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Novembro/2007 – Ano XXI – nº 228   ::   Suplemento [Voltar]
 
:: ARTES PLÁSTICAS ::

Pintura
Visões em pedaços
A fragmentação da figura humana como sintoma da perda da noção de totalidade no mundo atual

Quando se pensa em obras de arte célebres, é difícil não lembrar de criações que trabalhem com a figuração humana, seja de maneira inteira ou fragmentada. A progressiva retalhação do corpo em partes e planos, inclusive, tornou-se marca registrada da arte moderna. Entender melhor esse processo é uma das preocupações da dissertação de mestrado A figura humana fragmentada na pintura: Tiradentes esquartejado em Pedro Américo e Adriana Varejão.

Apresentada ao Instituto de Artes (IA), câmpus de São Paulo, a pesquisa de Regilene Aparecida Sarzi-Ribeiro trata da representação de corpos em fragmentos na pintura, utilizando como referência o pensamento do teórico italiano Omar Calabrese, para quem o esfacelamento da figura aponta para uma perda da totalidade, da integridade e, em conseqüência, do questionamento da própria identidade.

“Trata-se, para ele, de uma característica do espírito de nosso tempo, que Calabrese denomina de Neobarroco, caracterizado pelo uso de fragmentos e pormenores de imagens, esculturas e trechos de obras aplicados a textos visuais ou literários”, afirma Regilene, professora do curso de Educação Artística da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac), câmpus de Bauru.

A autora parte do neoclassicismo (século XVIII) para chegar ao século XX, período de maior fragmentação na representação da figura humana. Ela estuda diversos cânones da proporção humana, como o egípcio, o de Policleto (século V a.C.), Leonardo da Vinci (XVI) e Cousin (XVIII e XIX). Percorre ainda obras de Rembrandt, Ingres, Degas, Picasso, Francis Bacon e Andy Warhol.

Influência de Géricault

Essa trajetória serve de preâmbulo para uma análise comparativa entre as criações Tiradentes esquartejado (1893), de Pedro Américo (1843–1905), e Reflexos de sonhos no sonho de outro espelho (Estudo sobre o Tiradentes de Pedro Américo), de 1998, de Adriana Varejão. “As duas obras, apresentadas, em módulos diferentes, na XXIV Bienal de São Paulo, de 1998, fazem leituras de um dos principais heróis nacionais e trabalham com a fragmentação do corpo”, comenta a pesquisadora.

Pedro Américo, por exemplo, usa partes da figura humana para representar a condenação, em 1792, do inconfidente Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. “Ele representa o herói nacional destroçado e mutilado”, aponta Regilene. “As suas obras, no entanto, apontam para a sua formação acadêmica, influenciada pelo Romantismo e pelo Realismo.” (Veja quadro.)

O pintor francês Théodore Géricault (1791-1824), conta Regilene, principalmente na obra A balsa da Medusa, pintada em 1819 a partir do naufrágio de uma fragata francesa na costa africana três anos antes, é uma forte influência de Américo. “O artista europeu fez entrevistas com os sobreviventes da tragédia e teve acesso ao depósito em que ficaram os despojos e corpos das vítimas trazidas para a França”, comenta a docente da Faac. “As figuras humanas são retratadas dentro da tradição clássica da pintura histórica, mas a situação que as envolve é de um plano instável, de morte e desespero.”

Regilene observa que Pedro Américo, ao representar Tiradentes esquartejado, segue alguns princípios de Géricault. O artista concebeu a sua representação do corpo com tratamento realístico, com atenção para detalhes anatômicos como cor da pele, unhas e musculatura. “Mesmo representando o corpo por partes e inclusive por separá-las em diferentes estruturas, o artista ainda mantém uma relação de proporção entre elas e demonstra essa preocupação nos estudos a grafite que antecederam a obra”, observa.

Releitura ousada

O trabalho de Adriana Varejão, ao contrário do de Américo, tem um conceito tridimensional. Trata-se de uma instalação em uma sala de 3 m x 3 m x 3 m, com 21 pinturas a óleo de diferentes tamanhos e formatos. “Ela retoma a pintura do artista nordestino e faz dela uma releitura ousada, que resulta na fragmentação definitiva do corpo de Tiradentes e na separação ainda maior dessas partes”, avalia Regilene.

O processo criativo de Adriana, nesse contexto, é muito importante. Primeiro, ela pintou de negro um quarto de seu atelier com as medidas citadas. Em seguida, criou manequins e peças com altura, largura e profundidade, usando como molde as partes esquartejadas na pintura de Américo. Depois, as pintou de branco e as distribuiu pela sala, penduradas no teto.

Nas paredes, colocou espelhos de diferentes formatos e tamanhos que refletiam as peças. A seguir, fotografou o que os espelhos refletiam e, finalmente, pintou em telas o que havia fotografado, ou seja, os reflexos do corpo esquartejado em três dimensões. “As telas foram então colocadas na mesma posição dos espelhos, na sala agora totalmente branca”, conta a docente.

Para Regilene, a instalação de Adriana visa a um questionamento tanto sobre o corpo como sobre questões da identidade nacional e da colonização do Brasil, já que a nação, dentro da atual atmosfera neobarroca, também se apresentaria cortada em pedaços, imersa num jogo de espelhos.

A pesquisa mostra que, nas duas obras, a figura humana é representada por meio de recortes da realidade e do corpo humano. “Enquanto Pedro Américo se aproxima mais de uma poética de uso de pormenores, ainda vinculado a cânones mais clássicos, Adriana Varejão reflete um interesse maior por fragmentos”, conclui. “Ambas nos levam a refletir, porém, sobre técnicas artísticas e sobre o fato social e os aspectos políticos e culturais do enforcamento de Tiradentes.”

Pedro Américo

Pintor, romancista e poeta, Pedro Américo (Areia, PB, 1843 — Florença, 1905) era originário de família humilde. Ao chegar ao Rio de Janeiro, em 1854, estudou no Colégio Pedro II. Descoberto pelo desenhista alemão Bindsel, ganhou uma bolsa na Academia Imperial de Belas Artes, onde estudou entre 1859 e 1864. Embora tenha estudado em Paris numa época de manifestações impressionistas, sua produção manteve-se fiel ao academicismo. Realizou várias obras a pedido de Dom Pedro II, entre elas Independência ou Morte, de 1888, hoje no Museu Paulista.

 

Mesmo dividindo o corpo do herói, Américo obedece a regras clássicas de proporção

 

Adriana Varejão

Nascida no Rio de Janeiro (RJ), em 1964, Adriana Varejão, entre 1981 e 1985, freqüentou a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, e fez sua primeira exposição individual em 1988. Sua obra reproduz elementos históricos e culturais, com temas ligados a colonização, barroco e azulejaria. Investiga também a utilização do corpo humano, da visceralidade e da representação da carne como elemento estético. Seu trabalho ganha forte contemporaneidade em decorrência do acúmulo de materiais, camadas de tinta e informações.

Adriana utiliza espelhos, fotografia e pintura para enfatizar fragmentação da imagem

 

 

 

Oscar D’Ambrosio

 
  ACI