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Agosto/2006 – Ano XX – nº 214   [Voltar]
 
:: Artes Plásticas ::

História bonita de se ver
Nos cinco volumes da coleção Arte Brasileira, docente do IA apresenta de forma didática a produção visual do País, da época pré-colombiana às recentes criações eruditas e populares

Italo Calvino (1923-1985), em seu texto já clássico Seis propostas para o próximo milênio, coletânea de cinco das seis conferências que deveriam ter sido pronunciadas por ele na Universidade Harvard – o que não aconteceu devido ao seu falecimento –, aponta que os caminhos para o homem e a sociedade contemporâneos seriam a exatidão, a rapidez, a leveza, a visibilidade, a multiplicidade e a consistência.

Curiosamente, esses seis aspectos faltam em boa parte dos professores de artes das escolas de ensino fundamental, médio e superior, principalmente quando se reflete sobre o desenvolvimento de um pensamento sobre as manifestações visuais brasileiras do período pré-colonial ao atual.

Uma das múltiplas causas desse problema está na ausência de materiais pedagógicos que contemplem, por exemplo, a arte brasileira de modo didático, mas respeitando a inteligência do professor e, principalmente, a do aluno. Nesse sentido, a coleção Arte Brasileira, composta de cinco volumes, cujos três primeiros foram lançados pela Companhia Editora Nacional
(R$ 26,00 cada livro, informações www.ibep-nacional.com.br), em junho, na Pinacoteca do Estado, em São Paulo (SP), indica como é possível juntar erudição acadêmica com conhecimento pedagógico.

Ponte para o real

Escrita pelo artista plástico e professor de Artes Plásticas Percival Tirapeli, do Instituto de Artes da UNESP, campus de São Paulo, a coleção aborda a história da arte no Brasil desde as inscrições rupestres aos dias atuais. Reúne cerca de 250 fotografias e traz análises, sob os pontos de vista estético e iconográfico, de aproximadamente 15 obras por volume, complementadas com informação histórica.

Os livros incluem breve e essencial bibliografia sobre cada período e, principalmente, estimulam o leitor, seja um aluno de ensino médio ou estudante de arte ou arquitetura, a ter contato direto com as obras. Somente assim a apreciação pode ser dada em seu sentido mais profundo. Quando a página com reproduções se torna uma feliz ponte para a realidade, multiplicam-se as possibilidades de visualização e abre-se a mente do observador.

O primeiro volume, Arte Indígena – do Pré-colonial à Contemporaneidade, retoma desde a arte rupestre até a representação indígena atual. Passa pela arqueologia, pelos séculos XVI e XVIII e por releituras do mundo visual indígena. A obra dá ênfase às Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil, onde foi marcante a presença dos índios.

Merece destaque o breve comentário da releitura feita pelo pintor Glauco Rodrigues da pintura Primeira missa no Brasil, de Victor Meirelles, assim como as propostas estéticas de Lygia Pape de revisitar o manto tupinambá. Feito de penas de diversas aves, o manto tornou-se símbolo da falta de respeito do brasileiro pela própria cultura, já que os seis exemplares que restaram desde a colonização estão em museus europeus.

Da colônia ao império

Arte Colonial – Barroco e Rococó – Séculos XVI, XVII e XVIII, segundo livro da coleção, mostra tanto as fortalezas e vilas coloniais como a pintura e a arquitetura de cidades de Minas Gerais e do Nordeste, sempre com a preocupação de que o leitor possa observar essas obras de forma renovada pelas dicas educativas que o texto comporta.

O volume salienta, por exemplo, os elementos arquitetônicos da fachada da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, em Ouro Preto (MG) e do interior da Igreja Nossa Senhora do Carmo, em João Pessoa (PB), indicando ao iniciante o que são, por exemplo, volutas, capitéis, óculos e outros termos técnicos.

O terceiro volume, Arte Imperial – Neoclássico e Ecletismo, Século XIX, retrata manifestações significativas do império brasileiro e sua presença na era republicana. Mostra como as produções do período, seja na pintura, na escultura ou na arquitetura, tinham, em boa parte, o objetivo de transformar o Brasil numa nação comparável às potências européias.

Surgem, assim, teatros esplendorosos, como o de Manaus (AM), além de edifícios de grande importância política, como o Museu Imperial, em Petrópolis (RJ) e o Palácio do Catete, no Rio de Janeiro (RJ). Isso sem falar em ícones da independência, como a pintura Independência ou morte!, de Pedro Américo, ou o Monumento à Independência, em São Paulo (SP).

Os próximos volumes, a serem lançados até o final do ano, serão Arte Brasileira, Arte Moderna e Contemporânea – Figuração, Abstração e Novos Meios – Séculos XX e XXI e Arte Popular – Séculos XX e XXI, voltado às peças produzidas por artesãos populares.

Hexágono virtuoso

Na coleção agora lançada, as máximas de Calvino se fazem presentes de diversas formas, estabelecendo uma espécie de hexágono da educação artística. A exatidão está nas informações precisas sobre datas, nomes e fontes de pesquisa.

A rapidez ocorre pela preocupação em oferecer informações de cunho enciclopédico, mas não superficiais. Trata-se do exercício de dizer o máximo com o mínimo, que constitui um esforço constante de buscar a essência do que se diz e do que se escolhe mostrar em imagens.

A leveza se dá pelo texto agradável, sem pedantismo, e com glossários, ao final de cada volume, para explicar termos específicos. O segredo está em ser encantatório sem se tornar pedante. Trata-se de uma fórmula difícil, que pode – e deve – ser aprimorada nos próximo volumes.

A visibilidade é um dos maiores méritos da coleção, pois a interação entre o que se vê nas fotografias e aquilo que se diz é realizada com rara competência. Ela é possível pela seleção adequada daquilo que se deseja mostrar e pelo aprofundamento, dentro dos limites do público iniciante almejado pela publicação, da análise de cada pintura, escultura ou elemento arquitetônico estudado.

A multiplicidade é outro mérito, pois a coleção transita por áreas que vão das artes visuais e arquitetura a história, geografia, ciências sociais e filosofia, um pouco dentro do espírito renascentista, tão bem ilustrado por Leonardo da Vinci, de que a verdadeira sabedoria está em saber relacionar elementos como a ciência e a arte.

A consistência de Arte Brasileira está no oferecimento ao leitor de um produto editorial gráfico bem acabado, onde a margem de improvisação, como apontava Calvino, é reduzida, indicando uma lúcida elaboração. Existe um pensamento na construção dos volumes já publicados que certamente se estenderá pelos outros, completando o hexágono virtuoso que Calvino tão bem soube inspirar e Tirapeli coloca em prática, para deleite dos educadores dos mais diversos níveis e, principalmente, espero, das mais diferentes áreas do conhecimento.

Oscar D’Ambrosio

 
  ACI