Carlos Alberto Cinquetti
Eventos internacionais e desenvolvimento
Descentralização de decisões no país pode aumentar recursos do turismo e valorizar espaço público
A indicação do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas
de 2016 gerou, num primeiro momento, a sensação
de “é a hora do Brasil”. Uma indagação que muitos estão se fazendo, porém, é se as oportunidades abertas
pelas Olimpíadas e pela Copa do Mundo abrirão novos tempos,
ou se teremos apenas um ciclo de investimentos, com um aquecimento de curto prazo, retornando a uma situação de firme
subdesenvolvimento.
Lembremos que, até meados dos anos 1970, o Rio de Janeiro
era o principal destino no verão do hemisfério sul de turistas dos países desenvolvidos. Um lugar badaladíssimo. A partir da
década de 1980, com séria ascensão da criminalidade, a cidade
entrou em descenso. Outras cidades praianas brasileiras ganharam
a cena, mas todas elas, ao menos ao norte do Rio, estão
vivendo o mesmo ocaso de um turismo internacional sexual de
segunda categoria em termos de ingresso de renda.
Evidências mostram que a principal base do crescimento
econômico é o ambiente institucional, e não estratégias de investimentos.
O fim da inflação, a maior abertura para o mundo,
assim como a estabilidade fiscal, que estão articulados entre si,
representam importantes incentivos para o crescimento firme
e sustentado. Basta ver o resultado que estão colhendo países
vizinhos que decidiram investir num intervencionismo econômico, com menor abertura econômica.
Ainda assim, olhando para o mundo, vemos que o Brasil tem
crescido bem aquém dos verdadeiros casos de sucesso, o que nos
remete àquelas fontes do crescimento econômico. Sendo mais
objetiva, a possibilidade de explorar estes jogos, num salto de
longo prazo, depende de mudanças legais e institucionais que
permitam (i) realocação mais eficiente dos recursos domésticos
e (ii) valorização do espaço urbano, com atuação mais firme na
proteção dos direitos à propriedade (aí envolvido o da vida).
A melhora na realocação dos recursos é fundamental, pois
os investimentos para uma recuperação do espaço público e dos empreendimentos em turismo vão muito além daquele que será
empreendido nos estádios. Uma parte importante dos recursos
para investimentos, no Brasil, passa por órgãos públicos, como
BNDES, e isso tem significado premiar um grupo restrito de
empresários, com forte conexão política, além de políticos e sindicalistas.
Corroboram este status quo uma cultura de política
industrial (e seus grupos de interesses) para setores estratégicos,
sem base em eficiência alocativa, nos quais turismo não
entra, senão de forma subprivilegiada. O que dizer, então, do
turismo ecológico, que vive da crença e dos fundos próprios de
abnegados?
Definitivamente, fosse outro o arranjo institucional, em que
empréstimos fossem alocados com base nas oportunidades de crescimento, ou lucros dos projetos, as decisões não seriam as
mesmas.
O que terá que mudar? Abrir-se mais ao mundo, reavaliando
estratégias industriais que não geram retornos, e dar maior atenção ao turismo? Sim, mas talvez bastasse mudar a estrutura
de poder do BNDES, tornando-o menos poroso ao jogo político, além de reduzir os fundos compulsórios (taxação) que
o movimentam. Na mesma direção, reduzir (i) os compulsórios dos depósitos bancários, viabilizando crédito privado mais barato,
e (ii) os vários impostos e encargos que recaem sobre os que
investem em construção no país. Tudo garantiria uma realocação
mais eficiente de recursos no país, o que se traduziria em
mais recursos, e com menores custos ao turismo.
Trata-se de mudanças situadas na esfera do governo federal.
Com relação à atuação mais firme dos governos no uso do espaço urbano, isto compreenderia: (a) proteger áreas naturais;
(b) proteger áreas centrais contra a aglomeração de construções
comerciais que desfiguram tal ambiente; (c) evitar as atividades
informais, pelos contratos de trabalho precários e por não
gerarem impostos; e (d) controlar atividades de contravenção,
especialmente, mas não exclusivamente, nas áreas de turismo.
Medidas cujo eficiente desenho e acompanhamento só ocorrerão
se feitos pelos poderes locais.
Isto significa descentralização: do governo federal para o estadual,
e deste para o municipal. Nossas grandes cidades ainda não têm o controle do poder policial; nem mesmo dos Metrôs.
Bloqueiam tais mudanças os grupos de interesses que atuam na distribuição de recursos, nos governos federal e estadual.
Simultaneamente, os municípios precisam operar com planos públicos, a partir de um diagnóstico balanceado e amplo das
necessidades, e não apenas da vontade do líder eleito, o que depende da profissionalização desses governos, e de câmaras
mais ativas e permeáveis à população.
Em suma, as melhoras institucionais que viabilizariam
a realocação de recursos para o turismo e a valorização econômica do espaço público dependem de mudanças políticas
que compreendem tanto um certo liberalismo em nível federal quanto uma maior descentralização governamental, paralelamente
a um maior profissionalismo dos poderes municipais.
Carlos Alberto Cinquetti, professor do Departamento
de Economia da Faculdade de Ciências e Letras (FCL) de
Araraquara, está como pesquisador visitante da Universidade
do Colorado, em Boulder, EUA. |