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Novembro/2007 – Ano XXI – nº 228   ::   Suplemento [Voltar]
 
:: LANÇAMENTOS ::

Humor
Quando a ciência vira piada
Com traço ágil e texto afiado, cartunista ironiza valores e práticas do mundo do conhecimento

Dizem que rir é o melhor remédio. Para o cartunista norte-americano Sidney Harris, essa máxima também tem valor na ciência. Pelo menos é o que mostra a sua produção, voltada, desde os anos 1970, para o humor sobre o mundo universitário, os paradigmas da ciência e a vida de cientistas.

O maior mérito de Harris, que já publicou trabalhos em The New Yorker, Playboy, Discover, American Scientist, Science e Chronicle of Higher Education, é encontrar nas diversas facetas da atividade científica motivos para riso. Ele consegue inclusive ironizar a falta de humor de profissionais das mais diversas áreas que, ao se levarem muito a sério, acabam perdendo o próprio senso do ridículo.

A Ciência ri reúne 241 cartuns de Harris. Embora não estejam distribuídos por núcleos temáticos, é possível identificar algumas séries, como a que enfoca diálogos entre cobaias e ratinhos de laboratório. São hilárias as conversas entre eles, analisando os cientistas que lhes dão as mais variadas substâncias para estudar as suas reações, mas principalmente, graças a um desenho solto, que economiza recursos gráficos para se concentrar no essencial, há a ironia de gráficos e planilhas em torno dos animais, verificando suas mínimas reações pelo bem da ciência.

O êxito desses recursos pode ser observado na ironia às noções de percepção, avaliação e gerenciamento de risco, tão necessárias nas mais diversas atividades humanas. É ainda constante no seu trabalho o sarcasmo com a psicanálise, presente em imagens como a de um analista em seu consultório acompanhada do texto: “Emprego o melhor de Freud, o melhor de Jung e o melhor de meu tio Marty, um sujeito muito esperto”.

As fronteiras entre a genialidade, a loucura, o sublime e o cotidiano são numerosas vezes objetos de brincadeira, já que grandes cientistas parecem assumir, em seus momentos mais elevados, atitudes consideradas infantis. O próprio gênero humano sofre cruel sarcasmo, como na cena em que dois golfinhos declaram: “Embora os seres humanos façam som com a boca e ocasionalmente se olhem, não existe evidência conclusiva de que realmente se comuniquem”.

Além de seu traço ágil, a palavra afiada permite a Harris brincar com os mais variados assuntos, como a interação do cientista com as máquinas. Num cartum, especialistas olham para um computador e concluem: “Ele está começando a mostrar algumas características humanas: raciocínio ruim, esquecimento e repetição”.

Também funciona muito bem graficamente ver uma “aula de apreciação de fórmulas no museu de matemática”, em que elas são colocadas como telas num museu. Tornam-se então objetos de desejo e são admiradas como obras de arte, muito mais pela sua beleza plástica e pela assinatura de seus criadores do que pelo seu conteúdo.

A chave do humor de Harris talvez esteja na imagem em que pratica seu poder derrisório com a própria universidade. Coloca um scholar, com a beca, anunciando numa cerimônia de formatura: “...e, conforme vocês progredirem neste mundo, eu prevejo que vão, gradual e imperceptivelmente, esquecer de tudo o que aprenderam nesta universidade”. Trata-se de um alerta bem-humorado para que os cientistas pratiquem algo que lhes falta muitas vezes: a humildade.

A ciência que ri – Sidney Harris; Editora UNESP; 246 páginas;
R$ 38,00. Informações: www.editoraunesp.com.br ou (11) 3242-7171.

Oscar D'Ambrosio

 
  ACI