UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
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Jornal Unesp    
   
Dezembro/2009 - Ano XXII - nº 251


Livros - Cultura

Arte-educador conquista seu espaço
Lançamento debate situação de profissional que procura aproximar a arte do cotidiano das pessoas

O livro Arte/educação como mediação cultural e social, lançado pela Editora Unesp, dentro da série “Arte e educação”, traz uma coletânea dos trabalhos apresentados por diversos pesquisadores no Seminário Internacional sobre Mediação Cultural e Social, realizado em 2004, em São Paulo. Organizada pela educadora Ana Mae Barbosa, pioneira em arte-educação no Brasil e professora aposentada da USP, e pela educadora artística Rejane Galvão Coutinho, do Instituto de Artes, câmpus da Barra Funda, a obra discute os avanços e desafios dos profissionais da área neste começo de século. Elas analisam, nesta conversa, a consolidação de seu campo de atuação, o objetivo da obra recém-lançada e a necessidade de aproximar a arte do cotidiano das pessoas. (Entrevista a Oscar D’Ambrosio)

Jornal Unesp: Qual o estágio da arte-educação hoje no Brasil?
Ana Mae Barbosa: Houve um crescimento extraordinário. A universidade deu espaço e os professores têm correspondido com pesquisas sérias e interessantíssimas. O que está faltando agora é serem criadas escolas para crianças junto às universidades para servirem de laboratório. Isso é muito importante para que os alunos de cursos de licenciatura em Artes façam suas pesquisas o mais cedo possível. Eles enfrentam dificuldades para serem recebidos para fazer estágio, porque os professores não gostam muito de alunos vendo as suas aulas. Acho importante observar diversas realidades, mas também é necessário ter a experiência aprofundada de qualidade dentro da universidade com crianças e adolescentes.

JU: E em relação especificamente à atividade de mediação realizada por arte-educadores em instituições culturais?
Rejane Coutinho: A necessidade de uma mediação por parte dos arte-educadores já é concreta e reconhecida pelas instituições culturais. É preciso que o público escolar ou leigo que vai pela primeira vez a um museu, instituição ou centro cultural saia de lá com vontade de voltar, de modo que esse comportamento se integre na sua vida. Assim, a arte passará a ter para ele um sentido. O movimento de mediação busca romper a elitização da arte em nome da democratização do acesso a todos aos bens culturais. Mediação de qualidade estimula o senso crítico e leva o público a exigir produções artísticas de melhor nível. Isso está dentro de uma visão maior de cidadania e de melhora de qualidade de vida numa perspectiva mais ampla de educação.

JU: Nesse contexto, qual é o maior desafio para os arte-educadores?
Ana Mae: O mais importante seria desenvolver a imaginação da criança, porque a cognição trabalha em grande parte pela descoberta do que não existe na realidade. Isso só se faz imaginando uma outra realidade. Tenho completo desprezo por projetos muito diretivos, que já vêm com as perguntas que o professor tem que fazer sobre uma imagem. A pergunta já é uma maneira de organização de significado. Atribuir significados a uma imagem é um processo fundamental para o desenvolvimento da cognição. O aluno ruim em matemática, inglês e ciências pode, pela arte, melhorar a sua capacidade de compreensão dessas áreas.

JU: Como o livro Arte/educação como mediação cultural e social se coloca nesse contexto?
Rejane: Ele enfoca especificamente aqueles que trabalham em busca de um diálogo entre as produções artísticas e os sujeitos. Insere-se numa preocupação, que vem de uns 15 anos para cá, de os museus e centros culturais buscarem desenvolver um programa educativo, com um educador recebendo o público e as escolas. Por outro lado, as instituições educacionais os professores e as escolas buscam aproximar os seus alunos dos equipamentos culturais. Esses dois movimentos vão confluir na necessidade de se configurarem ações educativas nesse processo queé chamado de mediação cultural.

JU: Como o professor de artes é visto hoje na escola?
Ana Mae: Ele antes era aquele que fazia coisinhas para o dia das mães ou dos pais. Hoje em dia, o conteúdo que apresenta é mais respeitado, porque o professor é visto como o detentor de toda uma história e de toda uma contextualização da arte em diversas épocas e no mundo contemporâneo.

JU: A sua visão é otimista em relação ao futuro dos arte-educadores que trabalham com mediação?
Rejane: Acredito muito nas pessoas e na possibilidade de as transformações acontecerem, mas é um grande desafio. Os educadores precisam tentar desmistificar a ideia de que a arte é uma coisa que precisa de um conhecimento extraordinário para ser compreendida. Todas as experiências de mediação que estão no livro mostram o quanto somos capazes de interpretar uma obra de arte e de ter uma opinião sobre ela a partir das experiências que carregamos em nossa própria vida. Trabalhando nessa direção, já daremos um grande passo para aproximar a arte da vida das pessoas.

 
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