José Roberto Gnecco
Como o Rio
se tornou sede
dos Jogos
Especialista envolvido na candidatura da cidade
analisa preparo do país para Olimpíadas de 2016 Professor do Instituto de Biociências
do câmpus de Rio Claro, José Roberto
Gnecco atua como assistente técnico
do Ministério do Esporte liberado pela
Unesp. Graduado em Educação Física,
mestre e doutor em Educação, realizou aperfeiçoamento em Administração Esportiva
e Gerenciamento de Projetos.
Trabalhou pela candidatura vitoriosa do Rio de Janeiro para sede das Olimpíadas
de 2016 e participa da organização dos
Jogos Mundiais Militares, também na cidade, em 2011. Aqui, ele revela como
o Brasil superou os outros países que se
candidataram a promover a competição.
(Entrevista a Oscar D’Ambrosio)
Jornal Unesp: Quais fatores foram fundamentais
para que o Rio tenha sido eleito a
sede dos Jogos Olímpicos de 2016?
José Roberto Gnecco: Fizemos
tudo certo. Apresentamos um dossiê
de candidatura que respondia a todas as
exigências da candidatura. O Brasil já
havia sido candidato em 1936, 1956 e
1960, e, mais recentemente, com Brasília
em 2000 e Rio de Janeiro em 2004
e 2012. Nessas tentativas, não estava
clara, por exemplo, qual era a fonte de
recursos financeiros que viabilizaria a
preparação da cidade. Também não estavam
bem preparadas as propostas técnicas
de organização esportiva.
JU: Qual foi o diferencial do Rio de Janeiro
em relação a Madri, sua adversária final no
processo decisório?
Gnecco: Madri tinha tudo que nós
tínhamos, mas padecia de alguns problemas.
O fato de os Jogos Olímpicos
serem em Londres, em 2012, e poderem
ocorrer na Europa, em 2016, por
exemplo. Se isso acontecesse, o COI (Comitê Olímpico Internacional) estaria
dizendo para o mundo que a competição
era apenas para o hemisfério
norte, o Primeiro Mundo.
JU: Trata-se, portanto, de um aspecto político...
Gnecco: O aspecto técnico foi a
qualidade do material preparado. O
político envolve a perfeita articulação
dos três níveis de governo: municipal,
estadual e federal. O presidente Luiz
Inácio Lula da Silva colocou o Itamaraty,
a Embratur, a Abin e outros órgãos
para conseguir os votos da Assembleia
do COI. Levou para Copenhague desde
o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, ao presidente da
Câmara, Michel Temer. Ao contrário
de Chicago, Tóquio e Madri, onde seriam necessárias poucas obras, os Jogos
Olímpicos do Rio deixarão um legado
para a cidade. Para isso, será necessário estabelecer linhas de financiamento, e
o Estado e os bancos internacionais investirão
na cidade.
JU: Uma crítica que se faz à escolha do
Rio é a falta de segurança da cidade...
Gnecco: Os Jogos Pan-Americanos,
em 2007, o show dos Rolling Stones,
em 2006, e os Jogos Sul-Americanos, em 2002 – divididos com São Paulo,
onde foram coordenados por mim –, foram eventos realizados no Rio sem
nenhum tipo de problema. Além disso,
a segurança é um problema mundial –
em 2005, no dia seguinte ao anúncio da
vitória de Londres como sede dos Jogos
Olímpicos de 2012, foram explodidas
quatro bombas, deixando 52 mortos e cerca de 700 feridos na cidade.
JU: Qual é o maior desafio para os organizadores?
Gnecco: Os três maiores problemas
apontados pelo COI durante a
primeira fase da candidatura foram
segurança, transporte e acomodações.
Apresentamos soluções para os três e
fomos selecionados. Quanto à segurança,
vamos agir em termos de planejamento,
inteligência, prevenção e
repressão. Em relação ao transporte,
a cidade tem a Floresta da Tijuca na sua área central. Para atravessar de um
lado ao outro, os caminhos são a orla, o Túnel Santa Bárbara, o Rebouças e a Linha Amarela. Estamos propondo
uma rede de ônibus semelhante ao “Ligeirinho” de Curitiba. Sobre acomodações, o parque hoteleiro do Rio vem sendo modernizado. Uma parte
da solução é a mesma do Réveillon: ancorar transatlânticos no porto, já que cada um pode comportar 3 mil
pessoas. Outro caminho são os investimentos
do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento na construção
de moradias que servirão de acomodações
para turistas.
JU: Qual foi a sua função no processo de
escolha do Rio e qual será de agora em
diante?
Gnecco: Trabalhando junto a outros órgãos do governo federal, levantávamos
informações sobre os eleitores e a melhor maneira de abordá-los. Isso
ajudou a nortear a política do Comitê
Olímpico Brasileiro e do próprio Estado brasileiro. Ajudei também a firmar
o projeto de legado dos Jogos Olímpicos
acordado entre os três níveis de
governo, federal, estadual e municipal,
para que a Assembleia do COI percebesse
que a candidatura era importante
para a cidade e o país. A principal função
agora é ajudar a solucionar o problema
do Laboratório de Controle de
Dopagem. Único do país credenciado pela Agência Mundial Antidoping, ele
se localiza na Universidade Federal do
Rio de Janeiro e terá que ser continuamente atualizado para fazer os exames
antidoping dos Jogos. |