UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Reitoria
 
Jornal Unesp    
   
Dezembro/2009 - Ano XXII - nº 251


Fórum - Ana Lúcia de Castro

O campo adequado de discussão do impacto do conhecimento

É curioso notar que as ciências humanas emergem e se consolidam na modernidade do século XIX, contexto em que a ideia de progresso tecnológico se afirma como a garantia do conforto e felicidade humana, potencial solução de todos os problemas e erradicação do sofrimento. Paradoxalmente, esse mesmo contexto que colocou as condições férteis para o desenvolvimento das ciências humanas (aqui me refiro sobretudo a antropologia, sociologia e psicologia) também fabricou o veneno que as fragilizaria, uma vez que o desenvolvimento da cultura moderna, com suas sociedades urbano industriais, veio pautando-se na fé no progresso tecnológico e, por consequência, acentuando a valorização na formação técnica. Como decorrência, assistimos à subordinação da vida universitária aos interesses do mercado, o qual impõe a necessidade de profissionalização especializada e colabora para a acentuação da fragmentação dos campos disciplinares.

Além de problemáticas e formas de construção de conhecimento diferentes, os domínios das ciências naturais e das ciências humanas se afastam pela ideia de objetividade, critério básico das ciências desde o século XVII. [...] Para Lévi-Strauss, Rousseau teria sido o fundador das ciências do homem ao perceber que nelas a relação entre o homem como sujeito cognoscente e alvo deste mesmo conhecimento configura-se como elemento desestabilizador e perturbador.

A reflexão sobre o papel das ciências humanas na Universidade não pode perder de vista este quadro e parece tornar-se bastante profícua se tomarmos como ponto de partida a suposta fronteira estabelecida entre natureza e cultura, a qual sustentou a ideia de que as ciências da natureza tomariam como objeto a natureza – incluindo o homem – na busca de sua descoberta, controle e manipulação, enquanto as humanas se dedicariam ao conceito de cultura, ou educação/socialização, reconhecendo que o ser humano, como elemento da natureza, não está pronto, acabado, mas é construído na interação com outros seres humanos e o contexto social/ambiente que o cerca.

Contudo, as trajetórias paralelas dos dois campos científicos conduziram a um entroncamento, ponto de encontro, em que as preocupações compartilhadas pela comunidade científica de ambos se tocam e se reconhecem como comuns. Como exemplo, vale citar as pesquisas de ponta na área das ciências biológicas, sobretudo aquelas relacionadas à engenharia genética, que vêm impondo questões de ordemética que, para serem respondidas, exigem que se recorra a uma reflexão amparada nas ciências humanas. Não por acaso, no último quarto do século XX, o saber médico encara de frente a necessidade de se problematizarem questões de fundo ético e humano, propondo uma nova disciplina, a bioética, que, segundo Volnei Garrafa (2003), estuda a ética das situações de vida, buscando adensar a reflexão sobre temas que já contam com um acúmulo de discussões (como fome, abandono, exclusão, racismo, aborto, eutanásia), bem como contribuir na busca de respostas aos conflitos decorrentes dos avanços científicos na área de engenharia genética, que apontam para a possibilidade de desenvolver novas técnicas reprodutivas, disseminar alimentos transgênicos, clonar seres humanos e mudar o patamar da discussão e da prática relativa ao transplante e doação de órgãos.

Humanidades garantem arsenal
de reflexão sobre contexto
de produção de tecnologias,
poderes que as controlam
e fins a que se aplicam

[...] Geertz, em sua bela reflexão sobre a mútua interferência da natureza e da cultura na constituição do homo sapiens, lembra a formação de um sistema de retroalimentação positiva entre corpo, cérebro e padrão cultural. Nas palavras sintéticas do autor, sem os homens certamente não haveria cultura, mas de forma semelhante e muito significativamente, sem cultura não haveria homens (GEERTZ, 1989:61).

Diante deste quadro, as ciências humanas cumprem um papel decisivo na produção do conhecimento atual, por problematizarem e contextualizarem o próprio fazer científico e fornecerem o arsenal conceitual necessário para a premente reflexão sobre o contexto em que se produzem as tecnologias, bem como sobre os poderes que as controlam e os fins a que se aplicam.

É sabido que a produção do conhecimento não está imune às contradições e dilemas do contexto histórico-social em que é engendrada. Por sua tradição de reflexão e crítica da realidade social, as ciências humanas constituem o campo disciplinar mais habilitado a discutir a natureza do conhecimento, sua função e seus impactos sociais, sendo este um dos principais papéis que têm a cumprir no cenário acadêmico contemporâneo.

Ana Lúcia de Castro é professora do Departamento de Antropologia da Unesp, câmpus de Araraquara. Publicou, entre outros, Culto ao corpo e sociedade: mídia, estilos de vida e cultura de consumo, e é coorganizadora da coletânea Corpo: território da cultura, ambos pela Editora AnnaBlume.

Bibliografia citada:
GEERTZ, Clifford. O impacto do conceito de cultura sobre o conceito de homem. In: A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Ed. LTC, 1989.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Jean-Jacques Rousseau, fundador das ciências do homem. In: Antropologia Estrutural II. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1976.
GARRAFA, Volnei. Bioética e manipulação da vida. In: NOVAES, Adauto (org.) Homem máquina: a ciência manipula o corpo. São Paulo: Cia. das Letras, 2003.

A íntegra deste artigo está no “Debate acadêmico” do Portal Unesp, no endereço http://www.unesp.br/aci/debate/ana_lucia_castro.php

 
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