UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Reitoria
 
Jornal Unesp    
   
Julho 2010 - Ano XXII - n° 257


Geral > Ouvidoria - José Ribeiro Júnior
Futebol, Copa e Cidadania
“Começa hoje o Mundial na África, o primeiro no continente mais pobre do planeta, o primeiro a fazer a FIFA lucrar US$ 1 bilhão” (Manchete Folha de S.Paulo, D 1, 11 de julho de 2010)

Já estamos bem longe da primeira partida de futebol internacional amadora, disputada em 1872, na Grã-Bretanha. O futebol passou a ser um negócio capitalista, na esteira de uma paixão planetária, de todas as classes sociais.

Não vamos, entretanto, fazer uma restrita crítica economicista, menos ainda bater na tecla radical do uso político dos regimes ditatoriais. Por exemplo, quando o Brasil venceu a Copa de 1970, não foi raro ouvirem-se críticas à exploração política exacerbada da ditadura militar. O que vimos em outras ocasiões é bem semelhante, pois, em 1994 e 2002, a seleção brasileira levantou a taça, assim como ocorrera em 1958 e 1962. O Brasil é penta e a população brasileira de todos os níveis sempre festejou com grande orgulho nacional.

Para além da vibração apaixonada de bilhões de pessoas em todos os continentes, a Copa do Mundo atrai mais aficionados do que os Jogos Olímpicos, e assiste-se a um espantoso movimento financeiro. Os investimentos de bancos, fábricas de cervejas, refrigerantes, televisões, computadores, telefones, o comércio em geral e uma infinidade de produtos aplicam quantias bem elevadas para uma propaganda de retorno garantido. Os meios de comunicação colocam em prática e fazem progredir todo um arsenal tecnológico, para disputar audiência. Os países-sede, por mais pobres que sejam, constroem estádios, empregam mão de obra, desenvolvem o turismo. Evidentemente, o lucro maior é do capitalismo internacional. Os contrastes que constatamos na atual sede são atestados de desigualdades sociais. No mundo desenvolvido, tudo é visto como festiva curiosidade.

Durante a copa observa-se uma verdadeira invasão midiática nos lares, no trabalho e nas escolas. No Brasil e em outros países, as ruas, os bares e os clubes adquirem aspectos de festa.

Notemos, no entanto, o outro lado da moeda. A Copa também é um momento de cidadania. Foi comovente observar não só a alegria da torcida africana, mas a sua consciência étnica atuando no seu comportamento. Há uma demonstração de identidade de um continente historicamente vilipendiado, discriminado e escravizado. É evidente o sentimento orgulhoso de nacionalidade por se tornar o centro do planeta por algum tempo e fazer parte de uma outra história. A comemoração, a euforia, o sonho fazem o africano sentir-se parte do mundo cidadão.

Tomara sirva para reflexões de reforço da africanidade.

 
  Jornal