UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Reitoria
 
Jornal Unesp    
   
Julho 2010 - Ano XXII - n° 257


Entrevista
Equipe de Craig Venter gerou “robô biológico”, diz estudioso de Araçatuba
Genes de nova bactéria têm potencial para beneficiar áreas como fisiologia e microbiologia

A criação de uma bactéria artificial pela equipe do geneticista Craig Venter é um avanço expressivo no processo de fabricação de organismos por meio da engenharia genética, com vastas perspectivas de aplicação. Essa é a avaliação de José Fernando Garcia, professor livre-docente da Faculdade de Odontologia (FO) da Unesp, câmpus de Araçatuba. Graduado na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, mestre em Ciências Veterinárias pela UFRGS e doutor em Reprodução Animal pela USP, ele coordena o Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular Animal da FO, que integra o Centro Colaborador da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para Genômica e Bioinformática Animal. Atuante na área de Biotecnologia Animal, é membro da Sociedade Internacional de Genética Animal e Sociedade Internacional de Transferência de Embriões. Presidiu a Sociedade Brasileira de Tecnologia de Embriões e realizou MBA na Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, na área de Gestão Estratégica e Econômica de Negócios. Integra a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) do Ministério da Ciência e Tecnologia. (Entrevista a Oscar D’Ambrosio)

Jornal Unesp: Qual é a importância do anúncio feito pelo geneticista Craig Venter, em maio, de ter usado um genoma sintetizado artificialmente para reanimar uma bactéria cujo material genético tinha sido eliminado, um primeiro passo no campo da biologia sintética com o objetivo de criar organismos sob encomenda, a partir da descrição de um DNA desejado?

José Fernando Garcia: Essas pesquisas já haviam sido anunciadas há mais de cinco anos. Após a conclusão do Projeto Genoma Humano, em 2001, Craig Venter já dava indícios desse novo projeto. Ao se fazer engenharia genética, busca-se o total controle do funcionamento dos genes e de suas consequências para, com isso, por exemplo, produzir medicamentos, enzimas industriais, energia ou corantes. Os processos de clonagem gênica em bactérias, como a Escherichia coli, são utilizados há cerca de 30 anos em pesquisas das mais diversas áreas. Esses organismos fabricados em todos os lugares são classificados como de Classe de Risco 1 pela CTNBio, órgão federal que atua sobre o monitoramento da biossegurança no Brasil. Isso significa um baixo risco de biossegurança individual e para a coletividade. Nesse sentido, o anúncio da “criação” de um micro-organismo artificial (mesmo que usando a membrana envoltória de um organismo que foi vivo anteriormente), pela “construção” de um cromossomo artificial completo in vitro, apenas indica a evolução da tecnologia. A partir do momento em que genomas são completamente decifrados e que a tecnologia permite a síntese de longas cadeias de DNA in vitro, foi “fácil” imaginar a construção de uma quimera da natureza. Entendo que essa nova tecnologia que surge permitirá o
“engenheiramento” de células microbianas altamente específicas para aplicações biotecnológicas. Isso, com a possibilidade de introdução de mecanismos de controle para a sua não proliferação em ambiente que não aquele desejado, pode revolucionar ainda mais a biotecnologia.

JU: Qual é a sua visão sobre a criação de vida artificial pelo ser humano em termos de potencialidade para a ciência?
Garcia: Trata-se do desenvolvimento de uma espécie de “robô” biológico, pois, conhecendo completamente o genoma desse novo ser – afinal, ele foi feito pelos cientistas –, é possível “brincar” com os genes, introduzindo-os ou retirando-os, e criar modelos de estudo para diversas áreas, como fisiologia, microbiologia, enzimologia e.genética.

JU: Quais seriam os próximos passos de pesquisa científica na área de biotecnologia?
Garcia: A “criação” de organismos unicelulares que pudessem atuar como vacinas vivas atenuadas, na formulação de kits diagnósticos de doenças, biorremediação (tratamento de efluentes contaminados) e células para transplante (nos moldes do que já se faz com célulastronco), entre tantos outros.

JU: Quais as questões éticas e morais envolvidas na criação da vida artificial?
Garcia: Não entendo que a criação de uma célula artificial possa ser considerada como criação da vida. Apesar de a nova célula artificial ser viva e se reproduzir em meio controlado, existem diversos outros exemplos na ciência contemporânea de “criação” de vidas novas no laboratório, como a produção de bacteriófagos (vírus) recombinantes a partir de extratos proteicos purificados de suas subunidades, a criação de animais e plantas transgênicos, em que a modificação se resume a apenas um ou poucos locais do genoma, mas que criam de certa forma um genoma diferente do original, e, graças à engenharia genética, a produção de vacinas recombinantes. Não vejo o desejo por parte da sociedade de “criar” uma vida humana a partir do completo conhecimento do genoma da espécie e de se funcionamento. A mesma discussão já surgiu quando foi divulgada a clonagem de células somáticas (Dolly) e o sucesso das células-tronco. A sociedade lidará com essas questões à medida que forem surgindo.

 
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