Livros - Cultura
Arte-educador conquista seu espaço
Lançamento debate situação de profissional que procura aproximar a arte do cotidiano das pessoas
O livro Arte/educação como mediação cultural
e social, lançado pela Editora Unesp,
dentro da série “Arte e educação”, traz
uma coletânea dos trabalhos apresentados
por diversos pesquisadores no Seminário
Internacional sobre Mediação Cultural
e Social, realizado em 2004, em São
Paulo. Organizada pela educadora Ana
Mae Barbosa, pioneira em arte-educação
no Brasil e professora aposentada da USP,
e pela educadora artística Rejane Galvão
Coutinho, do Instituto de Artes, câmpus da Barra Funda, a obra discute os avanços
e desafios dos profissionais da área neste
começo de século. Elas analisam, nesta
conversa, a consolidação de seu campo
de atuação, o objetivo da obra recém-lançada
e a necessidade de aproximar a arte
do cotidiano das pessoas. (Entrevista a Oscar D’Ambrosio)
Jornal Unesp: Qual o estágio da arte-educação
hoje no Brasil?
Ana Mae Barbosa: Houve um crescimento
extraordinário. A universidade deu
espaço e os professores têm correspondido
com pesquisas sérias e interessantíssimas.
O que está faltando agora é serem criadas
escolas para crianças junto às universidades
para servirem de laboratório. Isso é muito importante para que os alunos de cursos de
licenciatura em Artes façam suas pesquisas
o mais cedo possível. Eles enfrentam dificuldades
para serem recebidos para fazer
estágio, porque os professores não gostam
muito de alunos vendo as suas aulas. Acho
importante observar diversas realidades, mas também é necessário ter a experiência
aprofundada de qualidade dentro da universidade
com crianças e adolescentes.
JU: E em relação especificamente à atividade
de mediação realizada por arte-educadores em instituições culturais?
Rejane Coutinho: A necessidade de
uma mediação por parte dos arte-educadores
já é concreta e reconhecida pelas instituições
culturais. É preciso que o público
escolar ou leigo que vai pela primeira vez
a um museu, instituição ou centro cultural
saia de lá com vontade de voltar, de modo
que esse comportamento se integre na sua
vida. Assim, a arte passará a ter para ele um
sentido. O movimento de mediação busca
romper a elitização da arte em nome da
democratização do acesso a todos aos bens
culturais. Mediação de qualidade estimula
o senso crítico e leva o público a exigir produções artísticas de melhor nível. Isso está
dentro de uma visão maior de cidadania
e de melhora de qualidade de vida numa
perspectiva mais ampla de educação.
JU: Nesse contexto, qual é o maior desafio
para os arte-educadores?
Ana Mae: O mais importante seria desenvolver
a imaginação da criança, porque
a cognição trabalha em grande parte pela
descoberta do que não existe na realidade.
Isso só se faz imaginando uma outra realidade.
Tenho completo desprezo por projetos
muito diretivos, que já vêm com as perguntas
que o professor tem que fazer sobre uma
imagem. A pergunta já é uma maneira de
organização de significado. Atribuir significados
a uma imagem é um processo fundamental
para o desenvolvimento da cognição.
O aluno ruim em matemática, inglês
e ciências pode, pela arte, melhorar a sua
capacidade de compreensão dessas áreas.
JU: Como o livro Arte/educação como
mediação cultural e social se coloca nesse
contexto?
Rejane: Ele enfoca especificamente
aqueles que trabalham em busca de um
diálogo entre as produções artísticas e os
sujeitos. Insere-se numa preocupação, que
vem de uns 15 anos para cá, de os museus
e centros culturais buscarem desenvolver
um programa educativo, com um educador recebendo o público e as escolas. Por
outro lado, as instituições educacionais os professores e as escolas buscam aproximar
os seus alunos dos equipamentos
culturais. Esses dois movimentos vão confluir na necessidade de se configurarem
ações educativas nesse processo queé chamado de mediação cultural.
JU: Como o professor de artes é visto hoje
na escola?
Ana Mae: Ele antes era aquele que
fazia coisinhas para o dia das mães ou dos
pais. Hoje em dia, o conteúdo que apresenta é mais respeitado, porque o professor é visto como o detentor de toda uma história e de toda uma contextualização
da arte em diversas épocas e no mundo
contemporâneo.
JU: A sua visão é otimista em relação ao futuro
dos arte-educadores que trabalham com
mediação?
Rejane: Acredito muito nas pessoas
e na possibilidade de as transformações
acontecerem, mas é um grande desafio. Os
educadores precisam tentar desmistificar a
ideia de que a arte é uma coisa que precisa
de um conhecimento extraordinário para
ser compreendida. Todas as experiências
de mediação que estão no livro mostram o
quanto somos capazes de interpretar uma
obra de arte e de ter uma opinião sobre ela
a partir das experiências que carregamos
em nossa própria vida. Trabalhando nessa
direção, já daremos um grande passo para aproximar a arte da vida das pessoas. |