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Entrevista
Casamento da ciência com a arte
Diana Domingues assinala força da tecnologia e cultura digital, destacando futuro da criação coletiva
Pós-doutora pelo ATI – Instituto
de Arte e Tecnologia da Imagem da
Universidade de Paris VIII e doutora em Comunicação e Semiótica pela
PUC/SP, Diana Domingues é artista
e professora colaboradora na Universidade de Brasília, no Laboratório de
Pesquisa em Arte e Realidade Virtual.
Pioneira e atuante artista e pensadora sobre práticas criativas na relação
arte, ciência e tecnologia, desenvolve
pesquisas sobre expansão sensorial e perceptiva por dispositivos de interação,
comportamento evolutivo, imersão
em realidade virtual, realidade aumentada e misturada, tecnologias
da mobilidade, plataformas sociais em
software-arte. Organizou, entre outros,
Arte, ciência e tecnologia: passado,
presente e desafios (Editora Unesp e Itaú Cultural, 2009), Arte e vida no Século
XXI: tecnologia, ciência e criatividade
(Editora Unesp, 2003) e A arte no século
XXI: a humanização das tecnologias
(Editora Unesp, 1997). (Entrevista
a Oscar D’Ambrosio)
Jornal Unesp: Como surgiu o livro
Arte, ciência e tecnologia: passado, presente
e desafios?
Diana Domingues: Ele começa
em 2005, com a primeira Conferência
Internacional em História da Mídia, Arte, Ciência e Tecnologia, no Canadá.
Foi a primeira tentativa de reunir especialistas do mundo em torno de uma trajetória que já tem 40 anos e se
iniciou com um grupo de artistas queé chamado por cientistas para trabalhar no Instituto de Tecnologia Massachusetts
(MIT), nos EUA, e pensar como
a ciência e a arte poderiam caminhar juntas. O livro reúne mais de 20 autores,
especialistas do mundo inteiro nos
mais diferentes domínios, como automação,
interfaces, redes, processos e
visualização de dados. O foco está nas
maneiras diferentes de trabalhar com
as tecnologias numa relação da arte
com a ciência. O objetivo é juntar pessoas
para desenvolver conhecimento.
JU: Nessas parcerias entre artistas e cientistas,
como fica a questão da autoria?
Diana: A arte não nasceu com essa
questão da autoria. Quem criou isso foi
o alemão Albert Dürer na Renascença. Até então, os artistas nem assinavam
os trabalhos. Uma obra numa catedral
não tinha uma autoria, por exemplo.
O que ocorre agora é uma volta às origens.
Isso é muito importante, porque a arte abraça assim a sua essência. Temos
obras colaborativas com autores
em várias partes do planeta trabalhando em rede. É o que faz um VJ hoje.
Ele pega pedaços de outras músicas
para gerar a sua. Isso é uma técnica de criação colaborativa. Na concepção de
cultura digital, a questão da autoria é completamente ultrapassada. Como
caiu o Muro de Berlim, está caindo a
hegemonia dos povos, dos grandes poderes,
das pessoas e das autorias. Há uma revisão dos valores do homem e
não vejo problema algum de ter uma
autoria distribuída. O artista e o cientista
se confundem na autoria.
JU: Como a senhora vê essas discussões especificamente
no Brasil?
Diana: Acho que são coisas muito
novas, e as pessoas têm que se desvestir
dos grandes poderes que têm. É muito difícil lidar com as estruturas
formatadas de universidades e de conselhos
de agências financiadoras. Por sua vez, as crianças de hoje já têm um
maior sentido de coletivo. Estão numa
rede trabalhando de forma distribuída
sem saber. Não estão preocupadas
com autoria e, ao mesmo tempo, também
querem desenvolver um saber
individual. Compartilham muito mais
do que nós compartilhávamos. A evolução
que está acontecendo não é tecnológica,
mas antropológica.
JU: Quais são os gargalos que dificultam
essa transformação?
Diana: Os grandes estadistas e filósofos
se abrem muito para as mudanças.
Os administradores têm mais dificuldade, porque as admitem, mas
encontram resistência nas estruturas. Aqueles que não aceitam as mudanças,
porém, vão ser eliminados
por uma questão darwinista, porque
a sociedade vai exigir modificações. As novas pessoas que chegam à universidade
têm mais adesão a atitudes
inovadoras, abertas e participativas. O
professor que fica muito isolado não
consegue mais dar conta das necessidades
de hoje. Leonardo da Vinci dizia
que o homem era a medida das coisas.
Desde 1995, no entanto, acredito que
o homem só existe na medida das suas
conexões. O saber está tão distribuído
que você só existe no mundo em
que estiver conectado. Ou você está conectado ou você não existe.
JU: Você esbanja otimismo em relação às
novas tecnologias...
Diana: Sou muito paradisíaca em
relação às tecnologias. Meu neto tem
hoje cinco anos, mas, desde que ele estava com um ano e meio, não via
sentido em largar um soldadinho virtual
para brincar com o de chumbo. O imaginário dele transita entre os
dois sem dificuldade. O ser humano
constrói a vida dele hoje numa mistura de espaço de dados e espaço físico. A
nossa vida já é uma mescla. Não sabemos
mais quanto tempo passamos no
mundo de dados e quanto no mundo
físico. A nossa competência vem dessa
mescla diária. |