UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
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Jornal Unesp    
   
Dezembro/2009 - Ano XXII - nº 251


Matemática

A falta de diálogo no ensino dos índios
Educador mostra como geometria é ministrada aos Kuikúro sem levar em conta conhecimento da tribo

O modo como o conteúdo da geometria tem sido ensinado pela sociedade branca aos indígenas Kuikúro, do Parque Nacional do Xingu, deu origem a conflitos e outros problemas naquele grupo. Essa constatação marcou a pesquisa de doutorado de Pedro Paulo Scandiuzzi, que resultou no livro Educação indígena x educação escolar indígena, publicado pela Editora Unesp (110 páginas; R$ 26).

Professor do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, câmpus de São José do Rio Preto, ele relaciona dois tipos de educação: a escolar indígena, proposta pela sociedade nacional, e a indígena, já existente no grupo que motivou as suas indagações. “É importante reconhecer que os povos indígenas devem decidir seu futuro, seguindo um projeto que parta de seus interesses e aspirações”, afirma o pesquisador.

A obra contextualiza a provável história do povo Kuikúro e os contatos iniciais com a sociedade não indígena. Depois, descreve a aldeia Lahatua Otomo no período em que o matemático lá esteve, entre abril de 1995 e novembro de 1996. Conta ainda como ele obteve os dados que lhe permitiram analisar duas figuras geométricas, a hipérbole e o losango, dentro do valor simbólico dessa comunidade.

Um dos pontos altos do livro é a constatação de que todos os desenhos usados pelos Kuikúro têm uma taxinomia própria, descrita pelos caciques da aldeia. Eles os dividem em seis tipos de pintura: do Quarup, ritual de homenagem aos mortos ilustres dos povos do Xingu; de cabelo; do abanador; de cestos; de homem; e de mulher.

  Os Kuikúro

Habitantes do Parque Nacional do Xingu, no Mato Grosso, os Kuikúro eram, com 509 indígenas, a maior população do Alto Xingu, segundo censo da Fundação Nacional de Saúde de 2006. Subgrupo da família linguística karib, produzem os famosos colares e cintos com conchas e caracóis que historicamente têm um importante papel no sistema tradicional de trocas e pagamentos no Alto Xingu.

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Astronomia – Outro fator fundamental é que Scandiuzzi, ao receber aulas de astronomia dos índios, percebeu que eles enxergam o céu e não as estrelas. “O céu é analisado segundo as formas feitas pelas estrelas. O importante é a escuridão”, afirma. “No desenho, portanto, também a parte escura é a essencial.”

O professor mostra como, para os Kuikúro, as figuras geométricas não são simples desenhos, mas têm significado simbólico e mitológico. “Fazem parte da vida do povo como forma de identidade, de comunicação visual e de transmissão do saber produzido na teoria e na observação sistemática dos astros Sol e Lua”, conta.

São visualizados ainda no trabalho obstáculos da educação escolar indígena aos Kuikúro. Como eles usam os dedos dos pés para contar, por exemplo, sentem dificuldade em elaborar operações matemáticas calçando sapatos ou ao se sentar com os pés debaixo de uma mesa não transparente.

Outra questão cultural apontada é a falta de paciência de professores não indígenas, que acarreta a perda de seu status na comunidade. Também é destacada a escassez de recursos humanos e financeiros investidos na educação indígena, o que leva distintas etnias a estudarem no mesmo espaço escolar, dissolvendo diversidades culturais.

"Por tudo isso, o educador deve excluir toda a autossuficiência, dialogar com igualdade, aceitar a diferença e a alteridade e deixar que o outro se defina, aceitando a autoleitura de acordo com a própria identidade”, diz Scandiuzzi. “Deve-se reconhecer e aceitar a pluralidade cultural e o direito de manejar, de maneira autônoma, os recursos de cada cultura”, conclui.

Oscar D’Ambrosio

  Etnomatemática
nasceu no Brasil

A etnomatemática surgiu na década de 1970, no Brasil, com o matemático Ubiratan D’Ambrosio, professor da Unicamp, a partir de críticas sobre o ensino tradicional da matemática e da análise das práticas da disciplina em diversos contextos culturais. Depois, o conceito passou a designar as variações culturais nas distintas formas de conhecimento. Pode ser entendida como um programa interdisciplinar que engloba as ciências da cognição, da epistemologia, da história, da sociologia e da difusão.
O termo vincula a aquisição de conhecimento, de fazeres e de saberes (mátema) com a realidade sociocultural (etno) das pessoas. Numa perspectiva etnomatemática, o ensino da matemática ganha contornos e estratégias específicas, peculiares ao campo da percepção dos sujeitos aos quais se dirige.
A matemática vivenciada pelos meninos em situação de rua, a desenvolvida em classes do ensino supletivo e a geometria na cultura indígena seriam, portanto, completamente diferenciadas entre si.

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