UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
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Jornal Unesp    
   
Julho 2010 - Ano XXII - n° 257


Opinião
A criação da bactéria Mycoides 1.0 e o avanço de artificialização da vida
Geneticistas produziram célula que deverá ter inúmeras aplicações na indústria e na medicina

Jorge Barrientos-Parra

O geneticista Craig Venter, após ter sido protagonista do sequenciamento do genoma humano, alcançou o objetivo que havia fixado para si mesmo há anos, a saber, construir um genoma completo para inseri-lo numa bactéria e comandá-la. Essa nova bactéria foi denominada Mycoides JCVI-SYN 1.0. A longo prazo, ele sonha cultivar colônias de bactérias artificiais transformadas em usinas bioquímicas capazes, por exemplo, de produzir biocombustíveis.

A equipe do J. Craig Venter Institute conseguiu sem dúvida um grande feito, criar uma inédita linha de montagem genética. Em 1995, eles foram os primeiros a fazer o sequenciamento das 580 mil bases do DNA da bactéria Mycoplasma mycoides genitalium, considerado o organismo vivo mais simples. Em seguida, suprimindo genes um por um, os pesquisadores constataram que se podia passar de 500 a 400 genes sem que a bactéria parecesse afetada. Esse resultado alcançado em 2003 os impulsionou na busca de um genoma mínimo necessário e suficiente à continuidade da vida. Faltava então “fabricar” esse genoma.

A equipe de Venter trabalhou em duas frentes. Primeiro, em 2007, demonstrou que era possível transplantar um cromossomo de uma bactéria para outra – de Mycoplasma mycoides para Mycoplasma capricolum. O passo seguinte foi dado em 2008, com a montagem química e a clonagem do genoma da Mycoplasma genitalium. Agora, na versão eletrônica da revista Science do dia 21 de maio, foi publicada a soma dessas duas experiências, a saber: primeiro, foi montado o genoma da Mycoplasma genitalium por etapas no interior de uma célula de levedo (adicionando marcadores que provam que é artificial); depois, esse genoma foi extraído e injetado na bactéria M. capricolum, cujo genoma havia sido retirado. Depois de vários meses de transplantes infrutíferos, finalmente essa nova bactéria começou a se reproduzir.

Entendemos que a combinação de técnicas de artificialização cromossômica se desenvolverá rapidamente, sendo aperfeiçoada seguindo padrões de racionalidade e eficácia cada vez mais estritos. Se a montagem química e a clonagem genômica demoraram dois anos para vir à luz como técnica conjunta, o próximo feito de Venter e equipe virá mais rápido. Isso considerando que os avanços na engenharia genética combinam e recombinam técnicas no âmbito da biologia, da informática, da química e de outras disciplinas, numa progressão sem limites.

Venter e sua equipe falaram de “célula sintética porque é totalmente derivada de um cromossomo sintético, fabricado a partir de quatro garrafas de produtos químicos em um sintetizador químico, de acordo com informações estocadas em um computador”.

Entretanto, não se pode falar em célula sintética nem em vida artificial, por mais que o genoma inserido na bactéria receptora tenha sido construído artificialmente. Na verdade, estamos muito longe disso. De fato, os referidos cientistas trabalharam com células e não com matéria inanimada. Há aqui um misto de petulância humana e abuso de linguagem, com evidentes objetivos mercadológicos – não olvidemos que Venter é também empresário. Se somente o cromossomo é sintético, não se pode sair falando que a célula é sintética. Isso não tira méritos do feito científico da equipe do J. Craig Venter, que, após superar uma série de problemas, a começar pelo desconhecimento das funções de cada gene, produziu algo com incomensuráveis aplicações na indústria e na medicina.

Nesse mesmo diapasão de choque midiático, um jornal de São Paulo, capital, no sábado, 22 de maio, abriu a sua edição com esta manchete bombástica: “O que a vida artificial muda na sua vida real”. Como se fosse possível ir agora à farmácia da esquina e comprar um novo medicamento. Ora, isso é enganar as pessoas. Nessa mesma edição, aparecem declarações de pessoas diabéticas que esperam um remédio para o seu mal, induzidas a pensar que se trata de uma pesquisa farmacológica.

O que, sim, podemos falar é que há uma manipulação ou artificialização da vida, o que não é novo em nossa sociedade técnica, em que o virtual passou a ser real e em que os organismos geneticamente modificados já se integraram ao dia a dia de cada um via cadeia alimentar, se já não os consumimos diretamente na ingestão de algum alimento transgênico.

Por último, é necessário ter prudência e realismo ao analisarmos as possibilidades dessas novas técnicas de artificialização cromossômica. Uma das características da técnica é a sua ambivalência. Assim como é possível, em tese, a utilização de células como usinas bioquímicas para a limpeza de substâncias tóxicas, também é possível utilizá-las para fabricar toxinas, abrindo-se então mais uma porta para o bioterrorismo. Além disso, nada se sabe sobre as implicações desses novos organismos na natureza. Por isso, tão importante quanto a proteção das patentes para a exploração econômica das novas técnicas criadas pela empresa de Venter (Mycoplasma laboratorium) é a discussão por parte da sociedade de um marco ético-jurídico para utilização das mesmas.

Jorge Barrientos-Parra é professor do curso de Administração Pública da Faculdade de Ciências e Letras, câmpus de Araraquara, e leciona Direito e Sociedade Tecnocrática na Faculdade de História, Direito e Serviço Social do câmpus de Franca. É mestre em Direito pela USP e doutor pela Universidade de Louvain.

 
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