Biologia
Os sobreviventes
Surgidos há 4 bilhões de anos e com potencial para resistir mesmo às terríveis conseqüências de uma guerra nuclear, os microorganismos são responsáveis por males como a varíola, a malária, a Aids, a ameaça do antraz e por epidemias como a Peste Negra, na Idade Média. Mas também existem aqueles que são benéficos para a humanidade, como os vitais para a saúde ambiental, os que combatem doenças e os que fermentam a cerveja e o vinho.

Evanildo da Silveira

Ilustração: Artur Lopes.    Eles estão em toda parte, no ar que respiramos, na água que bebemos, nos alimentos que comemos e até em nosso corpo e nas nossas entranhas. Estamos falando dos microorganismos – também conhecidos como micróbios ou germes –, seres microscópicos, invisíveis, mas cuja massa total, calcula-se, é 25 vezes maior do que a de todos os outros seres vivos macroscópicos do planeta juntos, incluindo nós, os humanos. Apesar de a imensa maioria das espécies ser inofensiva ou útil para o homem, a imagem dos micróbios – bactérias, vírus, fungos e protozoários – está associada a doenças e à morte. Por isso, não é de estranhar que, entre os mais conhecidos, estejam o vírus da Aids (HIV), os protozoários da malária (Plasmodium falciparum, P. malariae, P. vivax, e P. ovale) e, agora, o bacilo do antraz (Bacillus anthracis). (Veja quadro.)

    Talvez essa associação se deva em parte às grandes epidemias pelas quais passou a humanidade ao longo de sua história. A mais célebre delas é a peste bubônica, conhecida também como Peste Negra, que varreu a Europa entre os anos de 1346 e 1353, matando um terço de sua população. Essa doença terrível é causada pela bactéria Yersinia pestis – o nome é uma homenagem ao bacteriologista francês Alexandre Yersin (1863-1943), que a descobriu em 1894 –, transmitida ao homem pela picada de uma pulga que infesta os ratos. "Essa talvez seja a mais perigosa de todas as bactérias", diz o biólogo Rubens Cruz, do Departamento de Ciências Biológicas, da Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da UNESP, câmpus de Assis. "Ela é letal em 90% dos casos."

    Não tão letal, mas também altamente perigoso, é o vírus da varíola (pox- virus), doença que, embora esteja erradicada desde o final da década de 1980, ainda apavora nestes tempos em que se fala tanto de guerra biológica. O último caso da doença foi registrado na Somália, em 1977, mas há estoques do vírus guardados nos Estados Unidos e na Rússia. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já recomendou a sua extinção, mas as autoridades dos dois países alegam que precisam desses vírus remanescentes para produzir vacinas, caso a doença retorne, pois desconfia-se que possam existir mais desses vírus em mãos de terroristas.

    De fato, no caso do eventual retorno dessa doença, só uma vacina poderia controlá-la. "A varíola apresenta uma taxa de mortalidade em torno de 20%, mas o vírus que a causa é altamente transmissível", informa o biólogo Olavo Speranza de Arruda, do Departamento de Biologia, da Faculdade de Ciências da UNESP, câmpus de Bauru. "Além disso, como todos os vírus, não tem tratamento eficaz." Arruda explica que, para se multiplicarem, os vírus alojam-se dentro de uma célula do hospedeiro, o que torna difícil atingi-los e combatê-los sem causar efeitos colaterais graves. Daí a importância das vacinas.

    O HIV-1, o vírus da Aids, é outro flagelo que vem matando milhares de pessoas em todo o mundo desde que apareceu nos anos 1980. Sua origem talvez seja um pouco mais antiga, no entanto. Estudos genéticos recentes do HIV-1, publicados na revista científica norte-americana Science, sugerem que o vírus se originou em chimpanzés e infectou os primeiros seres humanos, na África, por volta de 1930. Para que isso fosse possível, o HIV-1 teve de sofrer mutações para se adaptar ao novo hospedeiro, o que o tornou fatal para o homem.

