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Novembro/2007 – Ano XXI – nº 228   ::   Suplemento [Voltar]
 
:: AMBIENTE ::

Paleontologia
Grupo encontra fósseis de samambaias gigantes
Vegetais com mais de 250 milhões de anos achados no Tocantins atingiam dez metros de altura

Fósseis de vegetais do Período Permiano, entre 299 milhões e 250 milhões de anos atrás, foram descobertos por pesquisadores da UNESP no município de Filadélfia, no Tocantins. O material, formado principalmente por fragmentos de caules e folhas de espécies de samambaias gigantes, que atingiam cerca de dez metros de altura, está atualmente em fase de identificação. Além das samambaias, há também sementes e fragmentos fossilizados de outras plantas gimnospermas – que se reproduzem sem a necessidade de produzir flores.

“A descoberta desses vegetais vai permitir a investigação das características ambientais daquela época, o processo de fossilização, o estado de preservação e a forma como os caules se depositaram no solo”, afirma Dimas Dias-Brito, docente do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE) e coordenador do estudo. Além de especialistas da UNESP, as pesquisas reúnem estudiosos da Universidade Federal do Tocantins, Instituto Natureza do Tocantins e Museu de Chemnitz, na Alemanha.

O achado foi feito no ano passado na Floresta Petrificada do Tocantins, que possui cerca de 31 mil hectares. “Trata-se da mais importante floresta fóssil tropical e subtropical do Período Permiano já descoberta no Hemisfério Sul e, por essa razão, ela poderá se tornar patrimônio natural da humanidade pela Unesco”, ressalta Dias-Brito.

Os fósseis analisados pelo grupo foram o tema de um artigo publicado em janeiro na revista do site da Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil (Sigep) e fará parte de um livro sobre a Floresta Petrificada, a ser lançado até o final do ano, com patrocínio da Petrobrás. “São projetos que visam sensibilizar a população e as autoridades sobre a importância científica e cultural dessa área e colaborar para o combate ao tráfico ilegal de fósseis.” (Veja quadro.)

Estudo do material

A equipe coletou cerca de 750 quilos de material, que envolve 200 caules de samambaias Tieteas, Psaronius e Filicales. Os pesquisadores mediram a espessura do xaxim (o suporte formado por pequenos fios que protege o caule) e a parte intermediária dos caules. Calcularam ainda o peso original e a capacidade de flutuação. “Além de retratar o ambiente onde a vegetação original se depositou, vamos analisar os aspectos externos e internos dos fósseis”, afirma Rosemarie Rohn, docente do IGCE e paleobotânica-chefe das expedições ao local do achado.

A pesquisadora enfatiza que ainda é cedo para se definir com precisão o ambiente da época, mas afirma que provavelmente as plantas viviam numa área quente e úmida, à beira de um curso d’água. “Pelo bom estado de preservação dos vegetais é possível reconhecer as células nos tecidos do material coletado e interpretar se na hora da morte eram jovens ou adultos”, destaca. Com os fósseis recolhidos, serão desenvolvidos dois estudos de doutorado, por Robson Capretz e Tatiane Tavares, para descrever de forma mais precisa as espécies de samambaias e analisar o processo de fossilização.

Segundo Rosemarie, a fossilização de vegetais depende do ambiente e das características físicas e químicas da área onde eles foram soterrados por sedimentos. “A petrificação ocorre pela impregnação total dos caules, folhas e sementes por substâncias químicas, geralmente a sílica, que tornam este tipo de fóssil muito resistente e duro”, explica.

Como a maioria dos vegetais estava em posição horizontal, os pesquisadores não acreditam que a preservação do material se tenha dado por influência de um vulcão. “Embora muitos caules já estejam bastante fragmentados, vários pedaços se mantiveram mais ou menos alinhados, conforme a posição original”, retrata Rosemarie. De acordo com a pesquisadora, eles teriam sido depositados em planícies inundadas. “Posteriormente, a areia dos rios se transformou em rochas que passaram depois por processos de erosão, o que fez com que os caules começassem a se fragmentar e aflorar na superfície”, explica.

Acordo com Alemanha

De acordo com as primeiras análises, o aspecto geral das samambaias não se modificou muito do Permiano até hoje. Os estelos, estruturas cilíndricas dos caules, tinham diferentes formações, o que indica que, naquele período, existiam vegetais de diversos grupos distintos. Os fósseis apresentam mais semelhanças em relação aos já encontrados na Alemanha do que no Sudeste e Sul do Brasil. “Isso talvez se deva ao fato de que, nessa época, o leste da América do Sul estava conectado à África e o norte estava ligado à América do Norte e à Europa”, observa Rosemarie.

Por causa das semelhanças dos fósseis com os achados em Chemnitz, na Alemanha, a UNESP assinou recentemente um acordo de cooperação com o Museu daquela cidade. Dimas Dias-Brito informa que um dos projetos futuros dos pesquisadores é a construção, em Palmas, do Museu de História Natural, para abrigar peças como as da Floresta Petrificada. “Após a conclusão das nossas pesquisas, a idéia é enviar as amostras para esse museu, que é visto como estratégico para preservação do material”, afirma.

Fósseis são vendidos, ilegalmente, na Internet

Embora seja um comércio considerado ilegal no País, pedaços de caules da Floresta Petrificada do Tocantins estão sendo vendidos em sites e feiras internacionais, por empresas brasileiras e estrangeiras, principalmente para interessados nos EUA e Europa.
Uma das empresas brasileiras, a Mineração Pedra de Fogo, comercializa os fósseis baseada em uma licença prévia de novembro de 1997, fornecida pelo Instituto de Natureza do Tocantins e pelo Sistema Estadual de Planejamento e Meio Ambiente, que autoriza a realização de pesquisas com madeiras petrificadas na área. Outros documentos apresentados no site como justificativa legal para a venda dos caules petrificados são Guias de Utilização, emitidas pelo 17o Distrito do Departamento Natural de Produção Mineral (DNPM), no Tocantins, que autorizou a retirada de 107 toneladas da jazida.

 De acordo com o procurador federal junto ao DNPM, Frederico Machado, os documentos já foram invalidados pelo órgão, porque a madeira petrificada se enquadra no conceito de espécime fóssil destinado a museus, estabelecimentos de ensino e outros fins científicos. A coleta deveria ser regida por lei especial, conforme o Código de Mineração (Decreto-Lei
no 227/1967). O Ministério Público Federal vai apurar se houve crime contra a administração pública. “Como o proprietário da mineradora recorreu da decisão, ainda não foi possível fazer a apreensão de todo o material”, esclarece Machado. “Os processos foram encaminhados ao Ministério de Minas e Energia, que dará a palavra final.”

 

Julio Zanella

 
  ACI