UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Reitoria
 
     
 
Jornal UNESP :::
Novembro/2007 – Ano XXI – nº 228   ::   Suplemento [Voltar]
 
:: TRABALHO NO SÉCULO XXI ::

Entrevista
Não existe profissão do futuro, mas profissionais de futuro

Maria Beatriz de Oliveira

Jovem deve procurar ler livros e jornais, ver
filmes, fazer
viagens e cursar especializações

Doutora em Educação pela PUC-SP, mestre em Educação pela UFSCar, Maria Beatriz de Oliveira é professora vinculada ao Departamento de Psicologia da Educação da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, câmpus de Araraquara. Além de coordenar o Programa de Orientação Profissional do Centro de Estudos da Infância e Adolescência, ela é a idealizadora da Feira de Profissões da UNESP, câmpus de Araraquara. Nesta entrevista, Maria Beatriz expõe sua visão de como deve ser o perfil do profissional do novo milênio.
(Oscar D’Ambrosio)

Jornal UNESP: Como fica o jovem perante o mercado de trabalho do século XXI?
Maria Beatriz de Oliveira: Fala-se muito em criar uma consciência de mudança, enfocando sempre o atual desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Observo que o homem, como não possui chips ou “placas de expansão”, precisa mudar atitudes e comportamentos frente às novas exigências. Os jovens, diante da discussão que se reduz a questões como qualidade, produtividade, competitividade e desemprego estrutural, acabam por se sentir pouco preparados para enfrentar os novos desafios, frente a exigências e requisitos profissionais para o terceiro milênio. Em vez de entrarmos na vala comum dos “futurólogos”, é preciso que substituamos a atitude de “deixar acontecer” pela competência histórica que é “fazer acontecer”.

JU: Existe uma relação entre o chamado sucesso profissional e a felicidade?
Maria Beatriz: A conquista de uma carreira de sucesso acaba se sobrepondo à conquista da felicidade e à vontade de viver. Os jovens se perguntam: Como conseguir emprego num mundo tão exigente e competitivo? Costumamos dizer que, à medida que a oferta de empregos diminui, contraditoriamente, a economia apresenta índices de crescimento. O emprego, da forma como o concebemos, tende a desaparecer, mas sempre haverá trabalho. O conceito de pedir emprego foi substituído pelo de empregabilidade.

JU: Em que consiste essa empregabilidade?
Maria Beatriz: Precisamos perceber as novas exigências do mercado competitivo. Ele requer pessoas que saibam correr riscos, trabalhar em equipe, apresentar idéias criativas, administrar seu tempo e que tenham múltiplas habilidades, além da curiosidade e flexibilidade. Costumo dizer que somos seres multipotenciais e que o diploma não é atestado de condenação! Os jovens equivocam-se ao buscar uma profissão do futuro. Não existe profissão do futuro. O que existe são profissionais de futuro. Ao iniciar um curso superior, já se começa a construir a carreira profissional. As áreas hoje estão muito diversificadas e interligadas.

JU: O que o mercado pede hoje?
Maria Beatriz: A cultura geral nunca foi tão valorizada como hoje. É necessário que o jovem adquira o hábito de ler livros, ver filmes, fazer viagens, freqüentar cursos de especialização, estar atualizado com a leitura crítica de jornais e revistas, dedicar-se ao uso da informática e ao estudo de idiomas. O profissional do futuro deve ter fluência em, pelo menos, duas línguas. O mercado pede um “cidadão do mundo”, viajado, que saiba se virar tão bem em Londres quanto em Cingapura.

JU: Quais as principais habilidades exigidas e rejeitadas pelo mercado?
Maria Beatriz: Estarão em alta profissões de caráter social, ou seja, aquelas ligadas às áreas de educação, transporte, saneamento, alimentação, preservação do ambiente e comércio, entre outras. Para as empresas, os requisitos mais valorizados hoje, além do domínio da linguagem técnica, são: saber utilizar equipamentos e materiais sofisticados, comunicar-se bem de forma oral e escrita, trabalhar em grupo, observar, interpretar e tomar decisões, adquirir e processar novas informações, pensar antes de fazer, ou seja, ter versatilidade funcional. Os principais defeitos são: falta de visão de conjunto, imediatismo, superficialidade, dispersão e inconstância de objetivos, cultura geral deficitária, pouca criatividade e dificuldade de lidar com pessoas.

JU: Que conselho é possível dar ao jovem indeciso na escolha da profissão?
Maria Beatriz: As atividades profissionais estão em constante mutação. Por isso, o diploma de curso superior não é atestado de condenação, muito ao contrário. O percurso profissional das novas gerações é muito diferenciado daquele das gerações anteriores. Um dos gênios mais persistentes da história foi Einstein. Embora tivesse sido reprovado na admissão para a Escola Politécnica de Zurique, alguns anos depois “mostrou a língua” a todos aqueles que não reconheceram seu talento. Vou repetir uma frase de Confúcio: “Faça o que ama e você não trabalhará um só dia de sua vida”.

 
  ACI