Opinião
Por que no Brasil também há corrupção?
Estilo da colonização portuguesa levou sociedade a confundir o poder com a pessoa que o detém
DENISE MOURA
Corrupção não é peculiaridade do Brasil e nem está exclusivamente institucionalizada na política, no
judiciário, nos órgãos executivos e legislativos,
nos movimentos sociais organizados, nos sindicatos ou nas
universidades.
Do Oriente ao Ocidente, episódios ou suspeitas de corrupção
frequentemente são motivo de denúncia, investigação
ou punição. Recentemente, na França, o filho de Nicolas Sarkozy, Jean Sarkozy, cedendo às pressões da
opinião pública, desistiu de concorrer a um cargo do Estado
em seu país.
Silvio Berlusconi, primeiro-ministro da Itália, está sempre
na imprensa quando o assunto é corrupção. O historiador
Thimothy Garton Ash admitiu há poucos dias que na Grã-Bretanha o Parlamento é uma instituição desacreditada
(O Estado de S. Paulo, 25/10, p. A18).
No Brasil, o assunto nunca deixou de ser denunciado e
escrito. Na colônia, a corrupção de oficiais eleitos ou nomeados,
distantes um oceano do rei, não desocupava os escrivães encarregados de registrar essas e outras matérias.
Às vésperas do movimento político de 1930, que deu início à longa era Vargas, o assunto era o mesmo: a corrupção dos
políticos. Naquela época, a força dessa denúncia contribuiu
para continuar fortalecendo a ideia de que o resto da sociedade
era só vítima da decomposição dos que governavam.
Para evitar esse maniqueísmo, é sempre bom definir qual
corrupção é o assunto: a institucionalizada ou a informalizada
no cotidiano por uma infinidade de pequenas transgressões
e comportamentos antiéticos que tiram proveito de
uma relação de parentesco, amizade ou mesmo de uma pretensa
superioridade.
A deste texto é a corrupção institucionalizada. Aquela de
todos os dias na imprensa, que até certo tempo no Brasil, com
a censura instituída pela ditadura mais nova, a dos militares de 1964, era apenas suspeita ou um ouvir falar.
Hoje, o cidadão comum, da corrupção cotidianizada,
pode ver com seus próprios olhos a corrupção institucionalizada
que a imprensa quer que ele veja, dependendo do que dá mais audiência ou do que mais atiça o jogo de forças
políticas do momento. Interessa falar em corrupção, regime
militar e construção civil ou desvios de recursos públicos e plano de metas nos anos dourados do presidente mineiro
Juscelino Kubitschek? O assunto é de interesse, mas poderia
não encher os auditórios do dia a dia.
Corrupção é assunto de importância, mas tambémé mercadoria jornalística que precisa ser produzida em série,
engatando uma boa vendagem na outra. Por isso, hoje, interessa tanto a corrupção da polícia, especialmente a do Rio
de Janeiro, pois há pouco foi decidido que as Olimpíadas de
2016 serão nas partes do Brasil em que D. João VI resolveu se estabelecer somente em 1808, quando fez o acordo com
os ingleses para escapar das ambições dos franceses.
A corrupção do judiciário também vende bem, seguida
da do congresso, dos vereadores e dos presidenciáveis, já que o ano eleitoral bate à porta. A corrupção do Movimento
Social dos Sem-Terra também dá bastante público, depois
da destruição de 7 mil pés de laranja numa extensa área
produtiva de São Paulo.
Mas não dá para negar que a imprensa, mesmo vendendo
o produto corrupção, deixou-a mais visível e ninguém mais
sabe apenas por ouvir dizer aquilo que escapava da mão pesada da censura. Hoje, o conhecimento do problema é também por ver e se ainda não foi possível desenvolver uma
cultura de punição, que possa conter os pruridos antiéticos próprios da condição humana, pelo menos existe apuração,
julgamento e, em muitos casos, prisão.
Claro que as legislações das instituições, elaboradas pelos
seus próprios componentes, deixam uma série de saídas
para o corrupto, como aconteceu com doze dos vereadores cassados em São Paulo, que após recurso conseguiram manter
o cargo até o final do julgamento da acusação de captação
ilícita de recursos em suas campanhas eleitorais.
Mas, concretamente, as comissões de inquérito, infelizmente
dirigidas por corruptos, têm averiguado, interrogado, processos
têm sido abertos e provocado perda de cargos e salários. Já é possível ver magistrados atrás das grades e não dá mais para
dizer que não adianta nada, porque alguma coisa acontece.
A impressão de que a corrupção institucionalizada nas
sociedades europeias é mais episódica e a do Brasil é cultural
talvez ocorra porque ela de fato nasceu com as primeiras instituições administrativas e da justiça do país, implantadas
quando o monarca português viu-se na necessidade de
organizar e dominar estas terras a que chegara ao sul do Atlântico mandando outros em seu lugar.
Em todas as partes do globo a que a bandeira portuguesa
chegou foi assim: na África, na Ásia e na América. Diferente da Ásia e África, no Brasil foi necessário e houve interesse em implantar uma administração. Mas nada de sair
do reino e viver num lugar de que mal se sabia a extensão.
Além disso, o que fazer no Brasil até o final do século XVII, quando o Oriente prometia e dava bem mais fortuna?
Mas, mesmo com a Índia valendo mais, não valia a pena
perder o Brasil e calhava que o reino português, um dos
menores da Europa, mas um dos mais extensos, contando as terras além-oceanos, não conseguia dar conta de alimentar,
empregar e ocupar a pouca gente que tinha, mas cheia de
pretensões de ser ou continuar nobre.
Assim, o Brasil que os reis portugueses não queriam perder,
mas também no qual não queriam viver, tornou-se uma
grande oportunidade para ser fidalgo e rico, mas com a obrigação de organizá-lo.
Foi essa necessidade de delegar poderes que pode ter enraizado
nas instituições judiciais e administrativas do Brasil
a corrupção. O que faria um fidalgo português sair de sua terra sem vislumbrar vantagens? Nem convinha ao rei
fiscalizar muito, tinha de ser um pouco permissivo, porque
senão corria o risco de desanimar o trabalho difícil que foi a colonização.
Em 1530, Martim Afonso de Sousa chegou cheio de poderes
militares e judiciais e os foi distribuindo entre 12
fidalgos portugueses, que depois nomearam tantos outros
ouvidores, tabeliães, escrivães e oficiais de justiça. A partir
daí e até hoje, poder e pessoa são vistos como uma coisa só e é isso que faz também no Brasil haver corrupção.
Denise Moura é professora de História do Brasil da
Faculdade de História, Direito e Serviço Social da
Unesp, câmpus de Franca. |