis, dois contos. O volume reúne os consagrados contos “Missa do Galo” e “Uns braços”. A entrega ocorreu no vão livre do Masp e nas saídas das Estações Brigadeiro, Trianon-Masp e Consolação do metrô.

“Esse material vai me permitir ter uma visão melhor sobre o Machado. A Unesp está de parabéns pela iniciativa”, afirmou Eliando Gomes Oliveira, 33, assistente administrativo, uma das pessoas que receberam o volume. Sonia Andréa Moreira, 33 anos, atendente de telemarketing, também aprovou a distribuição. “A leitura é fundamental para aumentar a minha capacidade na escrita e meu vocabulário”, comentou.

Renato Coelho


Daniel Patire


 
  ACI