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Outubro/2007– Ano XXI – nº 227   ::   Suplemento [Voltar]
 
:: SAÚDE ::

Odontologia
Aparelho usado em restauração dentária pode afetar saúde

Equipamento libera substância que aumenta risco de doença pulmonar no profissional e no cliente

Em consultórios odontológicos, o aparelho de abrasão a ar é utilizado em restaurações dentárias, principalmente na área de clínica infantil. Um estudo realizado na Faculdade de Odontologia (FO), câmpus de Araraquara, comprova que esse equipamento libera partículas de óxido de alumínio (AL2O3) que comprometem o sistema respiratório do profissional e do paciente.

Autor da dissertação realizada no Departamento de Clínica Infantil, Fábio Luiz Ferreira Scannavino explica que o aparelho de abrasão a ar é utilizado pelos cirurgiões dentistas por ser silencioso, não provocar pressão e nem vibração. Essas características preservam o paciente do estresse causado pelos aparelhos convencionais, mais ruidosos.

No estudo, Scannavino detectou que as partículas de óxido de alumínio liberadas pelo aparelho alcançam um raio superior a 60 centímetros, área de ação do profissional. As partículas foram coletadas com placas de Petri, recipientes comuns em laboratórios de análises clínicas, a distâncias de 20, 40 e 60 centímetros a partir da cavidade bucal de um manequim. “A proximidade com a cavidade bucal do manequim, que simula a boca do paciente, expõe o profissional à contaminação”, assinala o pesquisador.

Após alguns testes com o aparelho, as placas foram pesadas no Instituto de Física da USP, câmpus de São Carlos, sob a supervisão do docente Antonio Carlos Hernandes. Para a avaliação dos níveis de óxido de alumínio no ambiente de trabalho, foram utilizadas as determinações do Osha (Occupational Safety and Health Administration), órgão que administra a saúde e a segurança ocupacional nos Estados Unidos.

Falta de normas

O trabalho apontou que no Brasil ainda não há uma legislação que estabeleça os limites de contaminação ambiental necessários para preservar a saúde de profissionais e pacientes. “Essa pesquisa supre uma ausência de legislação”, lembra Scannavino. Uma pesquisa de doutorado também realizada na FO por Cláudia Peruchi mostra que, em animais, as partículas de óxido de alumínio inaladas se acomodam nos brônquios e alvéolos peribronquiais, causando fibrose pulmonar, entre outros males.

Para quem trabalha com o aparelho, a saída para amenizar o problema, segundo Scannavino, é a utilização de equipamentos de segurança, entre eles máscara e óculos de proteção, tanto para o operador como para os auxiliares. Ainda que menos afetado pela poeira, o paciente também deverá usar óculos de proteção e gaze umedecia na região nasal, que teria a função de um filtro.

Uma proposta da pesquisa, que pode ajudar a diminuir a poeira, é o aumento do diâmetro da cânula de sucção, equipamento colocado na boca do paciente para sugar a saliva. Com essa mudança, a cânula poderá aspirar uma quantidade maior do óxido de alumínio, evitando a sua dispersão. “Essa providência pode ser importante para atenuar os riscos da prática profissional”, assinala a orientadora Lourdes Aparecida Martins dos Santos Pinto.

Scannavino lembra que, embora esse aparelho seja fabricado no Brasil, sua pesquisa foi realizada com produtos importados. Segundo ele, a Anvisa (Agência de Vigilância Sanitária), até a conclusão do estudo, ainda não havia divulgado nenhum alerta aos profissionais ou solicitação de modificação do sugador por parte dos fabricantes. Esse estudo integra as atividades do grupo de pesquisa Novas Tecnologias em Odontologia, cujo objetivo é desenvolver equipamentos ou materiais odontológicos.

Cinthia Leone
bolsista Fapesp

 
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