UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Reitoria
 
Jornal Unesp    
   
Julho 2010 - Ano XXII - n° 257


Ciências humanas
A saga do Clube de Mães da Zona Sul
Cedem preserva memória de entidade que promoveu o Movimento do Custo de Vida em plena ditadura

Para as mais distraídas, o Clube de Mães da Zona Sul poderia sugerir um espaço de lazer. Mas ao participar das reuniões nas paróquias católicas nessa região da capital paulista, nos anos 1970, as mulheres logo percebiam que a motivação era buscar soluções para as dificuldades enfrentadas pela população mais pobre. Berço do Movimento do Custo de Vida, que em 1978 enfrentou a repressão policial na Praça de Sé, o Clube é reconhecido pela forma singular como contestou o regime militar.

A história desse movimento está hoje conservada no Centro de Documentação e Memória (Cedem) da Unesp. Os registros do período reúnem panfletos, atas de assembleias, cartas, levantamentos de preços, abaixo-assinados, preparação de aulas, recortes de jornais, fotografias, livros e cartazes, entre outros materiais. “É um patrimônio do qual podemos resgatar parte da memória da resistência à ditadura militar”, comenta Jacy Barletta, responsável pelo Acervo e Gestão Documental do Centro.

A mineira Odete Marques, 70 anos, uma das líderes do movimento, é uma testemunha da época. (Veja quadro.) No início das reuniões do Clube, segundo Odete, as mulheres aprendiam bordado e demais trabalhos manuais, em aulas fornecidas pelas esposas de empresários do Lyons Club. Após a saída do Lyons, em 1971, os encontros passaram a debater também educação dos filhos, planejamento familiar e as péssimas condições dos bairros, nos quais faltavam escolas, assistência médica, transporte coletivo, água, saneamento. “Em pouco tempo ganhamos força e o nosso movimento cresceu”, recorda.

Carta ao presidente – O Movimento do Custo de Vida foi idealizado por frequentadoras do Clube, moradoras do Jardim Nakamura. Em 1975, Ano Internacional da Mulher, elas sugeriram uma pesquisa, realizada entre mil famílias, para esclarecer como era viver com os salários corroídos pela inflação. Com os dados do levantamento, já bem articuladas, resolveram aproveitar a efeméride para denunciar a carestia.

A denúncia resultou em carta ao então presidente Ernesto Geisel. “Sem grandes pretensões, elas criaram um fato político”, enfatiza Jacy. Iniciada pela sentença “Somos mães de família em desespero e, mais do que ninguém, sentimos os preços altos dos alimentos...”, a mensagem foi lida no Congresso Nacional e circulou na imprensa.

O Clube de Mães começou, então, a organizar assembleias. Coordenada por Odete, uma delas, com cerca de cinco mil pessoas, ocorreu em 1976 no colégio Santa Maria, em São Paulo. Na crise de abastecimento de 1978, o Movimento do Custo de Vida juntou outras cinco mil pessoas no Colégio Arquidiocesano para a divulgação de um abaixo-assinado reivindicando congelamento dos preços e aumento salarial. Enquanto coletavam assinaturas em feiras, supermercados, igrejas e praças, as mulheres preparavam uma grande assembleia para a entrega simbólica do texto, na Praça da Sé.

Manifestação na Sé – Em meioà repressão da tropa de choque e com a presença de religiosos, políticos e jornalistas, em 27 de agosto de 1978, a manifestação teve a participação de 20 mil pessoas. Em setembro, membros do movimento foram a Brasília entregar o texto ao presidente, mas o esquema de segurança os impediu de entrar no Palácio do Planalto.

A iniciativa ganhou reconhecimento público, a atenção de outras lideranças políticas e, em 1979, passou a chamar-se Movimento Contra a Carestia. A partir daí, a luta pelo poder entre tendências acabou por desarticular essa mobilização histórica. Dez anos depois, as antigas líderes do Clube organizaram a Feira da Panela Vazia e, em agosto de 1988, voltaram à Sé para comemorar o feito de ter enfrentado a repressão policial e ajudar a abrir caminho para a democracia.

Lançamento – A história do Clube de Mães é tema de um livro-reportagem com previsão de lançamento para 2011, de autoria da jornalista Jô Azevedo, pesquisadora associada ao Leie (Laboratório de Estudos e Intervenção em Ecopolítica do Centro de Estudos Ambientais da Unesp, câmpus de Rio Claro).

Genira Chagas

 
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