UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Reitoria
 
Jornal Unesp    
   
Julho 2010 - Ano XXII - n° 257


Fórum - Entrevista : Arilda Inês Marilda Ribeiro
Ambiente acadêmico ainda discrimina diferenças

Para Arilda Inês Miranda Ribeiro, embora o mundo hoje seja menos “binário” em relação à sexualidade, o tema ainda é tratado por poucos grupos de pesquisa. Nesse sentido, a equidade preconizada pelos direitos humanos ainda não se concretiza, tanto dentro como fora da universidade. Graduada em Biblioteconomia pela PUC-Campinas, com mestrado e doutorado na área de Filosofia e História da Educação, ambos pela Unicamp, Arilda realizou sua livre-docência em 2000, abordando a educação feminina em Portugal, no século XVIII. É professora da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Unesp, câmpus de Presidente Prudente, e coordena o curso de especialização em Arte/Educação do Nudise – Núcleo de Diversidade Sexual em Educação. Integra o grupo de pesquisa sobre Homossuicídio da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, câmpus de Assis, subvencionado pelo Programa DST (Doenças Sexualmente Transmissíveis)/Aids, do Ministério da Saúde. Atua principalmente nos temas de formação de professores, sexualidade, diversidade sexual, gênero, avaliação educacional, história da educação e gestão educacional. É, desde 2002, avaliadora das Condições de Ensino dos Cursos de Pedagogia e Normal Superior do país para o Instituto de Pesquisas Educacionais Anisio Teixeira (Inep). (Entrevista a Oscar D’Ambrosio)

Jornal Unesp: Como a sociedade lida hoje com a questão das fronteiras dos gêneros?
Arilda Inês Miranda Ribeiro: A sociedade deixou de ver a questão como uma condição uniforme e universal de dominação de um gênero sobre o outro. Aumentou a compreensão de que gênero é um conceito relacional, construído historicamente e socialmente, atravessado por dimensões de classe, etnicidade, raça, nacionalidade e geração, entre outros fatores. A condição feminina se estabilizou por meio de ações políticas que assumem um caráter mais libertador graças a múltiplos movimentos, instituições nacionais e internacionais. Não há mais fronteiras tradicionais de gênero e sexuais. A dicotomia homem/mulher, masculino/feminino, heterossexual/homossexual dá lugar a novas divisões, ambiguidades que desestabilizam a própria fronteira. O mundo hoje é menos binário e revela suas fraturas e insuficiências.

JU: Como a universidade lida com essas questões?
Arilda: Os acadêmicos constituem um agrupamento diverso e divergente. Os discursos, de uma maneira geral, são favoráveis à desconstrução da heteronormatividade compulsória e desagregadora. No entanto, nas práticas universitárias, ecoam os gritos de grupos homófobos e antifeministas, que discriminam a diferença. Vivemos em um ambiente intelectual, como diz Foucault, que fala prolixamente de seu próprio silêncio, obstina-se em detalhar o que não diz, denuncia os poderes que exerce e promete liberar-se das leis que o fazem funcionar. Mulheres, gays, lésbicas, travestis e transgêneros estão longe de ser tolerados na visão machista que ainda impera nos meios acadêmicos. Exceção à regra, existem grupos de pesquisa ainda minoritários, formados por pesquisadores que falam dos outros e quase nunca de si, pelo próprio desconforto gerado por seus pares, que, aos poucos, começam a abalar o regime tradicional e vigente.

JU: Como a questão dos gêneros se coloca hoje especificamente na sociedade brasileira?
Arilda: Em primeiro lugar, ainda são poucos os que sabem o que é conceito de gênero. Essa ausência de conhecimento faz com que muitos atribuam à vertente abraâmica religiosa a ideia de que o mundo é patriarcal, destinado à liderança masculina e à submissão feminina. Faz também com que outros acreditem que a visão higienista proclamada no século XIX é a verdadeira: mulheres são seres inferiores devido ao tamanho do cérebro e à fragilidade corpórea. Nesse sentido, mantém-se a violência tanto sobre as mulheres como sobre gays, lésbicas, travestis e transgêneros. Infelizmente, a equidade não ocorre como preconizam os direitos humanos.

 
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