UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Reitoria
 
Jornal Unesp    
   
Dezembro/2009 - Ano XXII - nº 251


Fórum - Alberto Albuquerque Gomes

É importante humanizar a formação de alunos e professores

Por que dar um lugar à filosofia na formação dos cientistas? Poderíamos perguntar também: “Por que um curso de informática para um químico?”, ou: “Por que um curso de ciências naturais para um matemático?”. A essas questões não existe uma resposta científica: a resposta é do âmbito de uma política universitária.
(FOUREZ, 1995, p. 25)

A epígrafe acima nos dá o mote para perguntarmos qual é o papel das Ciências Humanas na universidade. Assim como Fourez nos ensina, não se trata de uma questão de caráter científico ou simplesmente curricular, mas sim de uma questão de política universitária. [...]

Ciência, em seu sentido mais tradicional, pode ser entendida como a ação humana, consciente, no sentido de construção de modelos explicativos acerca do mundo real, com vistas a encontrar soluções para a vida cotidiana. Trata-se, pois, de uma área do conhecimento humano sustentada por dois pressupostos básicos: a sistematização lógica e a objetividade dos processos de produção do conhecimento. Portanto, a “[...] meta da ciência pode ser entendida como a produção do conhecimento do mundo [...]” (CHALMERS, 1994, p. 39).

Esta visão corrente do que seja ciência sugere a imagem do cientista como um “homem” diferente, de gestos metódicos, calculados, frios – enfim – desumanizado. Chalmers (1994, p. 11) nos chama a atenção para isso:

A ciência geralmente é considerada desumanizadora, dando um tratamento insatisfatório a povos, sociedades e natureza, nela considerados objetos. A alegada neutralidade e isenção de valores da ciência é percebida por muita gente como não autêntica, ideia estimulada pelo fenômeno, cada vez mais comum, do desacordo entre especialistas, em lados opostos de uma discussão politicamente suscetível acerca da substância do fato científico.

Quanto mais
desvalorizada a
ideia de ética e
responsabilidade,
mais a ciência
se presta a
manipulações

Esta concepção de ciência e dos cientistas tem sido reforçada pelas próprias “comunidades científicas”, que segundo Fourez (1995, p. 93),

Em nossa moderna sociedade, a comunidade científica é um grupo social relativamente bem definido.
Estrutura-se em parte por si mesmo: é uma confraria onde os indivíduos se reconhecem como membros de um mesmo corpo.

O que poderia indicar certa segurança dessa confraria tem se revelado na verdade como um quase indecifrável dilema ético-moral. Embora seja inegável que a ciência moderna tenha nos proporcionado inúmeros benefícios para a vida cotidiana, trouxe-nos também alguns itens para a pauta contemporânea, como a crise ecológica, as promessas não cumpridas pela ciência de uma sociedade mais justa e equilibrada, a crescente exploração e exclusão de significativos contingentes da população mundial, a dificuldade da vida em comunidade e a violência incomensurável de nossos dias.

Diante disso, meu principal argumento em favor da importância das Ciências Humanas tem por pressuposto seu papel de ancoragem no processo de reflexão acerca da produção do conhecimento científico na universidade, bem como de “humanização dos pesquisadores”. [...]

Parafraseando Fourez (1995), trata-se de uma escolha ético-política assegurar aos estudantes e professores universitários alguma formação humana, pois a universidade “não forma educadores, matemáticos, físicos, químicos etc., de maneira abstrata, mas seres humanos que cumprirão certo número de funções sociais, as quais os levarão a assumir responsabilidades” (p. 25-26).

A título de conclusão, podemos refletir sobre os efeitos da humanização na formação de estudantes e professores universitários. Quanto mais desvalorizada a ideia de ética e responsabilidade desses sujeitos, mais a ciência se presta a manipulações ideológicas e mentirosas. Tais questões nos indicam a necessidade de refletirmos seriamente sobre esse processo, considerando que, como cidadãos, carregamos uma grande responsabilidade social, que deve ser balizada por critérios éticos como justiça social, honestidade intelectual, igualdade, etc.

Alberto Albuquerque Gomes é professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação — Mestrado da Faculdade de Ciências e Tecnologia do câmpus de Presidente Prudente. A íntegra deste artigo está no “Debate acadêmico” do Portal Unesp, no endereço www.unesp.br/aci/debate/alberto_albuquerque_gomes.php

 
Loading
  Jornal