|
Entrevista
Equipe de Craig Venter gerou “robô biológico”, diz estudioso de Araçatuba
Genes de nova bactéria têm potencial para beneficiar áreas como fisiologia e microbiologia
A criação de uma bactéria artificial
pela equipe do geneticista Craig
Venter é um avanço expressivo no processo de fabricação de organismos
por meio da engenharia genética, com
vastas perspectivas de aplicação. Essa é a avaliação de José Fernando Garcia,
professor livre-docente da Faculdade
de Odontologia (FO) da Unesp, câmpus de Araçatuba. Graduado na
Faculdade de Medicina Veterinária e
Zootecnia da USP, mestre em Ciências Veterinárias pela UFRGS e doutor em
Reprodução Animal pela USP, ele coordena
o Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular Animal da FO,
que integra o Centro Colaborador da
Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para Genômica e Bioinformática
Animal. Atuante na área de
Biotecnologia Animal, é membro da
Sociedade Internacional de Genética
Animal e Sociedade Internacional de
Transferência de Embriões. Presidiu a
Sociedade Brasileira de Tecnologia de
Embriões e realizou MBA na Fundação
Getúlio Vargas em São Paulo, na área de Gestão Estratégica e Econômica de
Negócios. Integra a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio)
do Ministério da Ciência e Tecnologia.
(Entrevista a Oscar D’Ambrosio)
Jornal Unesp: Qual é a importância do
anúncio feito pelo geneticista Craig Venter, em
maio, de ter usado um genoma sintetizado artificialmente
para reanimar uma bactéria cujo
material genético tinha sido eliminado, um primeiro
passo no campo da biologia sintética com
o objetivo de criar organismos sob encomenda, a
partir da descrição de um DNA desejado?
José Fernando Garcia: Essas pesquisas
já haviam sido anunciadas há mais de
cinco anos. Após a conclusão do Projeto
Genoma Humano, em 2001, Craig Venter
já dava indícios desse novo projeto. Ao se
fazer engenharia genética, busca-se o total
controle do funcionamento dos genes e
de suas consequências para, com isso, por exemplo, produzir medicamentos, enzimas
industriais, energia ou corantes. Os
processos de clonagem gênica em bactérias,
como a Escherichia coli, são utilizados
há cerca de 30 anos em pesquisas das mais diversas áreas. Esses organismos fabricados
em todos os lugares são classificados
como de Classe de Risco 1 pela CTNBio, órgão federal que atua sobre o monitoramento
da biossegurança no Brasil. Isso
significa um baixo risco de biossegurança
individual e para a coletividade. Nesse
sentido, o anúncio da “criação” de um
micro-organismo artificial (mesmo que
usando a membrana envoltória de um organismo
que foi vivo anteriormente), pela “construção” de um cromossomo artificial
completo in vitro, apenas indica a evolução
da tecnologia. A partir do momento
em que genomas são completamente decifrados e que a tecnologia permite a síntese
de longas cadeias de DNA in vitro, foi “fácil” imaginar a construção de uma
quimera da natureza. Entendo que essa
nova tecnologia que surge permitirá o
“engenheiramento” de células microbianas
altamente específicas para aplicações
biotecnológicas. Isso, com a possibilidade
de introdução de mecanismos de controle
para a sua não proliferação em ambiente que não aquele desejado, pode revolucionar
ainda mais a biotecnologia.
JU: Qual é a sua visão sobre a criação de
vida artificial pelo ser humano em termos de
potencialidade para a ciência?
Garcia: Trata-se do desenvolvimento
de uma espécie de “robô” biológico, pois,
conhecendo completamente o genoma
desse novo ser – afinal, ele foi feito pelos cientistas –, é possível “brincar” com os
genes, introduzindo-os ou retirando-os,
e criar modelos de estudo para diversas áreas, como fisiologia, microbiologia, enzimologia e.genética.
JU: Quais seriam os próximos passos de pesquisa
científica na área de biotecnologia?
Garcia: A “criação” de organismos
unicelulares que pudessem atuar como
vacinas vivas atenuadas, na formulação de kits diagnósticos de doenças, biorremediação
(tratamento de efluentes
contaminados) e células para transplante (nos moldes do que já se faz com célulastronco),
entre tantos outros.
JU: Quais as questões éticas e morais envolvidas
na criação da vida artificial?
Garcia: Não entendo que a criação
de uma célula artificial possa ser considerada
como criação da vida. Apesar de a nova célula artificial ser viva e se reproduzir
em meio controlado, existem
diversos outros exemplos na ciência contemporânea de “criação” de vidas
novas no laboratório, como a produção
de bacteriófagos (vírus) recombinantes a partir de extratos proteicos purificados
de suas subunidades, a criação
de animais e plantas transgênicos, em que a modificação se resume a apenas
um ou poucos locais do genoma, mas
que criam de certa forma um genoma diferente do original, e, graças à engenharia
genética, a produção de vacinas
recombinantes. Não vejo o desejo por parte da sociedade de “criar” uma vida
humana a partir do completo conhecimento
do genoma da espécie e de se funcionamento. A mesma discussão já surgiu quando foi divulgada a clonagem de células somáticas (Dolly) e o sucesso das células-tronco. A sociedade
lidará com essas questões à medida
que forem surgindo. |