    Mas nem só de flagelos e inimigos mortais do homem é feito, no entanto, o mundo invisível dos microorganismos. Também existem os micróbios "do bem". Um exemplo notável é a levedura Saccharomyces cerevisiae (fermento de padaria). "Sem dúvida, é o microorganismo mais utilizado pelo homem", garante o microbiologista Fernando Carlos Pagnocca, do Departamento de Bioquímica e Microbiologia, do Instituto de Biociências (IB) da UNESP, câmpus de Rio Claro. "Graças a esse microorganismo, bilhões de dólares são movimentados anualmente em diferentes indústrias, que exploram seu potencial fermentador para produção de bebidas."

    De acordo com Pagnocca, todas as cervejas e vinhos dependem da S. cerevisiae para serem feitos. Assim como o Programa de Álcool brasileiro (cerca de 10 bilhões de litros anuais), também o pão nosso de cada dia necessita dessa levedura para fermentar o açúcar e gerar CO2 (gás carbônico), que faz a massa crescer e ficar leve. "Até a produção de nossa cachaça precisa desse micróbio para desdobrar o açúcar em álcool", explica Pagnocca. "Essa levedura não é, entretanto, o único germe que ajuda a tornar a nossa existência mais prazerosa. Há outros que também fazem isso, como as bactérias que produzem vinagres, as que dão o sabor e o aroma a centenas de tipos de queijos e as que produzem coalhadas, iogurtes, picles, chucrute, tofu, shoio e uma grande variedade de outros alimentos."

    A lista dos micróbios "do bem" não acaba aí. Nela devem ser incluídos também aqueles que trabalham anônima e silenciosamente, mas são vitais para a saúde ambiental do planeta. "São os que realizam, de maneira invisível, um trabalho de faxina semelhante ao que é feito pelos urubus", diz Pagnocca. "Eles consomem a matéria orgânica, como folhas, troncos, cadáveres de insetos e outros animais, lixo e todo tipo de material, seja ele natural ou produzido pelo homem."

    Sem a decomposição dos seres que vivem e morrem na Terra, a vida ficaria inviável nesse canto do universo. Também ficaria mais difícil se não existissem microorganismos que combatem as doenças causadas por outros microorganismos. "A partir de alguns deles, são sintetizadas moléculas químicas com propriedade antimicrobiana", explica o biólogo Pedro de Oliva Neto, do Departamento de Biologia, da FCL da UNESP, câmpus de Assis. "Um dos mais conhecidos é, sem dúvida, o Penicillium notatum, descoberto por acaso pelo médico e bacteriologista inglês Alexander Flemming (1881-1955), em 1928, e do qual se produz a penicilina." Mas há vários outros antibióticos que são produzidos por microorganismos, como a Estreptomicina e a Eritromicina, feitas por bactérias do gênero Streptomyces, e das Cefalosporinas, por fungos do gênero Cephalosporium.

    Os micróbios podem ser úteis também vivendo e agindo no próprio corpo do ser humano. E são muitos os que fazem isso. Nosso corpo tem 10 trilhões de células e 100 trilhões de microorganismos. Os mais comuns habitam os intestinos ou regiões como a pele e os genitais. "Eles competem com outros microorganismos nocivos que poderiam nos atacar e, assim, nos protegem", explica Oliva. "Nos intestinos, por exemplo, vivem micróbios dos gêneros Lactobacillus e Bifidobactérias, que impedem o desenvolvimento de certas bactérias patogênicas como os Clostridium."

    Na verdade, nossos intestinos são um paraíso para os microorganismos, a maioria "do bem". "Eles estão cheios de bactérias", revela Pagnocca. "Admite-se que cada grama de fezes contenha cerca de 107 (o algarismo um seguido de sete zeros) bactérias apenas do grupo coliforme, sem contar com outros tipos também bastante numerosos." Em peso, segundo outras estimativas, metade das fezes é composta por microorganismos, mesmo eles sendo microscópicos – as bactérias têm dimensões que variam de 0,2 a 10 micrômetros de comprimento (um micrômetro equivale à milésima parte de um milímetro).

