UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
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Novembro/2007 – Ano XXI – nº 228   ::   Suplemento [Voltar]
 
:: TRABALHO NO SÉCULO XXI ::

Transformações produtivas e proeminência dos serviços
Anita Kon

A complexidade da especialização em serviços encoraja a aglomeração das funções de alto nível

Desde os anos 1980 e mais intensamente na década de 1990, quando o processo de aceleração das transformações tecnológicas permitiu a difusão da globalização econômica mundial, após a mudança do paradigma fordista para o toyotismo, os modos de produção capitalistas se transformaram consideravelmente. Embora ainda permanecessem economias de escala em produções específicas, a produção em série apresentou tendência à diminuição.

Por outro lado, as economias de escopo se tornaram mais relevantes nas firmas e os parâmetros de competição passaram a ser a qualidade e a adaptação à demanda a partir de alta segmentação de mercado, em que o fornecimento de serviços através da diferenciação do produto adquire muitas vezes maior peso do que os preços. A interação entre serviços e produção manufatureira tornou-se a força impulsionadora da criação de riqueza.

O processo de reestruturação produtiva, que se ampliou primeiramente nos países desenvolvidos, difundindo-se não tão rapidamente para aqueles em desenvolvimento, teve uma dupla causalidade, pois produziu e foi resultado das transformações tecnológicas. Foi influenciado pelas condições de mercado então vigentes em cada economia espacial e pelas características das empresas, que tinham como objetivo restaurar a competitividade industrial.

Como ressaltam os teóricos evolucionistas, a natureza e a dinâmica das capacidades diferenciadas das firmas, no nível microeconômico, passaram a determinar a possibilidade de sobrevivência e crescimento destas unidades, em um cenário de competição interna e internacional acirrada.

As mudanças significativas pelas quais passaram as economias avançadas incluíram a internacionalização acelerada e a ampliação da interdependência de atividades econômicas em forma de cadeias produtivas, cuja integração nacional e mundial foi facilitada pelas indústrias de serviços, com a conseqüente reorganização das firmas dominantes. A tendência mundial dirigiu-se para uma diminuição no papel da intervenção governamental enquanto produtora de serviços, e uma maior ênfase sobre a regulação e a provisão de produtos e serviços produzidos por agentes econômicos privados.

Nesse contexto, os serviços comerciais (producer services) ganham relevância na busca da melhora da produtividade e das vantagens competitivas em todos os setores dinâmicos das economias, com a rápida difusão para atividades em pequenas, médias e microempresas. Nesses serviços, a padronização, os ganhos de produtividade e a constante busca de inovação fazem parte dos reflexos dessas transformações, cada vez mais baseadas no conhecimento e na individualização, assim como os impactos resultantes na flexibilidade das instalações e do trabalho, de modo a permitir a adaptação à crescente personalização da oferta.

Essas novas configurações são sustentadas através de serviços sofisticados de apoio à indústria, como assessoria especializada e planejamento, bem como por serviços financeiros internacionais. Estes últimos asseguram fortes inter-relacionamentos dos canais de produção e distribuição, desempenhando papel relevante no fluxo da economia internacional. Dessa forma, grupos sofisticados de serviços estão substituindo as atividades manufatureiras tradicionais como setores líderes e impulsionadores do processo de desenvolvimento de economias avançadas, fenômeno que se difunde rapidamente para economias em desenvolvimento.

A forma pela qual as qualificações e especializações para atividades de serviços estão presentes na força de trabalho, adicionalmente à capacidade de flexibilização da força de trabalho, influenciam significativamente os padrões locacionais dos mercados de trabalho. A complexidade e diversidade da moderna especialização em serviços encorajam a aglomeração, ao menos das funções de alto nível, enquanto as funções mais rotineiras podem ser mais dispersadas, embora controladas de forma centralizada. Concomitantemente, ampliou-se a demanda nas indústrias por uma força de trabalho mais qualificada, com muitos desses trabalhos rotineiros sendo eliminados pela mudança tecnológica.

A fim de enfrentar as necessidades de novas tarefas técnicas dos processos
de produção e organizacionais, o emprego nas indústrias manufatureiras vem declinando relativamente, em particular devido a certas formas de reorganização da produção que afetam os níveis de emprego: intensificação do capital fixo, racionalização da produção e do investimento e mudança técnica. Paralelamente, a reestruturação foi estendida também aos serviços de consumo privado e ao setor de serviços públicos, adicionalmente aos serviços voltados ao produtor.

Em suma, o crescimento do setor de serviços e suas implicações sobre a reestruturação das economias, sobre os mercados de trabalho domésticos e sobre a divisão internacional do trabalho apresentam diferentes impactos sobre as estruturas produtivas, de acordo com o nível de desenvolvimento econômico dos países, com a capacidade de aumentar os investimentos na modernização tecnológica e com a natureza da qualificação da força de trabalho.

Anita Kon é professora de Economia da PUC-SP, autora de A produção terciária (Editora Nobel, 1992); Economia industrial (Editora Nobel, 1994); e Economia de serviços: teoria e evolução no Brasil (Editora Campus/Elsevier, 2004).

 
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