Fórum - Ana Lúcia de Castro
O campo adequado de discussão do impacto do conhecimento
É curioso notar que as ciências humanas
emergem e se consolidam na modernidade do século XIX, contexto em que a ideia de
progresso tecnológico se afirma como a garantia
do conforto e felicidade humana, potencial solução
de todos os problemas e erradicação do sofrimento.
Paradoxalmente, esse mesmo contexto que colocou
as condições férteis para o desenvolvimento
das ciências humanas (aqui me refiro sobretudo a
antropologia, sociologia e psicologia) também fabricou
o veneno que as fragilizaria, uma vez que
o desenvolvimento da cultura moderna, com suas
sociedades urbano industriais, veio pautando-se
na fé no progresso tecnológico e, por consequência,
acentuando a valorização na formação técnica.
Como decorrência, assistimos à subordinação da
vida universitária aos interesses do mercado, o
qual impõe a necessidade de profissionalização especializada e colabora para a acentuação da fragmentação
dos campos disciplinares.
Além de problemáticas e formas de construção
de conhecimento diferentes, os domínios das ciências naturais e das ciências humanas se afastam
pela ideia de objetividade, critério básico das ciências desde o século XVII. [...] Para Lévi-Strauss,
Rousseau teria sido o fundador das ciências do
homem ao perceber que nelas a relação entre o
homem como sujeito cognoscente e alvo deste mesmo conhecimento configura-se como elemento
desestabilizador e perturbador.
A reflexão sobre o papel das ciências humanas na
Universidade não pode perder de vista este quadro e parece tornar-se bastante profícua se tomarmos
como ponto de partida a suposta fronteira estabelecida
entre natureza e cultura, a qual sustentou a ideia de que as ciências da natureza tomariam como objeto
a natureza – incluindo o homem – na busca de sua
descoberta, controle e manipulação, enquanto as humanas
se dedicariam ao conceito de cultura, ou educação/socialização, reconhecendo que o ser humano,
como elemento da natureza, não está pronto, acabado,
mas é construído na interação com outros seres
humanos e o contexto social/ambiente que o cerca.
Contudo, as trajetórias paralelas dos dois campos
científicos conduziram a um entroncamento, ponto de encontro, em que as preocupações compartilhadas
pela comunidade científica de ambos se tocam e
se reconhecem como comuns. Como exemplo, vale
citar as pesquisas de ponta na área das ciências biológicas,
sobretudo aquelas relacionadas à engenharia
genética, que vêm impondo questões de ordemética que, para serem respondidas, exigem que se
recorra a uma reflexão amparada nas ciências humanas.
Não por acaso, no último quarto do século
XX, o saber médico encara de frente a necessidade
de se problematizarem questões de fundo ético e
humano, propondo uma nova disciplina, a bioética,
que, segundo Volnei Garrafa (2003), estuda a ética
das situações de vida, buscando adensar a reflexão
sobre temas que já contam com um acúmulo de
discussões (como fome, abandono, exclusão, racismo,
aborto, eutanásia), bem como contribuir na
busca de respostas aos conflitos decorrentes dos
avanços científicos na área de engenharia genética,
que apontam para a possibilidade de desenvolver
novas técnicas reprodutivas, disseminar alimentos
transgênicos, clonar seres humanos e mudar o patamar
da discussão e da prática relativa ao transplante
e doação de órgãos.
Humanidades garantem arsenal
de reflexão sobre contexto
de produção de tecnologias,
poderes que as controlam
e fins a que se aplicam [...] Geertz, em sua bela reflexão sobre a mútua
interferência da natureza e da cultura na constituição do homo sapiens, lembra a formação de um
sistema de retroalimentação positiva entre corpo,
cérebro e padrão cultural. Nas palavras sintéticas
do autor, sem os homens certamente não haveria cultura, mas de forma semelhante e muito significativamente,
sem cultura não haveria homens
(GEERTZ, 1989:61).
Diante deste quadro, as ciências humanas
cumprem um papel decisivo na produção do
conhecimento atual, por problematizarem e
contextualizarem o próprio fazer científico e
fornecerem o arsenal conceitual necessário para
a premente reflexão sobre o contexto em que se produzem as tecnologias, bem como sobre os poderes
que as controlam e os fins a que se aplicam.
É sabido que a produção do conhecimento não
está imune às contradições e dilemas do contexto histórico-social em que é engendrada. Por sua
tradição de reflexão e crítica da realidade social, as ciências humanas constituem o campo disciplinar
mais habilitado a discutir a natureza do conhecimento,
sua função e seus impactos sociais, sendo
este um dos principais papéis que têm a cumprir
no cenário acadêmico contemporâneo.
Ana Lúcia de Castro é professora do Departamento
de Antropologia da Unesp, câmpus de Araraquara. Publicou,
entre outros, Culto ao corpo e sociedade: mídia,
estilos de vida e cultura de consumo, e é coorganizadora
da coletânea Corpo: território da cultura, ambos pela Editora
AnnaBlume.
Bibliografia citada:
GEERTZ, Clifford. O impacto do conceito de cultura sobre
o conceito de homem. In: A interpretação das culturas.
Rio de Janeiro: Ed. LTC, 1989.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Jean-Jacques Rousseau, fundador
das ciências do homem. In: Antropologia Estrutural II.
Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1976.
GARRAFA, Volnei. Bioética e manipulação da vida. In: NOVAES,
Adauto (org.) Homem máquina: a ciência manipula
o corpo. São Paulo: Cia. das Letras, 2003.
A íntegra deste artigo está no “Debate acadêmico” do
Portal Unesp, no endereço http://www.unesp.br/aci/debate/ana_lucia_castro.php |