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Opinião
A criação da bactéria Mycoides 1.0 e
o avanço de artificialização da vida
Geneticistas produziram célula que deverá ter inúmeras aplicações na indústria e na medicina
Jorge Barrientos-Parra
O geneticista Craig Venter, após ter sido protagonista
do sequenciamento do genoma humano, alcançou o objetivo que havia fixado para si mesmo há anos,
a saber, construir um genoma completo para inseri-lo numa bactéria e comandá-la. Essa nova bactéria foi denominada
Mycoides JCVI-SYN 1.0. A longo prazo, ele sonha cultivar
colônias de bactérias artificiais transformadas em usinas bioquímicas
capazes, por exemplo, de produzir biocombustíveis.
A equipe do J. Craig Venter Institute conseguiu sem dúvida
um grande feito, criar uma inédita linha de montagem
genética. Em 1995, eles foram os primeiros a fazer o
sequenciamento das 580 mil bases do DNA da bactéria
Mycoplasma mycoides genitalium, considerado o organismo
vivo mais simples. Em seguida, suprimindo genes um
por um, os pesquisadores constataram que se podia passar
de 500 a 400 genes sem que a bactéria parecesse afetada.
Esse resultado alcançado em 2003 os impulsionou na busca
de um genoma mínimo necessário e suficiente à continuidade
da vida. Faltava então “fabricar” esse genoma.
A equipe de Venter trabalhou em duas frentes. Primeiro, em
2007, demonstrou que era possível transplantar um cromossomo
de uma bactéria para outra – de Mycoplasma mycoides
para Mycoplasma capricolum. O passo seguinte foi
dado em 2008, com a montagem química e a clonagem do
genoma da Mycoplasma genitalium. Agora, na versão eletrônica
da revista Science do dia 21 de maio, foi publicada
a soma dessas duas experiências, a saber: primeiro, foi montado
o genoma da Mycoplasma genitalium por etapas no
interior de uma célula de levedo (adicionando marcadores
que provam que é artificial); depois, esse genoma foi extraído
e injetado na bactéria M. capricolum, cujo genoma havia
sido retirado. Depois de vários meses de transplantes infrutíferos,
finalmente essa nova bactéria começou a se reproduzir.
Entendemos que a combinação de técnicas de artificialização
cromossômica se desenvolverá rapidamente, sendo
aperfeiçoada seguindo padrões de racionalidade e eficácia
cada vez mais estritos. Se a montagem química e a clonagem
genômica demoraram dois anos para vir à luz como
técnica conjunta, o próximo feito de Venter e equipe virá mais rápido. Isso considerando que os avanços na engenharia
genética combinam e recombinam técnicas no âmbito da
biologia, da informática, da química e de outras disciplinas,
numa progressão sem limites.
Venter e sua equipe falaram de “célula sintética porque é totalmente derivada de um cromossomo sintético, fabricado
a partir de quatro garrafas de produtos químicos em um
sintetizador químico, de acordo com informações estocadas
em um computador”.
Entretanto, não se pode falar em célula sintética nem
em vida artificial, por mais que o genoma inserido na bactéria receptora tenha sido construído artificialmente.
Na verdade, estamos muito longe disso. De fato, os referidos
cientistas trabalharam com células e não com matéria
inanimada. Há aqui um misto de petulância humana e
abuso de linguagem, com evidentes objetivos mercadológicos – não olvidemos que Venter é também empresário. Se
somente o cromossomo é sintético, não se pode sair falando
que a célula é sintética. Isso não tira méritos do feito científico
da equipe do J. Craig Venter, que, após superar uma
série de problemas, a começar pelo desconhecimento das
funções de cada gene, produziu algo com incomensuráveis
aplicações na indústria e na medicina.
Nesse mesmo diapasão de choque midiático, um jornal
de São Paulo, capital, no sábado, 22 de maio, abriu a sua
edição com esta manchete bombástica: “O que a vida artificial
muda na sua vida real”. Como se fosse possível ir
agora à farmácia da esquina e comprar um novo medicamento.
Ora, isso é enganar as pessoas. Nessa mesma edição,
aparecem declarações de pessoas diabéticas que esperam um
remédio para o seu mal, induzidas a pensar que se trata de
uma pesquisa farmacológica.
O que, sim, podemos falar é que há uma manipulação
ou artificialização da vida, o que não é novo em nossa sociedade técnica, em que o virtual passou a ser real e em
que os organismos geneticamente modificados já se integraram
ao dia a dia de cada um via cadeia alimentar, se
já não os consumimos diretamente na ingestão de algum
alimento transgênico.
Por último, é necessário ter prudência e realismo ao analisarmos
as possibilidades dessas novas técnicas de artificialização
cromossômica. Uma das características da técnica é a sua
ambivalência. Assim como é possível, em tese, a utilização de
células como usinas bioquímicas para a limpeza de substâncias
tóxicas, também é possível utilizá-las para fabricar toxinas,
abrindo-se então mais uma porta para o bioterrorismo. Além disso, nada se sabe sobre as implicações desses novos organismos
na natureza. Por isso, tão importante quanto a proteção das
patentes para a exploração econômica das novas técnicas criadas
pela empresa de Venter (Mycoplasma laboratorium) é a
discussão por parte da sociedade de um marco ético-jurídico para utilização das mesmas.
Jorge Barrientos-Parra é professor do curso de Administração
Pública da Faculdade de Ciências e Letras, câmpus de Araraquara, e leciona Direito e Sociedade
Tecnocrática na Faculdade de História, Direito e Serviço Social do câmpus de Franca. É mestre em Direito
pela USP e doutor pela Universidade de Louvain. |