UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Reitoria
 
     
 
Jornal UNESP :::
Agosto/2006 – Ano XX – nº 214   [Voltar]
 
:: REPORTAGEM DE CAPA ::

Mercado de Trabalho
Estudo com um pé na profissão

É cada vez mais importante o contato do estudante com o mercado, através de estágios e atividades de iniciação científica e extensão.
As empresas juniores incentivam a formação de futuros empreendedores, e as incubadoras ajudam jovens talentos a concretizar suas idéias

Atualmente, diante da crescente concorrência pelas oportunidades de emprego, a preparação para a atividade profissional deve começar já nos primeiros anos do curso de graduação. Por isso, a participação em empresas juniores, estágios, projetos de extensão e iniciação científica tem sido cada vez mais importante para o aluno garantir melhores perspectivas na carreira e exercitar seu empreendedorismo – ou seja, sua capacidade para a abertura de negócios.

“É comum que os formandos entrem em crise ao receber o diploma, pois muitos não sabem onde e como utilizar seus conhecimentos. Portanto, é dever da instituição de ensino prepará-los para este desafio”, diz o reitor Marcos Macari que, no início do ano, assinou um acordo com o Sebrae-SP (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), para a criação da disciplina de Empreendedorismo em nível de graduação. “Para aproximar os alunos do mercado de trabalho, também temos buscado parcerias com entidades como o Instituto Brasileiro de Empreendedorismo e o CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola)”, acrescenta.

A disciplina de Empreendedorismo será optativa, ministrada por docentes da UNESP capacitados por técnicos do Sebrae e terá carga de 60 horas. (Veja quadro nesta página.) Entre os temas a serem abordados estão pequenos negócios, comportamento empreendedor e procedimentos e obrigações para abertura de empresas. “Trata-se de uma complementação que estava faltando para a formação integral dos alunos, principalmente daqueles que queiram abrir o seu negócio ou tenham que administrar escritórios ou clínicas”, argumenta a pró-reitora de Graduação, Sheila Zambello Pinho.

Empresas juniores

Um dos melhores recursos para o exercício do empreendedorismo, durante a graduação, são as empresas juniores. Elas surgiram na França, em 1967, para aprimorar a formação acadêmica e colocar o aluno em contato com as práticas empresariais. Hoje, a UNESP conta com 31 delas (http://www.unesp.br/junior). “Calculamos que haja mais de 1.800 alunos envolvidos com essas iniciativas”, afirma Antonio Massoli Neto, presidente da Consultoria Agropecuária Júnior, do campus de Jaboticabal, que organizou, em junho, o V Encontro de Empresas Juniores para a criação do Núcleo das Empresas Juniores da UNESP (Nejunesp).

A primeira empresa júnior criada na UNESP foi a Paulista Jr., no campus de Araraquara, composta por alunos de Administração Pública, Ciências Sociais, Ciências Econômicas, Letras e Pedagogia. “Realizamos projetos sociais e empresariais a preços reduzidos e abalizados pelo corpo docente, visando colocar em prática os conhecimentos adquiridos e propiciar o espírito empreendedor nos alunos”, diz Julia Rizzi, presidente da empresa e terceiranista de Administração Pública na Faculdade de Ciências e Letras (FCL). Entre os projetos, destacam-se a construção e gestão de uma unidade de produção de absorventes, em um bairro carente da cidade.

Na Faculdade de Odontologia (FO) do campus de São José dos Campos, a Odonto Júnior montou um plano de atendimento odontológico. “Já conseguimos fazer parceria com várias grandes empresas”, diz a presidente da Odonto Júnior, Bárbara Krysttal, segundanista do curso de Odontologia. Ela foi a única representante brasileira num congresso internacional de jovens empreendedores, organizado pela ONU em junho.

Criada por alunos do campus de Tupã, a Empreender Jr. presta consultoria nas áreas de finanças, marketing, recursos humanos, estrutura organizacional e administração, para empresas do agronegócio. “O objetivo é fazer com que os clientes possam se diferenciar cada vez mais no mercado”, diz o presidente da Empreender Jr., Alexandre Terada, do terceiro ano de Administração em Agronegócios. “Por outro lado, buscamos o desenvolvimento profissional e técnico dos alunos envolvidos, a partir da realização de serviços de qualidade a preços acessíveis.”

O papel da extensão

“As empresas juniores permitem aos alunos obter conhecimentos ligados ao empreendedorismo, uma vez que passam a exercitar atividades empresariais relacionadas a gestão de negócios, planejamento, acesso ao crédito e à tecnologia, geração de trabalho e renda”, avalia Maria Amélia Máximo de Araújo, pró-reitora de Extensão (Proex).

A participação em projetos de extensão é outra opção para aumentar as chances de bons empregos. Ao prestar serviços à comunidade, os estudantes põem em prática
os conhecimentos adquiridos no curso e ampliam os contatos na área profissional. A experiência obtida nos projetos melhora, ainda, o currículo profissional.

