UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
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Jornal Unesp    
   
Julho 2010 - Ano XXII - n° 257


Artes visuais
No ventre do barro
Ceramista une teoria e prática para investigar como criação de objetos dialoga com universo feminino

Para compreender melhor as expressões artísticas femininas, Flavia Leme de Almeida realizou uma pesquisa prática em cerâmica que a levou à produção de Mulheres recipientes, dissertação de mestrado apresentada no Instituto de Artes da Unesp, câmpus da Barra Funda, em São Paulo. “Entrelacei variados caminhos, trilhados por artistas que possuíam um mesmo ponto de intersecção: a busca do universo feminino nas artes visuais, sob o ponto de vista da mulher na sociedade ocidental”, conta a pesquisadora.

O foco da artista foi a produção de obras em cerâmica, um material que traz uma forte carga conceitual, por seus usos milenares, do artesanal utilitário ao decorativo e artístico. Para Flavia, esses objetos trazem em si uma forte intenção de situar o papel da mulher na arte e na vida contemporânea.

Ela enfatiza a cerâmica como um material que, por partir do barro, sendo argila queimada, tem a sua origem no “ventre da terra” e, para muitos povos indígenas, constitui um material ligado à mulher. “É um dos mais plásticos materiais para se modelar, por suas características físicas, e um suporte intimamente ligado ao universo feminino”, explica.

Visões artísticas – A reflexão de Flavia começa com a pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954). “Assim como ela, mostro-me também em minhas obras, mas não me elegi como modelo literal, pois não faço autorretrato”, reflete. “Meu ponto de vista é o de mostrar o corpo feminino como um grande ventre, um recipiente.”

Em seguida, o foco foi a francesa Louise Bourgeois (1911), cujas esculturas privilegiam as formas que insinuam o corpo de mulher, lembrando entranhas, ou aranhas enormes, com suas bolsas cheias de ovos, ou o universo da casa, do quarto, da espera e da intimidade. “Todas essas sugestões simbólicas me motivam. É o que tento transmitir nas minhas esculturas – o feminino em amplo espectro”, aponta Flavia.

O poder das deusas votivas ganha espaço em outra artista estudada, a brasileira Celeida Tostes (1929-1995). Como Flavia, ela manteve a argila como o principal suporte para suas obras. Valeu-se do feminino em ovos, imagens da deusa grega Vênus e na performance em que se vestiu de barro e encolheu-se dentro de um pote como se fosse uma urna funerária. “O ventre está no bojo de nossas produções artísticas”, comenta.

As graciosas esculturas chamadas Nanas, da francesa Niki de Saint Phalle (1930-2002), também são pesquisadas, por celebrarem a fertilidade no corpo da mulher em uma explosão de cores e linhas. “Elas foram para mim uma descoberta lúdica e alegre do poder do feminino nas artes visuais”, reflete Flavia.

“Faço o que sou” – Algo grandioso é encontrado em The dinner party (1974-79), de Judy Chicago (1939), obra na qual a artista norte-americana serviu uma belíssima mesa de jantar homenageando mais de mil mulheres, míticas e reais. Para 39 delas, foi “servido” um prato especial, pintado ou esculpido por outras mulheres. “Foi uma instalação, uma grande ceia feita por mulheres e para mulheres. Os pratos e as taças, assim como minhas peças, foram feitos em cerâmica”, analisa Flavia.

A última artista enfocada é a cubana Ana Mendieta (1948-1985), que se autorrepresentou em silhuetas. Tentando se livrar do forte conteúdo cultural que o corpo feminino carrega, seja pela beleza ou pela conotação de objeto sexual, Ana associou-se fisicamente com elementos naturais, como fogo, terra e água. “Ela e eu indagamos a relação da mulher com a terra”, comenta Flavia.

Esse universo auxiliou a pesquisadora a verificar como, dentro de cada peça ocada, oca, côncava ou vazia permanece a memória do passado no simbolismo do pote como morada dos mortos. “Meu trabalho defende que só podemos produzir uma arte com base em nosso repertório pessoal e subjetivo”, conclui. “Não é possível me separar, enquanto autora/artista, da minha realidade única, seja como mulher, brasileira, ceramista e pesquisadora do século XXI. Faço aquilo que sou. Sou aquilo que faço.”

Oscar D’Ambrosio

 
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