 

    Os seres humanos não nascem, no entanto, com micróbios. "Na vida intrauterina somos, assim como os animais, isentos de microorganismos", diz Arruda. "O contato com eles começa a partir do momento do parto e se prolonga por toda a vida." Com a amamentação, por exemplo, o organismo entra em contato com bactérias do leite (lactobacilos). A respiração, por sua vez, conduz microorganismos do ambiente para o interior do recém-nascido, o mesmo fazendo a alimentação com bactérias como a Escherichia coli e outras semelhantes (coliformes).

    Pouco a pouco, esses microorganismos vão entrando em equilíbrio com o hospedeiro e se constituem na chamada flora normal do corpo humano. Podem ocorrer desequilíbrios, no entanto, causados pela ingestão de um antibiótico, por exemplo. "O remédio pode matar algumas espécies bacterianas da flora normal", diz Arruda. "Em conseqüência, esse espaço deixado é ocupado por outras espécies, alterando-se o equilíbrio nesse local ou região. Processo semelhante pode ocorrer quando comemos algum alimento ‘estragado’, isto é, contaminado por certos microorganismos". As conseqüências são desagradáveis. Como isso ocorre no trato intestinal, podem ocorrer diarréias, que nada mais são do que uma defesa do organismo, que assim procura eliminar rapidamente os micróbios invasores.

    Se o homem declarasse uma guerra total aos micróbios provavelmente perderia. Estima-se que os primeiros microorganismos devam ter surgido entre 3,9 e 3,3 bilhões de anos atrás, enquanto nossos ancestrais mais antigos apareceram há não mais do que 8 milhões de anos. Em termos comparativos, acabamos de chegar. Os micróbios, portanto, tiveram muito mais tempo para se adaptar e evoluir. Talvez por isso é que Louis Pasteur (1822-1895), o pai da Microbiologia Moderna, tenha dito certa vez: "Messieurs, c’est les microbes qui auront le dernier mot", ou seja, "os micróbios terão a palavra final". "O que ele quis dizer com isso é que depois que estivermos mortos, eles ainda estarão vivos (e farão a nossa decomposição)", explica Pagnocca. "Podemos estender isso para uma guerra nuclear ou algo desse porte. Devido ao seu número elevado, os microorganismos têm maior chance de escapar de uma catástrofe dessa natureza e assim recomeçar a vida na Terra."

 

O mundo do horror

Guerras bacteriológicas não são novidade

    "E haja pó sobre toda a terra do Egito, donde resultarão nos homens e nos animais tumores por toda a terra do Egito (Êxodo; 9:9)". A frase anterior, do Antigo Testamento, é uma demonstração de que a bactéria que hoje espalha o pânico nos Estados Unidos e apreensão no resto do mundo é conhecida há muito tempo. O Bacillus anthracis, causador do antraz, pode ser, portanto, uma das dez pragas enviadas por Deus sobre o Egito para obrigar o faraó a deixar partir os hebreus.

    Religião à parte, o certo é que o B. anthracis é, pelo menos, tão antigo quanto a civilização. "É uma bactéria que vive no meio ambiente", explica o médico veterinário Antonio Carlos Paes, chefe do Departamento de Higiene Veterinária e Saúde Pública, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da UNESP, câmpus de Botucatu. "Dali ela contamina os animais, principalmente os ruminantes, como bovinos, ovinos e caprinos. Pode também atacar, com menos freqüência, eqüinos e suínos. Tanto em uns como nos outros causa uma doença chamada carbúnculo hemático. Em humanos, é mais rara a contaminação."

Bibliothèque Royale Albert ler, Bruxelas.    Quando isso ocorre, é por uma de três formas: cutânea, inalação ou gastrointestinal. O primeiro caso, o menos grave, que representa 95% das infecções, pode acontecer quando uma pessoa com um corte na pele entra em contato com a bactéria, ao lidar com animais ou partes (carne, lã, crina) deles contaminados, por exemplo. Os sintomas são um inchaço ou lesão que coça, eventualmente coberta por uma crosta negra. O infectado sente ainda dores de cabeça e musculares, febre, náusea e vômito. Cerca de 20% dos casos não tratados levam à morte.

