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Artes visuais
No ventre do barro
Ceramista une teoria e
prática para investigar como
criação de objetos dialoga
com universo feminino
Para compreender melhor as expressões
artísticas femininas, Flavia
Leme de Almeida realizou uma
pesquisa prática em cerâmica que a levou à produção de Mulheres recipientes, dissertação
de mestrado apresentada no Instituto de
Artes da Unesp, câmpus da Barra Funda,
em São Paulo. “Entrelacei variados caminhos, trilhados por artistas que possuíam
um mesmo ponto de intersecção: a busca
do universo feminino nas artes visuais, sob o ponto de vista da mulher na sociedade
ocidental”, conta a pesquisadora.
O foco da artista foi a produção de
obras em cerâmica, um material que
traz uma forte carga conceitual, por seus usos milenares, do artesanal utilitário ao
decorativo e artístico. Para Flavia, esses
objetos trazem em si uma forte intenção
de situar o papel da mulher na arte e na
vida contemporânea.
Ela enfatiza a cerâmica como um material
que, por partir do barro, sendo
argila queimada, tem a sua origem no “ventre da terra” e, para muitos povos
indígenas, constitui um material ligado à mulher. “É um dos mais plásticos materiais
para se modelar, por suas características
físicas, e um suporte intimamente
ligado ao universo feminino”, explica.
Visões artísticas – A reflexão de
Flavia começa com a pintora mexicana Frida
Kahlo (1907-1954). “Assim como ela, mostro-me também em minhas obras, mas
não me elegi como modelo literal, pois
não faço autorretrato”, reflete. “Meu ponto
de vista é o de mostrar o corpo feminino
como um grande ventre, um recipiente.”
Em seguida, o foco foi a francesa Louise
Bourgeois (1911), cujas esculturas privilegiam
as formas que insinuam o corpo de mulher, lembrando entranhas, ou aranhas
enormes, com suas bolsas cheias de ovos,
ou o universo da casa, do quarto, da espera
e da intimidade. “Todas essas sugestões
simbólicas me motivam. É o que tento transmitir nas minhas esculturas – o feminino
em amplo espectro”, aponta Flavia.
O poder das deusas votivas ganha espaço
em outra artista estudada, a brasileira
Celeida Tostes (1929-1995). Como
Flavia, ela manteve a argila como o principal
suporte para suas obras. Valeu-se
do feminino em ovos, imagens da deusa
grega Vênus e na performance em que se
vestiu de barro e encolheu-se dentro de um pote como se fosse uma urna funerária. “O ventre está no bojo de nossas
produções artísticas”, comenta.
As graciosas esculturas chamadas
Nanas, da francesa Niki de Saint Phalle
(1930-2002), também são pesquisadas, por celebrarem a fertilidade no corpo
da mulher em uma explosão de cores e
linhas. “Elas foram para mim uma descoberta
lúdica e alegre do poder do feminino
nas artes visuais”, reflete Flavia.
“Faço o que sou” – Algo grandioso é encontrado em The dinner party (1974-79), de Judy Chicago (1939), obra na qual a artista norte-americana serviu uma
belíssima mesa de jantar homenageando
mais de mil mulheres, míticas e reais. Para
39 delas, foi “servido” um prato especial,
pintado ou esculpido por outras mulheres. “Foi uma instalação, uma grande ceia feita
por mulheres e para mulheres. Os pratos
e as taças, assim como minhas peças, foram feitos em cerâmica”, analisa Flavia.
A última artista enfocada é a cubana Ana
Mendieta (1948-1985), que se autorrepresentou
em silhuetas. Tentando se livrar do
forte conteúdo cultural que o corpo feminino
carrega, seja pela beleza ou pela conotação
de objeto sexual, Ana associou-se fisicamente
com elementos naturais, como fogo,
terra e água. “Ela e eu indagamos a relação da mulher com a terra”, comenta Flavia.
Esse universo auxiliou a pesquisadora
a verificar como, dentro de cada peça
ocada, oca, côncava ou vazia permanece
a memória do passado no simbolismo do
pote como morada dos mortos. “Meu
trabalho defende que só podemos produzir
uma arte com base em nosso repertório
pessoal e subjetivo”, conclui. “Não é possível me separar, enquanto
autora/artista, da minha realidade única,
seja como mulher, brasileira, ceramista e pesquisadora do século XXI. Faço aquilo
que sou. Sou aquilo que faço.”
Oscar D’Ambrosio |