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Novembro/2007 – Ano XXI – nº 228   ::   Suplemento [Voltar]
 
:: TRABALHO NO SÉCULO XXI ::

O mundo da produção: passado, presente e futuro
Benedito Rodrigues de Moraes Neto

As pessoas farão atividades em que poderão desenvolver
sua individualidade

O mundo do trabalho passa, desde as duas últimas décadas do século XX, por uma grande transformação, amplamente localizada nos setores que abraçaram a forma taylorista-fordista de produção. Dentre esses setores, sobressai a produção metalomecânica em grande série, cujo exemplo mais famoso é a indústria automobilística.

Para produzir em massa um produto complexo como o automóvel, composto por alguns milhares de componentes, Henry Ford, no início dos anos 1910, realizou transformações nas máquinas-ferramenta, com vistas à hipersimplificação das tarefas dos trabalhadores. Ford também inaugurou a linha de montagem móvel, que se tornaria, muito justamente, a mais famosa representante da grande indústria de montagem, e, para muitos, a representante da mais avançada forma de produção industrial. Baseava-se na utilização intensiva de trabalhadores não qualificados, dedicados a tarefas repetitivas e monótonas, desprovidas de conteúdo. Para a grande planta industrial fordista, o homem sempre foi o mais importante instrumento de produção, e sua utilização era bastante intensa, sendo comum a existência de locais com dezenas de milhares de trabalhadores. Em grande medida, a natureza dessas plantas industriais moldou a natureza da ação sindical e política dos trabalhadores durante grande parte do século XX.

Todavia, uma alteração tecnológica de caráter revolucionário ocorreu nas últimas duas décadas do século XX, e continua em curso, qual seja, a chamada automação de base microeletrônica. Essa transformação permitiu que as tarefas de montagem passassem a ser desempenhadas por máquinas, coisa que a tecnologia anteriormente conhecida não permitiu durante mais de 60 anos. De uma maneira bastante rápida, toda a indústria fordista viu-se encaminhada para o “leito da automação”, no qual já caminhavam há muito tempo outros setores industriais, como o têxtil (desde a Revolução Industrial do século XIX) e o de processo contínuo. Toda a produção industrial passou então a constituir-se numa aplicação tecnológica dos conhecimentos científicos. Portanto, as atividades de trabalho no chão de todas as fábricas caminham na direção daquilo que já ocorre há bastante tempo nas indústrias de processo contínuo, ou seja, um menor número de trabalhadores, dotados de conhecimento técnico, gerenciando um sistema cada vez mais complexo. Para os trabalhadores que permanecerem, pode-se antever uma atividade potencialmente mais gratificante e que utiliza melhor as potencialidades dos indivíduos no trabalho. Todavia, fica uma grande questão: a sociedade pode propor uma alternativa bastante perversa, qual seja, elimina-se um mal, representado pelo trabalho industrial desprovido de conteúdo, e cria-se um outro, sem dúvida maior em termos imediatos, representado pelo desemprego ou pelo subemprego. A forma de superar essa perversa oferta de alternativas é ter claro que a eliminação de trabalhos desumanizadores permite que todos os seres humanos trabalhem naquelas atividades das quais a sociedade tanto necessita, e nas quais eles jamais poderão ser substituídos por máquinas, ligadas a saúde, educação, lazer, artes, entretenimento, informação, cuidados com a natureza e o patrimônio, ciência, tecnologia etc.

Interessante observar que o conjunto das atividades de trabalho que nos reserva o futuro é justamente aquele que permite o desenvolvimento das individualidades daqueles que trabalham e a melhoria da qualidade de vida da sociedade como um todo. Pode-se, a partir daí, organizar as lutas em direção ao futuro, sem qualquer saudosismo. Afinal, Taylor e Ford não merecem saudades!

Benedito Rodrigues de Moraes Neto é professor adjunto do Departamento de Economia da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, câmpus de Araraquara. É autor dos livros Marx, Taylor, Ford: as forças produtivas em discussão (Ed. Brasiliense, 1989) e Século XX e trabalho industrial: taylorismo/fordismo, ohnoísmo e automação em debate (Xamã Editora, 2003).

 
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