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Ciências humanas
A saga do Clube de Mães da Zona Sul
Cedem preserva memória de entidade que promoveu o Movimento do Custo de Vida em plena ditadura
Para as mais distraídas, o Clube de
Mães da Zona Sul poderia sugerir um
espaço de lazer. Mas ao participar das reuniões nas paróquias católicas nessa
região da capital paulista, nos anos
1970, as mulheres logo percebiam que a motivação era buscar soluções para as
dificuldades enfrentadas pela população
mais pobre. Berço do Movimento do
Custo de Vida, que em 1978 enfrentou
a repressão policial na Praça de Sé, o
Clube é reconhecido pela forma singular
como contestou o regime militar.
A história desse movimento está hoje
conservada no Centro de Documentação
e Memória (Cedem) da Unesp. Os registros do período reúnem panfletos,
atas de assembleias, cartas, levantamentos
de preços, abaixo-assinados, preparação
de aulas, recortes de jornais, fotografias,
livros e cartazes, entre outros
materiais. “É um patrimônio do qual
podemos resgatar parte da memória da
resistência à ditadura militar”, comenta
Jacy Barletta, responsável pelo Acervo
e Gestão Documental do Centro.
A mineira Odete Marques, 70 anos,
uma das líderes do movimento, é uma
testemunha da época. (Veja quadro.) No início das reuniões do Clube, segundo
Odete, as mulheres aprendiam bordado
e demais trabalhos manuais, em aulas
fornecidas pelas esposas de empresários
do Lyons Club. Após a saída do Lyons,
em 1971, os encontros passaram a debater
também educação dos filhos, planejamento
familiar e as péssimas condições
dos bairros, nos quais faltavam
escolas, assistência médica, transporte
coletivo, água, saneamento. “Em pouco
tempo ganhamos força e o nosso movimento
cresceu”, recorda.
Carta ao presidente – O Movimento
do Custo de Vida foi idealizado
por frequentadoras do Clube, moradoras do Jardim Nakamura. Em 1975, Ano
Internacional da Mulher, elas sugeriram
uma pesquisa, realizada entre mil famílias, para esclarecer como era viver com
os salários corroídos pela inflação. Com
os dados do levantamento, já bem articuladas,
resolveram aproveitar a efeméride
para denunciar a carestia.
A denúncia resultou em carta ao então
presidente Ernesto Geisel. “Sem grandes
pretensões, elas criaram um fato político”,
enfatiza Jacy. Iniciada pela sentença “Somos mães de família em desespero e,
mais do que ninguém, sentimos os preços
altos dos alimentos...”, a mensagem foi lida no Congresso Nacional e circulou
na imprensa.
O Clube de Mães começou, então,
a organizar assembleias. Coordenada
por Odete, uma delas, com cerca de cinco mil pessoas, ocorreu em 1976
no colégio Santa Maria, em São Paulo.
Na crise de abastecimento de 1978, o Movimento do Custo de Vida juntou
outras cinco mil pessoas no Colégio
Arquidiocesano para a divulgação de um abaixo-assinado reivindicando
congelamento dos preços e aumento
salarial. Enquanto coletavam assinaturas em feiras, supermercados, igrejas
e praças, as mulheres preparavam uma
grande assembleia para a entrega simbólica do texto, na Praça da Sé.
Manifestação na Sé – Em meioà repressão da tropa de choque e com a presença
de religiosos, políticos e jornalistas,
em 27 de agosto de 1978, a manifestação
teve a participação de 20 mil pessoas. Em
setembro, membros do movimento foram
a Brasília entregar o texto ao presidente,
mas o esquema de segurança os impediu de entrar no Palácio do Planalto.
A iniciativa ganhou reconhecimento
público, a atenção de outras lideranças
políticas e, em 1979, passou a chamar-se
Movimento Contra a Carestia. A partir
daí, a luta pelo poder entre tendências
acabou por desarticular essa mobilização
histórica. Dez anos depois, as antigas líderes
do Clube organizaram a Feira da Panela Vazia e, em agosto de 1988, voltaram à Sé para comemorar o feito de ter
enfrentado a repressão policial e ajudar a abrir caminho para a democracia.
Lançamento – A história do Clube
de Mães é tema de um livro-reportagem
com previsão de lançamento para 2011, de autoria da jornalista Jô Azevedo, pesquisadora associada ao
Leie (Laboratório de Estudos e Intervenção em Ecopolítica do Centro de
Estudos Ambientais da Unesp, câmpus
de Rio Claro).
Genira Chagas |