Hoje, há mais de 300 projetos de extensão em andamento na UNESP. “Eles representam uma espécie de laboratório que apresenta os problemas que os alunos vão vivenciar na vida profissional, o que estimula a reflexão e a provisão de soluções específicas para cada área”, enfatiza Maria Amélia.

Quartanista de Jornalismo na Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac), campus de Bauru, Eliana Barros participou de projetos de extensão desde o início do curso. “Isso contribuiu muito para a minha formação humana e profissional na área de comunicação, em aspectos como organização de atividades artísticas, práticas de reportagem, sugestão de pautas, realização de entrevistas, fotos e textos”, diz a estudante.

Incubadoras em expansão

Para quem, durante a graduação ou a pós-graduação, pensou em viabilizar um produto ou serviço, o caminho mais indicado são as incubadoras de empresas de base tecnológica. Trata-se de uma associação de empresas instaladas no mesmo local, cujos produtos ou serviços devem ser inéditos, não-poluentes e integrar cadeias produtivas. Na década de 1980, as incubadoras não chegavam a dez no País. Hoje, são cerca de 150, que abrigam mais de 6 mil empresas e geram aproximadamente 30 mil empregos.

Estudos apontam que, nos primeiros cinco anos, 60% das pequenas e microempresas brasileiras quebram, enquanto 97% daquelas que foram incubadas permanecem ativas. A explicação está na redução de custos nos primeiros dois anos de vida, pois a incubadora permite compartilhar serviços de contabilidade, internet, seguro, segurança, limpeza e assessoria jurídica.

Com apoio do Sebrae, associações comerciais e prefeituras municipais, nos últimos dez anos, a UNESP ajudou a abrir seis delas, nos campi de Botucatu, Presidente Prudente, Rio Claro, Jaboticabal, Ilha Solteira e Guaratinguetá. A sétima, em Bauru, está em fase de implantação. De acordo com a Pró-Reitoria de Pesquisa (Prope), já foram formadas aproximadamente 60 empresas, envolvendo em torno de 200 profissionais oriundos da Universidade.

Atendendo à demanda

“É um modelo que serve aos alunos com excelentes idéias, mas que não têm condições de colocá-las em prática com maior segurança”, diz Rogério Marcos Alessi, presidente da incubadora de Presidente Prudente, que abriga 15 empresas. Entre os produtos comercializados nesse local está o Girobraile, composto de três cubos que ajudam a aprendizagem de braile, e um software que controla dados do rebanho para abate.

Em Rio Claro, a Fortgeo – Geociências e Meio Ambiente, uma das empresas associadas à incubadora local da UNESP, acaba de receber R$ 400 mil da Fapesp para desenvolver um software de planejamento urbano e gestão ambiental. O geólogo Fábio Meaulo, ex-aluno da UNESP e sócio da empresa, conta que após a graduação percebeu a limitação das pequenas e médias prefeituras em relação à gestão de recursos hídricos. “Então, eu e mais quatro colegas resolvemos abrir uma empresa na incubadora para atender a essa demanda”, acrescenta.

No campus do Lajeado, em Botucatu, a incubadora abriga 12 empresas e mais três estão em fase de seleção. O coordenador Antonio da Silva explica que, para se tornar uma empresa incubada, é preciso passar por duas fases no conselho gestor: a da pré-seleção, em que é apresentado o produto, e a do plano de negócios, onde o proponente deve demonstrar sua viabilidade comercial.

“Nosso objetivo é aproveitar esse verdadeiro berço de produção científica existente na Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA), onde estudam mais de 600 alunos de graduação e pós-graduação”, afirma Silva. Entre as empresas incubadas, ele cita uma que comercializa mudas de duas novas variedades de amendoim para substituir a ração para rebanhos.

O valor do estágio

O estágio em empresas é outro caminho para a empregabilidade dos alunos. A UNESP conta com convênios de estágios, geralmente assinados nos departamentos das unidades, com várias grandes empresas, entre elas, Vale do Rio Doce, CSN, Goodyear, Bayer e Natura. Apenas a Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira (Feis) possui parceria com cerca de 80 empresas e instituições públicas.

O professor Kleber Lanças, da FCA/Botucatu, costuma alertar os alunos sobre a importância de decidirem o mais cedo possível os rumos da sua carreira. No Departamento de Engenharia Rural, onde o docente trabalha, há convênios para estágios com cerca de 20 empresas. “Eu digo para os estudantes que, para obter um bom emprego, é preciso não só possuir o diploma, mas também investir em cursos, estágios e iniciação científica – em resumo, ter iniciativa”, diz o agrônomo.

Ex-aluno da FCA, o engenheiro agrônomo Luiz Marcelo Spadotto é um exemplo de sucesso profissional. Atualmente diretor de uma grande usina de açúcar, ele conta que desde o primeiro ano de graduação já participava de estágios, no Departamento de Engenharia Rural e em empresas. Como resultado, saiu da Universidade praticamente empregado. “Mas o mais importante foram relacionamentos pessoais que estabeleci, seja com pessoas de outras áreas, seja com os colegas das empresas em que estagiava”, conclui.

