Fórum - Alberto Albuquerque Gomes
É importante humanizar a formação de alunos e professores
Por que dar um lugar à filosofia na formação
dos cientistas? Poderíamos perguntar também: “Por que um curso de informática para
um químico?”, ou: “Por que um curso de ciências naturais para um matemático?”. A essas questões não
existe uma resposta científica: a resposta é do âmbito de uma política universitária.
(FOUREZ, 1995, p. 25)
A epígrafe acima nos dá o mote para perguntarmos
qual é o papel das Ciências Humanas na universidade.
Assim como Fourez nos ensina, não se trata de uma
questão de caráter científico ou simplesmente curricular,
mas sim de uma questão de política universitária.
[...]
Ciência, em seu sentido mais tradicional, pode ser
entendida como a ação humana, consciente, no sentido
de construção de modelos explicativos acerca do mundo
real, com vistas a encontrar soluções para a vida cotidiana.
Trata-se, pois, de uma área do conhecimento
humano sustentada por dois pressupostos básicos: a
sistematização lógica e a objetividade dos processos
de produção do conhecimento. Portanto, a “[...] meta da
ciência pode ser entendida como a produção do conhecimento do mundo [...]” (CHALMERS, 1994, p. 39).
Esta visão corrente do que seja ciência sugere a
imagem do cientista como um “homem” diferente, de gestos metódicos, calculados, frios – enfim – desumanizado.
Chalmers (1994, p. 11) nos chama a atenção
para isso:
A ciência geralmente é considerada desumanizadora,
dando um tratamento insatisfatório a povos, sociedades e
natureza, nela considerados
objetos. A
alegada neutralidade
e isenção de valores da ciência é percebida
por muita gente
como não autêntica,
ideia estimulada pelo
fenômeno, cada vez mais comum, do desacordo
entre especialistas, em lados opostos de
uma discussão politicamente suscetível acerca da
substância do fato científico.
Quanto mais
desvalorizada a
ideia de ética e
responsabilidade,
mais a ciência
se presta a
manipulações Esta concepção de ciência e dos cientistas tem
sido reforçada pelas próprias “comunidades científicas”,
que segundo Fourez (1995, p. 93),
Em nossa moderna sociedade, a comunidade científica é um grupo social relativamente bem definido.
Estrutura-se em parte por si mesmo: é uma confraria
onde os indivíduos se reconhecem como membros
de um mesmo corpo.
O que poderia indicar certa segurança dessa confraria
tem se revelado na verdade como um quase indecifrável
dilema ético-moral. Embora seja inegável que
a ciência moderna tenha nos proporcionado inúmeros
benefícios para a vida cotidiana, trouxe-nos também
alguns itens para a pauta contemporânea, como a crise
ecológica, as promessas não cumpridas pela ciência
de uma sociedade mais justa e equilibrada, a crescente
exploração e exclusão de significativos contingentes da população mundial, a dificuldade da vida em comunidade
e a violência incomensurável de nossos dias.
Diante disso, meu principal argumento em favor
da importância das Ciências Humanas tem por pressuposto
seu papel de ancoragem no processo de
reflexão acerca da produção do conhecimento científico
na universidade, bem como de “humanização
dos pesquisadores”. [...]
Parafraseando Fourez (1995), trata-se de uma escolha ético-política assegurar aos estudantes e professores
universitários alguma formação humana,
pois a universidade “não forma educadores, matemáticos,
físicos, químicos etc., de maneira abstrata,
mas seres humanos que cumprirão certo número de
funções sociais, as quais os levarão a assumir responsabilidades”
(p. 25-26).
A título de conclusão, podemos refletir sobre os
efeitos da humanização na formação de estudantes e professores universitários. Quanto mais desvalorizada
a ideia de ética e responsabilidade desses sujeitos, mais a ciência se presta a manipulações
ideológicas e mentirosas. Tais questões nos indicam
a necessidade de refletirmos seriamente sobre
esse processo, considerando que, como cidadãos,
carregamos uma grande responsabilidade social, que
deve ser balizada por critérios éticos como justiça
social, honestidade intelectual, igualdade, etc.
Alberto Albuquerque Gomes é professor e coordenador
do Programa de Pós-Graduação em Educação — Mestrado
da Faculdade de Ciências e Tecnologia do câmpus de Presidente
Prudente. A íntegra deste artigo está no “Debate acadêmico” do
Portal Unesp, no endereço www.unesp.br/aci/debate/alberto_albuquerque_gomes.php |