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[ n. 201/junho 2005]

Págs. 08 e 09

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::REPORTAGEM DE CAPA::

BARULHO A BORDO
Quase dois terços dos motoristas aprestnam perda de audição, segundo levantamento freito na cidade de São Paulo. Conflito entre leis trabalhistas ede trânsito impede sokução para o problema





Julio Zanella

Submetidos a um ambiente de trabalho com elevado nível de ruído, às vezes durante mais de 10 horas por dia, muitos motoristas de ônibus urbanos da cidade de São Paulo estão perdendo a audição. O alerta é do engenheiro João Candido Fernandes, docente do campus da UNESP em Bauru, que coordenou um estudo com 51 profissionais de uma empresa de ônibus da capital paulista. No levantamento, foram diagnosticadas perdas auditivas em 64,7% dos participantes.

Em quatro das linhas avaliadas, o barulho esteve sempre acima dos 90 decibéis, tendo como pico 94 decibéis, o equivalente ao ruído provocado por alguns helicópteros. Uma linha registrou uma média um pouco menor, mas também elevada, de 85 decibéis. Os dados reforçam os resultados de outras pesquisas com essa categoria profissional realizadas por Fernandes que há 30 anos se dedica ao estudo de questões da área de acústica.

A situação que o estudo apontou ainda está longe de uma solução, segundo o engenheiro, devido ao conflito entre as leis hoje vigentes no País. De acordo com a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), em caso de exposição a ambientes que registram acima de 85 decibéis, durante oito horas por dia, o trabalhador precisa ter sua audição protegida. No entanto, o uso dos protetores de ouvido por motoristas é vetado pelo Código Brasileiro de Trânsito. “O uso de qualquer tipo de tampão poderia diminuir em 20 decibéis a exposição ao ruído para esses profissionais”, comenta o docente da Faculdade de Engenharia (FE).

O trabalho fez parte de um amplo relatório técnico de inspeção do ambiente e condições de trabalho realizado pelo Centro de Referência em Saúde do Trabalhador de São Paulo (Cerest/SP). Do levantamento, realizado em 2004, também participaram as então alunas de graduação Teresa Marinho, da UNESP, e Viviane Mendes Fernandes, da Universidade do Sagrado Coração, de Bauru.

Níveis da perda

A perda auditiva dos motoristas foi medida separadamente em cada um dos s
ocial muito prejudicada, porém, nesse caso, também pode haver outros componentes ligados à perda, como fatores genéticos ou enfermidades.”

Embora a maioria dos atingidos tenha graus baixos da doença, o estudo demonstra que ela aumenta com o tempo de trabalho. Dos 51 examinados, 28 tinham entre seis e 10 anos de profissão. Destes, 21 trabalhadores – ou seja, 75% desse grupo – apresentaram algum grau de perda auditiva, enquanto que, entre aqueles com até seis anos de atividade, a porcentagem foi de 66%, conforme os laudos audiométricos.

Também ficou evidente que o ouvido esquerdo era o mais atingido: 62,8% dos pesquisados apresentaram perdas nesse ouvido, ante 49,1% que registraram alPara mostrar a contradição entre as leis brasileiras, Fernandes aponta o caso de uma empresa de ônibus de Bauru, que estabeleceu o uso de protetores entre seus empregados, que acabaram multados pelos guardas de trânsito. “A alegação dos guardas é que eles não conseguiam diferenciar o protetor auditivo dos fones conectados a aparelhagem sonora ou telefone celular, como proíbe o Código de Trânsito”, conta o docente.

De acordo com a portaria de 20 de agosto de 1992 do DNSST (Departamento Nacional de Segurança e Saúde do Trabalhador), sem o equipamento de proteção, nos níveis de ruído detectados na pesquisa, o máximo de exposição diária permissível seria de quatro horas. “O problema é que muitos cumprem jornada de até mais de 10 horas diárias, o que acaba agravando o problema”, observa Fernandes.

Baseado em pesquisas anteriores, o especialista já considera muito altos os limites da lei brasileira – que tolera um nível de ruído de até 85 decibéis durante oito horas. Ele enfatiza que possui dados indicando que trabalhadores expostos a índices menores que esse patamar também podem adquirir a Pair. “Um estudo feito em uma fábrica de Bauru, em 2000, verificou que o ruído máximo detectado era de 83 decibéis e que, mesmo assim, 30% dos 50 trabalhadores apresentavam perda auditiva”, assinala. A principal causa de barulho, segundo Fernandes, é a localização do motor na parte da frente do ônibus. Ele menciona um outro estudo na capital paulista, feito em 2002, com essa categoria profissional: “Os motoristas que trabalhavam com o motor na dianteira do veículo recebiam ruídos de 83,6 decibéis em média, enquanto aqueles que dirigiam ônibus com motor traseiro eram submetidos a um nível médio de 77 decibéis”, compara.

Para Roberto Barduco, gerente de design da Empresa Caio/Enduscar de Botucatu-SP, que há 60 anos produz ônibus urbanos para o mercado interno e externo, a colocação do motor na parte dianteira do veículo é opcional e depende da solicitação da empresa cliente. “A questão é mercadológica, ou seja, por serem mais baratos, os veículos com motor na frente são os mais procurados”, informa. “Já os de motor traseiro que fabricamos são em sua grande maioria exportados.”
A razão do preço maior para os veículos com motor traseiro, segundo Barduco, estaria na exigência de um sistema de embreagem mais complexo e de um motor mais potente. Ele garante que os ônibus saem da fábrica com níveis de ruído dentro dos permitidos pela legislação brasileira. “O problema é que, com o tempo de uso e a falta de manutenção, o barulho aumenta muito”, avalia.

Sugestão de mudança

O professor Osmar Vicente Rodrigues, da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) do campus de Bauru, acrescenta outro motivo econômico para a escolha das empresas de ônibus: segundo ele, os veículos com motor na parte dianteira proporcionam um número maior de assentos para os passageiros.

Na sua opinião, uma solução para amenizar o nível de ruído interno seria a utilização de materiais de isolamento acústico mais eficazes. “Em termos de design, uma opção seria colocar o motor mais avançado em relação à carroceria, para que o seu ruído não ficasse na parte interna do veículo”, sugere. Procurado pela reportagem do Jornal UNESP durante vários dias, para discutir os resultados das pesquisas e a opinião emitida pelos especialistas, o Sindicato das Empresas de Transportes Coletivos Urbanos de Passageiros da cidade de São Paulo não se manifestou sobre o assunto.

Para Fernandes, os transtornos que afligem os motoristas de ônibus poderiam ser solucionados, se houvesse mais agilidade na adaptação da legislação trabalhista e do Código de Trânsito à realidade brasileira. “Algumas propostas de alteração dessas leis estão paradas no Congresso Nacional há mais de 10 anos, sem qualquer apreciação pelos deputados”, enfatiza o docente. “Enquanto isso, quem sofre são esses trabalhadores.”

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