Diálogo com empresa

A participação em grupos de pesquisa pode ser a ponte para o mercado de trabalho, principalmente no caso de estudos na área de produtos e serviços, em parceria com empresas. Geralmente, os alunos começam a atuar na iniciação científica e mais tarde se integram à empresa. A Faculdade de Engenharia (FEG), campus de Guaratinguetá, por exemplo, mantém esse tipo de convênio com cerca de 100 empresas da região.

“Em função da demanda de conhecimento muito específico, há corporações que preferem que o seu corpo técnico já se forme durante o curso de graduação e de pós-graduação”, diz o docente e engenheiro Jader Alves de Lima, que coordena pesquisas sobre circuitos integrados analógicos. “No nosso caso, são alunos que participam nessa linha de pesquisa desde o segundo ano do curso e saem com uma sólida formação da área”, completou.

O engenheiro eletricista Eduardo Silva, ex-aluno da FEG contratado pela Motorola, conta que se envolveu, durante três anos do curso, em trabalhos de iniciação científica na área de circuitos integrados. “Após a graduação, participei de um programa de formação de especialistas, o que possibilitou, mais tarde, minha colocação nessa grande empresa de semicondutores”, lembra.

Para o pró-reitor de Pesquisa José Arana Varela, a cooperação entre a universidade e as empresas, seja em linhas de pesquisa, seja em estágios, facilita a inserção dos alunos no mercado. (Veja quadro nesta página.) “Eles aprendem a resolver problemas concretos e passam a ser mais conhecidos no meio profissional”, avalia. Mas, segundo ele, a grande maioria dos cursos da UNESP ainda tem pouca interação com o setor privado. “Nosso grande desafio é formar recursos humanos de alto nível, num ambiente de geração e transferência de conhecimento”, afirma.

Docentes participam de oficina de empreendedorismo

De 24 a 28 de julho, foi realizada, em Águas de Lindóia (SP), uma Oficina de Empreendedorismo, atividade que integra o Protocolo de Intenções de Colaboração entre a UNESP e o Sebrae. A Oficina, que teve em sua abertura a presença do reitor Marcos Macari, foi ministrada por capacitadores do Sebrae para 72 docentes da Universidade. Esses professores estão aptos a oferecer a disciplina de Empreendedorismo, de forma optativa, nos cursos de graduação da Universidade, a partir do segundo semestre.

A pró-reitora de Graduação, Sheila Zambello de Pinho, participou de todas as atividades. Divididos em duas turmas, os docentes tiveram aulas sobre planos de marketing, produção, financiamento e organização e gerenciamento.

 

Especialistas propõem aproximação
de ensino, extensão, pesquisa e mercado

A melhor forma de a universidade aumentar as chances dos estudantes no mercado de trabalho é incentivar o modelo de pesquisa associado a empresas, ao ensino e à extensão. A opinião é da docente Maria Cristina Lunardelli, especialista em psicologia organizacional do trabalho da Faculdade de Ciências (FC), campus de Bauru. “A Universidade deve levar em conta as novas necessidades sociais e de mercado na formação profissional do aluno”, avalia.

Também professor do curso de Psicologia na FC, Luiz Carlos Caneo destaca a importância dos projetos de extensão, que permitem a interação do estudante com a realidade, não só reproduzindo conhecimentos, mas gerando novas idéias. “O mercado requer profissionais que saibam enfrentar as dificuldades com criatividade”, enfatiza. Caneo mantém um projeto de extensão que recolocou mais de 400 profissionais desempregados da cidade. “Já na atuação na iniciação científica, os estudantes aumentam sua capacidade de reflexão e aprendem até mesmo a escrever melhor”, comenta.

Na disciplina de Orientação Profissional, do 5o ano do curso de Psicologia da Faculdade de Ciências e Letras (FCL), campus de Assis, os estudantes aprendem a lidar com as dificuldades da carreira e da abertura de uma clínica, do pagamento de taxas e tributos à regularização da documentação na Prefeitura. “Fazemos um projeto de vida profissional, onde o formando resgata toda a sua trajetória no sentido de se organizar para o futuro”, descreve o psicólogo Paulo Motta, responsável pela matéria.

Motta considera que a Universidade poderia fazer mais para a inserção do aluno no mercado de trabalho. “A prática realizada dentro da Universidade é muito diferente, por exemplo, de uma empresa júnior”, diz ele, ao fazer uma autocrítica do próprio curso. “Na Psicologia, não preparamos o futuro profissional para atuar em postos de saúde, mas em clínicas particulares”, enfatiza. “Esses aspectos do ensino precisam ser levados em conta, na próxima reforma curricular.”

A especialista em Educação da FCL, campus de Araraquara, Maria Beatriz Loureiro de Oliveira também propõe que a Universidade defina melhor o perfil do profissional que quer formar. Para ela, o corpo docente, a coordenação de cursos e demais instâncias devem investir na formação integral do aluno e se voltar para as novas exigências do mundo do trabalho. Ela aconselha os estudantes a não se dedicarem somente ao desempenho escolar, mas a conhecer e aprimorar aspectos emocionais e a capacidade de inovação. “Essas são condições básicas para a empregabilidade”, argumenta.

 

JULIO ZANELLA

 
  ACI