    O antraz intestinal é um pouco mais grave e pode causar a morte de 25% a 60% dos contaminados não tratados. Ele se desenvolve em pessoas que consumiram carne proveniente de animais infectados e caracteriza-se, inicialmente, por uma inflamação aguda do trato intestinal. Além disso, o doente apresenta náuseas, perda de apetite, vômitos e febre seguidos por fortes dores abdominais, vômito de sangue e diarréia intensa.

    A forma mais letal de contaminação, no entanto, é a contraída por inalação. No início, a doença causa problemas respiratórios, parecendo-se com um resfriado ou uma gripe. Se não é tratada logo, o bacilo começa a se espalhar e a segregar uma exotoxina mortal, que danifica o tecido pulmonar e rompe os vasos sangüíneos. Os pulmões podem se encher de fluidos, o que causa dificuldades respiratórias e má distribuição de oxigênio ao organismo. O resultado é choque, coma e morte. Sem tratamento imediato, é fatal em 99% dos casos.

    Apesar dessas possibilidades, Paes garante que, pelo menos no Brasil, não há motivos para pânico. "O antraz, ou carbúnculo, é uma doença da área veterinária", tranqüiliza. "Afeta principalmente animais. Mesmo assim, já é rara hoje em dia. A última epidemia no Estado de São Paulo ocorreu em 1982." Como se não bastasse, Paes garante que o B. anthracis não é o microorganismo mais adequado para o assassinato em massa. "Ele é perigoso no contato individual com as pessoas, mas não é eficiente para atingir um grande número de indivíduos ao mesmo tempo", assegura. "Já se estimou que seriam necessários 100 kg de pó de antraz, espalhados por avião, para causar uma epidemia numa cidade como Nova York. Não é algo fácil de se conseguir."

    A capacidade de causar mortes, portanto, não deve ser o motivo de os supostos terroristas terem optado pelo antraz como arma de uma guerra biológica. A escolha desse micróbio está mais ligada a outras características suas, como a facilidade de multiplicação em laboratório a baixo custo e a capacidade de sobreviver no meio ambiente por longos períodos. "O B. anthracis, em contato com o oxigênio, esporula, ou seja, transforma-se em esporos que podem sobreviver durante décadas no meio ambiente", explica Paes.

    Guerras bacteriológicas mais eficientes e letais já foram levadas a cabo no passado. Os primeiros registros históricos de que a maldade humana não tem limite datam de 1346, quando cadáveres infectados com peste bubônica foram catapultados pelos tártaros por cima dos muros da cidade de Kaffa (atual Feodossia, na Ucrânia). A cidade foi conquistada, mas a um preço enorme. A partir dali, a peste bubônica se espalhou pela Europa, dizimou um terço da população e a epidemia que gerou ficou conhecida na história como Peste Negra.

    Desde então, de vez em quando, o homem tem lançado mão desse recurso abominável para vencer seus inimigos. Em 1763, por exemplo, os britânicos enviaram lençóis e cobertores retirados de seus hospitais que tratavam vítimas de varíola para tribos indígenas hostis do vale do rio Ohio, nos Estados Unidos, então colônia inglesa. Sem defesas imunológicas, os índios morreram como moscas.

    Na Primeira Guerra, os alemães contaminaram animais de países neutros para exportá-los aos países aliados contra eles. Entre 1936 e 1945, houve outro exemplo da barbárie humana. O Exército Japonês fez experiências com antraz, tifo, malária, varíola, peste bubônica e cólera com prisioneiros chineses na Manchúria, região que esteve sob sua ocupação entre 1932 e 1945. Como diria Kurtz, personagem principal do livro O coração nas trevas, de Joseph Conrad, que foi transportado para o filme Apocalypse Now, de Francis Ford Copolla: "O horror, o horror".

 

 
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