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“Pensei em desistir várias vezes... Mas abandonei a ideia por causa das amigas que moram comigo e pela qualidade do curso”, diz Rayanne Silva, estudante do curso de Turismo, do câmpus de Rosana. Natural da cidade paulista de Itu, ela, aos 18 anos, enfrenta a distância da família para alcançar o objetivo de se formar e trabalhar na carreira com a qual sonhou.
Rayanne é uma das sete moradoras da república “Chiclete”, criada em 2006 pelas moradoras-fundadoras Paula Molina, vinda da cidade de São José do Rio Preto (SP), Singrid Teixeira, de Botucatu (SP), e Thaís Morettin, de Santo André (SP). A república apresenta as contradições vividas por tantos outros jovens, que partem das casas dos pais para se formarem nos cursos universitários de sua preferência.
A saudade convive com experiências intensas de respeito e companheirismo. “O bom de morar em república é viver junto a pessoas que discutem coisas interessantes e ser prestativa, pensando mais no conjunto do que em si mesma”, diz Singrid. Na casa, residem também Jéssica Becker, de Cascavel (PR), Melissa Liao, de Bauru (SP), e Natália Leuzzi, de Guararapes (SP).
O custo da liberdade
Longe de casa, a liberdade é outro sentimento que surge com força entre os jovens. “Não haver cobranças é ótimo, mas o pessoal abusa. Às vezes, incomodam quando chegam tarde, falando alto”, reclama Bruno Santos, aluno do quarto ano de História, da Faculdade de História, Direito e Serviço Social (FHDSS), câmpus de Franca. Ele vive na república “Cortiço” – nome inspirado na obra de Aluísio de Azevedo.
Bruno veio de Campinas (SP) e divide um apartamento, de três dormitórios, com João Bronzato, de Sorocaba (SP), Nayara Moura, de Mogi das Cruzes (SP), também estudantes de História, e Diego Toloto, de Amparo (SP), que cursa o terceiro ano de Direito. “Aqui, tenho mais liberdade que na casa dos meus pais para expressar minha posição ideológica”, destaca João. Contudo, a independência carrega a responsabilidade, como a de manter a casa em ordem.
“Optamos por não ter empregada doméstica, e as coisas funcionam, na maioria das vezes. Costumo pegar no pé quando o assunto é limpeza, mas só fico inflexível mesmo quando vamos receber visita”, afirma Nayara.
Já na república “Sem nome”, as quatro moradoras, e estudantes do curso de Psicologia, da Faculdade de Ciências (FC), câmpus de Bauru, reúnem-se para resolver problemas, que, normalmente, envolvem a manutenção e a limpeza da casa de 4 quartos, 3 banheiros, sala, cozinha e um canto para os amigos que lá se hospedam. Bruna Mares Terra, de São José dos Campos (SP), Leila Grizzo Canettieri, de São Paulo (SP), Nathaly Lamas Garcez, de Santos (SP), e Roselea Balbinot, de Americana (SP), também cozinham e trocam a resistência dos chuveiros. “Como a casa é antiga, é frequente os chuveiros queimarem mais de uma vez durante o inverno”, conta Nathaly.
Entre problemas na casa e a correria de estudar e trabalhar, as garotas encontram-se mais na hora das refeições. Nessas horas, conversam dos sonhos, medos, amores e planos. “Somos amigas. Mas isso não impede de acontecerem discussões entre nós. Afinal, conviver é difícil e o inferno sempre são os outros”, reflete a santista.
A arte da tolerância
Conviver com pessoas de cidades e costumes diferentes pode acarretar alguns conflitos. “As pessoas que moram com a gente são as melhores e as piores coisas de se viver em uma república. Podemos discutir porque alguém comeu o último pedaço do nosso bolo; ter que ouvir música que a gente não gosta; ou ser obrigada a escutar alguém cantarolar quando é necessário estudar. Mas tudo se ajeita. Só não podemos ficar sem nossa nova família”, fala Érica Erba, moradora da república “Casa da mãe”.
Érica estuda Geografia, no Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE), câmpus de Rio Claro. Oriunda de Sorocaba (SP), ela divide as contas, tarefas e a vida com as também futuras geógrafas Camila Barbosa, de Andradas (SP), Caroline Luccon, de Santo Antônio de Posse (SP), e Graziela Meneghetti, de Piracicaba (SP), além da estudante do curso de Matemática, do IGCE, Leila Mascaro, de Barra Bonita (SP).
O primeiro passo nesse mundo novo não é dado sem hesitações. Para Marília Pizetta, de Santa Rita do Passa Quatro (SP), tomar a decisão de morar com pessoas desconhecidas pode ser inicialmente muito desconfortável. “Fiquei com medo de não gostar das pessoas com quem fosse morar e também de que elas não gostassem de mim. Mas depois percebi que valeu a pena. Temos um companheirismo muito grande na hora de cuidar umas das outras”, confessa.
Fundada em março de 2007, a república feminina “Déjà Vu” é constituída por quatro estudantes da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA), câmpus de Botucatu. Além de Marília, moram ali Camila Alonso, de Campinas (SP), do curso de Engenharia Florestal, e duas alunas da Agronomia, Tatiane Meirelles, 26, de Suzano (SP), e Cecília Ishida, 25, de São Paulo (SP). Os cuidados são reforçados quando alguém adoece. “Quando uma fica doente, a outra faz algo para comer ou traz remédios”, conta Camila.
Entre medos e expectativas, os relatos de quem passa pela experiência de morar em uma cidade distante, com pessoas desconhecidas, demonstram o amadurecimento e a aprendizagem vivenciados nesse período. Nas palavras de Bruno: “Vou sair de Franca não só historiador, mas também psicólogo, cozinheiro e faxineiro”.
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