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Jornal UNESP :::
Agosto/2006 – Ano XX – nº 214   [Voltar]
 
:: ENTREVISTA ::

Psicologia
Análises da indisciplina na escola

Silvia Parrat-Dayan e Fernando Becker apresentam propostas para enfrentar o fenômeno, como a valorização do convívio em comunidade e um ensino que estimule o diálogo entre professor e alunos

A indisciplina tem preocupado muito educadores e psicólogos. As causas desse problema, a influência de fatores externos à escola, como os meios de comunicação, as alternativas para se garantir uma escola em que o respeito mútuo entre alunos e professores seja uma realidade e as contribuições da Psicologia, enquanto ciência, para se atingir uma escola melhor são algumas das questões tratadas pelos entrevistados Silvia Parrat-Dayan e Fernando Becker.

Silvia é pesquisadora e colaboradora científica nos Arquivos Jean Piaget, em Genebra, Suíça. Obteve seu doutorado em Psicologia Genética e Experimental na Universidade de Genebra, em 1978. Colaborou no Centro Internacional de Epistemologia Genética, sob a direção de Jean Piaget. Após ter ensinado na Universidade de Genebra, foi professora suplente na Universidade de Nancy e professora visitante na USP. Realizou pesquisas nas áreas do desenvolvimento cognitivo e história da psicologia.

Becker é professor titular de Psicologia da Educação na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Desde 1987 desenvolve Seminários Avançados sobre Epistemologia Genética, no Curso de Pós-Graduação em Educação da UFRGS. É graduado em Filosofia, pelas Faculdades Anchieta, São Paulo, e fez Especialização em Lógica e Metodologia Científica na Unisinos, São Leopoldo (RS). É mestre em Educação pela UFRGS e doutor em Psicologia Escolar pela USP.

Jornal UNESP: Quais podem ser as causas para o aumento da indisciplina nas salas de aula?
Silvia Parrat-Dayan: As causas se situam em vários níveis. A expansão do acesso à escola pública proporciona a freqüência de alunos de diferentes culturas. Normas, referências, costumes e maneiras de ser são diferentes de uma cultura a outra e os alunos não conhecem as normas da cultura do professor ou da escola. No interior de uma mesma cultura, o fato de os pais se tornarem menos autoritários e muito mais permissivos pode ser uma outra causa. As diferenças entre os valores da sociedade neoliberal e de consumo (o querer obter tudo de forma imediata, o prazer, o zapping, a competitividade, etc.) e os valores importantes para a escola (o esforço, a abnegação, etc.), assim como a falta de pontos de referência numa sociedade individualista e competitiva, refutando a cooperação e o “saber viver juntos”, trazem a perda do sentido da regra e da obrigação e podem contribuir para a indisciplina.
Fernando Becker: Vejo um problema generalizado, não propriamente de poder, mas de autoridade. Os pais não têm autoridade com os filhos; os professores, com os alunos; os políticos, com os eleitores; os governantes, com os governados; o sistema judiciário e prisional, com os criminosos. Para qualquer norma, inventa-se, imediatamente, uma forma de escamoteá-la; e quem pratica isso não é perturbado. A educação, por sua vez, não consegue formar cidadãos que internalizem as normas e as pratiquem de forma autônoma, porque a escola trabalha com um ensino que não envolve a ação do sujeito. Salvo exceções, a escola não forma sujeitos autônomos, capazes de comportamentos ditados pela própria consciência, e não por instâncias sociais externas, ou seja, sujeitos que se comportem em função do bem comum e não em função do “levar vantagem em tudo”.

JU: Até que ponto fatores externos à escola contribuem para essa indisciplina?
Silvia: Os fatores externos, como os meios de comunicação de massa, contribuem para essa indisciplina porque transmitem os valores da sociedade e porque mostram pessoas reconhecidas socialmente que não respeitam as regras.
Becker: Os meios de comunicação de massa refletem o que acontece na sociedade, seja o que é explícito, seja o que é mantido na penumbra. A impunidade talvez seja a maior instância geradora de indisciplina que existe atualmente. Se, por exemplo, o roubo do erário público não é punido, então tudo é possível. Se uma ameaça de morte ou um seqüestro não recebem punição exemplar, então a autoridade policial ou judicial é desmoralizada.

JU: Quais são as alternativas para combater essa indisciplina?  
Silvia: É necessário criar um conselho de aula onde se discuta o problema da importância, criação, negociação e renegociação das regras. Isso implica deixar os alunos falar sem que a fala seja objeto de punição. O conselho de aula permite regular, responsabilizar o comportamento dos alunos, assim como a criação de uma ligação social. O diálogo entre alunos e professor é importante. O papel do professor é fundamental, porque, em função da idade, os alunos podem ter concepções de responsabilidade, justiça e sanção diferentes. As regras deveriam ser percebidas não só como obrigações ou sanções mas também como direitos.
Becker: Como educadores, temos que olhar a escola e perguntar o que estamos fazendo. Estamos satisfeitos com o que fazemos? Estamos formando cidadãos capazes de decidir com autonomia e olhar o bem comum? Ou formamos uma maioria de cidadãos subservientes e uma minoria de cidadãos arrogantes, prontos para toda espécie de abuso de poder? Enquanto não trabalharmos decididamente na direção de uma pedagogia participativa, que envolva o aluno em atividades compartilhadas, num ambiente sociomoral de respeito ativo ao outro, em que o aluno é solicitado a falar, a dizer seu ponto de vista e a respeitar o ponto de vista dos outros, não estaremos contribuindo para formar o cidadão novo para a sociedade do conhecimento, da participação e da autonomia.

JU: Em que medida a Psicologia pode contribuir para estudar e diminuir o problema?
Silvia: A psicologia poderia estudar o problema observando os conselhos de aula, pesquisando sobre o seu funcionamento, criando e estudando situações de diálogo entre alunos, utilizando a escrita como mediação, estudando ou ensinando a argumentação nos grupos de alunos, criando situações onde o viver junto seja considerado como um valor e um desejo.
Becker: A Psicologia tem um papel fundamental na medida em que pode explicar a dinâmica do desenvolvimento humano e mostrar que esse desenvolvimento melhora de qualidade na medida em que põe, no seu horizonte, a liberdade e a autonomia. Nada transformamos ao formarmos um indivíduo incapaz de situar-se na sociedade como um entre muitos, como alguém capaz de colocar-se no lugar dos outros, que vislumbra a sua realização e felicidade na realização e felicidade dos outros. A Psicologia pode mostrar que os desenvolvimentos cognitivo, afetivo, estético, social e moral constituem aspectos de um único e harmônico desenvolvimento humano. É a solidariedade dessas diferentes faces do desenvolvimento que possibilita uma qualidade de vida superior.


 
  ACI