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Fórum - Entrevista : Arilda Inês Marilda Ribeiro
Ambiente acadêmico ainda
discrimina diferenças
Para Arilda Inês Miranda Ribeiro, embora o
mundo hoje seja menos “binário” em relação à sexualidade, o tema ainda é tratado
por poucos grupos de pesquisa. Nesse sentido, a
equidade preconizada pelos direitos humanos ainda
não se concretiza, tanto dentro como fora da
universidade. Graduada em Biblioteconomia pela PUC-Campinas, com mestrado e doutorado na área de Filosofia e História da Educação, ambos
pela Unicamp, Arilda realizou sua livre-docência
em 2000, abordando a educação feminina em Portugal,
no século XVIII. É professora da Faculdade
de Ciências e Tecnologia (FCT) da Unesp, câmpus
de Presidente Prudente, e coordena o curso de
especialização em Arte/Educação do Nudise – Núcleo
de Diversidade Sexual em Educação. Integra
o grupo de pesquisa sobre Homossuicídio da Faculdade
de Ciências e Letras da Unesp, câmpus de
Assis, subvencionado pelo Programa DST (Doenças
Sexualmente Transmissíveis)/Aids, do Ministério
da Saúde. Atua principalmente nos temas de
formação de professores, sexualidade, diversidade sexual, gênero, avaliação educacional, história
da educação e gestão educacional. É, desde 2002,
avaliadora das Condições de Ensino dos Cursos de
Pedagogia e Normal Superior do país para o Instituto de Pesquisas Educacionais Anisio Teixeira (Inep).
(Entrevista a Oscar D’Ambrosio)
Jornal Unesp: Como a sociedade lida hoje com a
questão das fronteiras dos gêneros?
Arilda Inês Miranda Ribeiro: A sociedade deixou
de ver a questão como uma condição uniforme e
universal de dominação de um gênero sobre o outro.
Aumentou a compreensão de que gênero é um
conceito relacional, construído historicamente e
socialmente, atravessado por dimensões de classe,
etnicidade, raça, nacionalidade e geração, entre
outros fatores. A condição feminina se estabilizou
por meio de ações políticas que assumem um caráter
mais libertador graças a múltiplos movimentos,
instituições nacionais e internacionais. Não há mais fronteiras tradicionais de gênero e sexuais.
A dicotomia homem/mulher, masculino/feminino,
heterossexual/homossexual dá lugar a novas divisões,
ambiguidades que desestabilizam a própria
fronteira. O mundo hoje é menos binário e revela
suas fraturas e insuficiências.
JU: Como a universidade lida com essas questões?
Arilda: Os acadêmicos constituem um agrupamento
diverso e divergente. Os discursos, de uma
maneira geral, são favoráveis à desconstrução da
heteronormatividade compulsória e desagregadora.
No entanto, nas práticas universitárias, ecoam
os gritos de grupos homófobos e antifeministas,
que discriminam a diferença. Vivemos em um
ambiente intelectual, como diz Foucault, que fala
prolixamente de seu próprio silêncio, obstina-se em detalhar o que não diz, denuncia os poderes
que exerce e promete liberar-se das leis que o fazem
funcionar. Mulheres, gays, lésbicas, travestis
e transgêneros estão longe de ser tolerados na
visão machista que ainda impera nos meios acadêmicos. Exceção à regra, existem grupos de pesquisa
ainda minoritários, formados por pesquisadores
que falam dos outros e quase nunca de si,
pelo próprio desconforto gerado por seus pares, que, aos poucos, começam a abalar o regime tradicional
e vigente.
JU: Como a questão dos gêneros se coloca hoje especificamente
na sociedade brasileira?
Arilda: Em primeiro lugar, ainda são poucos os
que sabem o que é conceito de gênero. Essa ausência de conhecimento faz com que muitos atribuam à vertente abraâmica religiosa a ideia de
que o mundo é patriarcal, destinado à liderança
masculina e à submissão feminina. Faz também
com que outros acreditem que a visão higienista
proclamada no século XIX é a verdadeira: mulheres
são seres inferiores devido ao tamanho do cérebro e à fragilidade corpórea. Nesse sentido,
mantém-se a violência tanto sobre as mulheres
como sobre gays, lésbicas, travestis e transgêneros.
Infelizmente, a equidade não ocorre como
preconizam os direitos humanos. |