UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
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Jornal Unesp    
   
Dezembro/2009 - Ano XXII - nº 251


Fórum - Entrevista > Marco Aurélio Nogueira

Área tem papel fundamental na sociedade da informação

Marco Aurélio Nogueira é bacharel em Ciências Políticas e Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, doutor em Ciência Política pela USP, pós-doutor na Universidade de Roma, Itália, e livre docente pela Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da Unesp, câmpus de Araraquara. É professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia dessa unidade e do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (que reúne Unesp, PUC-SP e Unicamp). É colunista do jornal O Estado de S. Paulo e atua nas áreas de Ciência Política e de Gestão Pública. Nesta conversa, ele critica a avaliação quantitativa nas ciências e destaca a relevância das Humanidades na sociedade contemporânea. (Entrevista a Oscar D’Ambrosio)

Jornal Unesp: Como é possível realizar a avaliação de desempenho de profissionais das Humanidades? O quantitativo é suficiente e adequado?
Marco Aurélio Nogueira: Em nenhuma área, sobretudo na ciência e na educação, o quantitativo poderia ser imaginado como um bom critério de avaliação de desempenho. É algo que tem a cara do mundo mercantil em que vivemos, assentado no cálculo instrumental, na contabilidade e na produtividade. Na verdade, não se sabe como avaliar, e a opção pela análise da “produtividade” aparece como a saída mais fácil. Uma alternativa seria criar condições para que aquilo que se produz seja de fato submetido à crítica dos pares, sem esprit de corps. Outra coisa, fundamental na universidade, é valorizar mais o desempenho docente, que não dá para ser medido em números.

JU: Como o senhor vê a posição das Humanidades, hoje, dentro da mecânica do mundo acadêmico?
Nogueira: As Humanidades ainda são consideradas ciências menores, talvez mesmo não ciências, ou uma espécie de quase ciências. Acredita-se que a questão da “prova” não possa ser por elas resolvida e não se dá o devido valor ao poder cognitivo e explicativo da argumentação lógica ou da pesquisa histórica. Os pesquisadores de Humanidades, porém, muitas vezes não buscam a comunicação ou a cooperação com os pesquisadores das outras áreas, além de não darem a devida importância para a linguagem de suas pesquisas, que terminam por ficar herméticas em demasia. A verdade, no entanto, é que o mundo atual depende demais das Humanidades. Ele é um mundo fragmentado, que se recompõe em alta velocidade e que não ganha sentido compreensível sem o esforço intelectual próprio delas.

Bilhões de pessoas
deverão entrar no
ciberespaço e Ciências
Humanas são chamadas
a atuar de forma
decisiva no processo

JU: Qual é o papel das Humanidades na atual sociedade da informação?
Nogueira: É essencialmente o papel de fornecer um eixo para que a massa de informações que recebemos diariamente se converta em base de conhecimento, ou seja, para que as informações acrescentem algo à vida das pessoas e das sociedades. É também o papel de fazer com que a conectividade produza mais vida coletiva substantiva, em vez de somente vínculos e ligações. E é ainda o papel de unificar o que está fragmentado, ou seja, fornecer explicações totalizantes a respeito do mundo e fazer avançar a crítica dele. Precisamente por isso, as Humanidades devem atuar como guardiãs da boa comunicação, seja em termos de difusão, seja em termos de léxico e discurso. São elas, em boa medida, juntamente com as artes, que podem nos fornecer uma imagem do mundo que seja mais que um retrato da superfície visível e evidente. Hoje, estamos tomando decisões ou providências para viabilizar a entrada no ciberespaço de massas de bilhões de pessoas, algo que se processa com grande rapidez mas também com pouco planejamento e pouca clarividência. As Humanidades vêm sendo chamadas para atuar de forma decisiva nesse processo, e o adequado seria que se preparassem rapidamente para isso e recebessem o apoio ativo das demais ciências.

 
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