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Novembro/2007 – Ano XXI – nº 228   ::   Suplemento [Voltar]
 
:: CIÊNCIAS HUMANAS ::

Economia
Análise de 180 anos da dívida pública
Levantamento mostra que expansão do endividamento, por si só, não impede crescimento do País

Ao contrário do que pensa grande parte dos economistas, o crescimento da dívida pública não é necessariamente um fator de redução do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto). A influência do endividamento vai depender da utilização – ou não – dos recursos na expansão econômica e das condições em que ele ocorre. Essa é a conclusão da dissertação de mestrado do economista Guilherme Ziliotto, que analisou 180 anos de história da dívida pública brasileira e seu impacto no desenvolvimento. A dívida pública representa a soma do que os governos federal, estaduais e municipais devem para credores nacionais e estrangeiros.

“Em alguns períodos, o endividamento trouxe efeitos benéficos para o crescimento econômico, como no século XIX, em que os empréstimos financiaram a construção da malha ferroviária do País, e na década de 1970, o setor energético, durante o II Plano Nacional de Desenvolvimento”, afirma Ziliotto. “Já em outros momentos, os recursos foram aplicados nos gastos correntes da máquina pública, por exemplo, com salários, e para o pagamento de juros de outras dívidas, o que provocou redução nas reservas cambiais e no desenvolvimento.”

Ele verificou que nos anos de 1883 a 1889, no começo da década de 1930 e de 1978 a 1982, a dívida pública cresceu de forma acelerada, sem que houvesse um aumento da capacidade de pagá-la. O fenômeno levou o País a crises políticas, inflação, deterioração das finanças públicas e moratórias, como nos governos Vargas e Sarney. “Quando a dívida cresceu pela necessidade de sua rolagem, houve menor crescimento da economia”, acrescenta.

Trabalho complexo

Para o economista, o tamanho da dívida, isoladamente, não condiciona o nível de evolução do PIB. Mais importantes seriam as condições em que ela foi contraída, como juros, tempo de carência, contexto histórico e a aplicação dos recursos. “Por exemplo, durante a Guerra do Paraguai, em 1860, os empréstimos foram usados para financiar a compra de armamento e resultaram em baixo crescimento”, aponta. “Já no período do milagre econômico, entre 1967 e 1974, foram aplicados em investimentos em infra-estrutura.”

Ziliotto encontrou outras variáveis associadas à influência da dívida pública no PIB como saldo de depósitos em moeda circulante, balança comercial, superávit das contas da União, exportações, despesas e receitas totais do setor público. Para determinar as causas e efeitos dos dados colhidos, ele utilizou os testes de Granger, que captam a influência das variações de um fenômeno econômico em relação a outro.

A pesquisa obteve o terceiro lugar no Prêmio Brasil de Economia, divulgado em setembro pelo Conselho Federal de Economia. O orientador, o economista Alexandre Sartoris Neto, destaca a complexidade do processo de coleta, seleção das fontes e organização dos dados de quase dois séculos da dívida pública. “Um dos pontos importantes foi combinar a análise histórica e o uso de ferramentas estatísticas de economia que, apesar de relativamente comum no Exterior, é raro em trabalhos no Brasil”, avalia o docente.

Em sete anos, Economia conquista oito prêmios

Nos últimos anos, as pesquisas realizadas no Departamento de Economia da FCL, Araraquara, têm recebido um crescente reconhecimento no País. Desde 2000, foram conquistados oito prêmios científicos, por pesquisas que abordaram temas como investimentos, câmbio, fragilidades e eficiências setoriais, responsabilidade social das empresas e desenvolvimento sustentável.
O chefe do Departamento, professor Elton Eustaquio Casagrande, aponta o enfoque, adotado há alguns anos, na teoria econômica, história e disciplinas quantitativas. “Passamos a divulgar internamente os concursos promovidos por importantes entidades do setor, o que ajudou a melhorar o diálogo do departamento com as normas e a temática abordadas por tais instituições”, apontou. “Além disso, a conquista dos prêmios é resultado do maior número de alunos e professores envolvidos nos programas de iniciação científica.”

 

Julio Zanella

 

 

 

 
  ACI