Matemática
A falta de diálogo no ensino dos índios
Educador mostra
como geometria é
ministrada aos Kuikúro
sem levar em conta
conhecimento da tribo
O modo como o conteúdo da geometria
tem sido ensinado pela sociedade
branca aos indígenas Kuikúro, do Parque
Nacional do Xingu, deu origem a conflitos
e outros problemas naquele grupo. Essa constatação marcou a pesquisa de
doutorado de Pedro Paulo Scandiuzzi,
que resultou no livro Educação indígena
x educação escolar indígena, publicado pela
Editora Unesp (110 páginas; R$ 26).
Professor do Instituto de Biociências,
Letras e Ciências Exatas, câmpus de São
José do Rio Preto, ele relaciona dois tipos
de educação: a escolar indígena, proposta
pela sociedade nacional, e a indígena, já existente no grupo que motivou as
suas indagações. “É importante reconhecer
que os povos indígenas devem decidir
seu futuro, seguindo um projeto que
parta de seus interesses e aspirações”, afirma o pesquisador.
A obra contextualiza a provável história
do povo Kuikúro e os contatos iniciais
com a sociedade não indígena. Depois,
descreve a aldeia Lahatua Otomo no período
em que o matemático lá esteve, entre abril de 1995 e novembro de 1996. Conta
ainda como ele obteve os dados que lhe
permitiram analisar duas figuras geométricas,
a hipérbole e o losango, dentro do
valor simbólico dessa comunidade.
Um dos pontos altos do livro é a constatação
de que todos os desenhos usados
pelos Kuikúro têm uma taxinomia própria,
descrita pelos caciques da aldeia. Eles os
dividem em seis tipos de pintura: do Quarup,
ritual de homenagem aos mortos ilustres
dos povos do Xingu; de cabelo; do abanador; de cestos; de homem; e de mulher.
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Habitantes do Parque Nacional do
Xingu, no Mato Grosso, os Kuikúro
eram, com 509 indígenas, a maior população do Alto Xingu, segundo censo da Fundação Nacional de Saúde de
2006. Subgrupo da família linguística
karib, produzem os famosos colares e cintos com conchas e caracóis que
historicamente têm um importante
papel no sistema tradicional de trocas e pagamentos no Alto Xingu.
OD
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Astronomia – Outro fator fundamental é que Scandiuzzi, ao receber aulas de astronomia dos índios, percebeu que
eles enxergam o céu e não as estrelas. “O
céu é analisado segundo as formas feitas pelas estrelas. O importante é a escuridão”,
afirma. “No desenho, portanto,
também a parte escura é a essencial.”
O professor mostra como, para os Kuikúro,
as figuras geométricas não são simples
desenhos, mas têm significado simbólico
e mitológico. “Fazem parte da vida
do povo como forma de identidade, de comunicação visual e de transmissão do
saber produzido na teoria e na observação
sistemática dos astros Sol e Lua”, conta.
São visualizados ainda no trabalho
obstáculos da educação escolar indígena
aos Kuikúro. Como eles usam os dedos
dos pés para contar, por exemplo, sentem
dificuldade em elaborar operações matemáticas calçando sapatos ou ao se
sentar com os pés debaixo de uma mesa
não transparente.
Outra questão cultural apontada é a falta
de paciência de professores não indígenas,
que acarreta a perda de seu status na comunidade.
Também é destacada a escassez de
recursos humanos e financeiros investidos
na educação indígena, o que leva distintas
etnias a estudarem no mesmo espaço escolar,
dissolvendo diversidades culturais.
"Por tudo isso, o educador deve excluir
toda a autossuficiência, dialogar com
igualdade, aceitar a diferença e a alteridade
e deixar que o outro se defina, aceitando
a autoleitura de acordo com a própria identidade”, diz Scandiuzzi. “Deve-se reconhecer
e aceitar a pluralidade cultural e
o direito de manejar, de maneira autônoma,
os recursos de cada cultura”, conclui.
Oscar D’Ambrosio
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Etnomatemática
nasceu no Brasil
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A etnomatemática surgiu na década de 1970, no Brasil, com o
matemático Ubiratan D’Ambrosio,
professor da Unicamp, a partir de
críticas sobre o ensino tradicional da matemática e da análise das práticas
da disciplina em diversos contextos
culturais. Depois, o conceito
passou a designar as variações
culturais nas distintas formas de conhecimento. Pode ser entendida
como um programa interdisciplinar
que engloba as ciências da cognição,
da epistemologia, da história,
da sociologia e da difusão.
O termo vincula a aquisição de conhecimento, de fazeres e de saberes (mátema) com a realidade
sociocultural (etno) das pessoas.
Numa perspectiva etnomatemática, o ensino da matemática ganha contornos
e estratégias específicas,
peculiares ao campo da percepção
dos sujeitos aos quais se dirige.
A matemática vivenciada pelos meninos em situação de rua, a desenvolvida
em classes do ensino
supletivo e a geometria na cultura
indígena seriam, portanto, completamente diferenciadas entre si.
OD
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