UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Reitoria
 
Jornal Unesp    
   
Dezembro/2009 - Ano XXII - nº 251

José Roberto Gnecco
Como o Rio se tornou sede dos Jogos
Especialista envolvido na candidatura da cidade analisa preparo do país para Olimpíadas de 2016

Professor do Instituto de Biociências do câmpus de Rio Claro, José Roberto Gnecco atua como assistente técnico do Ministério do Esporte liberado pela Unesp. Graduado em Educação Física, mestre e doutor em Educação, realizou aperfeiçoamento em Administração Esportiva e Gerenciamento de Projetos. Trabalhou pela candidatura vitoriosa do Rio de Janeiro para sede das Olimpíadas de 2016 e participa da organização dos Jogos Mundiais Militares, também na cidade, em 2011. Aqui, ele revela como o Brasil superou os outros países que se candidataram a promover a competição. (Entrevista a Oscar D’Ambrosio)

Jornal Unesp: Quais fatores foram fundamentais para que o Rio tenha sido eleito a sede dos Jogos Olímpicos de 2016?
José Roberto Gnecco: Fizemos tudo certo. Apresentamos um dossiê de candidatura que respondia a todas as exigências da candidatura. O Brasil já havia sido candidato em 1936, 1956 e 1960, e, mais recentemente, com Brasília em 2000 e Rio de Janeiro em 2004 e 2012. Nessas tentativas, não estava clara, por exemplo, qual era a fonte de recursos financeiros que viabilizaria a preparação da cidade. Também não estavam bem preparadas as propostas técnicas de organização esportiva.

JU: Qual foi o diferencial do Rio de Janeiro em relação a Madri, sua adversária final no processo decisório?
Gnecco: Madri tinha tudo que nós tínhamos, mas padecia de alguns problemas. O fato de os Jogos Olímpicos serem em Londres, em 2012, e poderem ocorrer na Europa, em 2016, por exemplo. Se isso acontecesse, o COI (Comitê Olímpico Internacional) estaria dizendo para o mundo que a competição era apenas para o hemisfério norte, o Primeiro Mundo.

JU: Trata-se, portanto, de um aspecto político...
Gnecco: O aspecto técnico foi a qualidade do material preparado. O político envolve a perfeita articulação dos três níveis de governo: municipal, estadual e federal. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou o Itamaraty, a Embratur, a Abin e outros órgãos para conseguir os votos da Assembleia do COI. Levou para Copenhague desde o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, ao presidente da Câmara, Michel Temer. Ao contrário de Chicago, Tóquio e Madri, onde seriam necessárias poucas obras, os Jogos Olímpicos do Rio deixarão um legado para a cidade. Para isso, será necessário estabelecer linhas de financiamento, e o Estado e os bancos internacionais investirão na cidade.

JU: Uma crítica que se faz à escolha do Rio é a falta de segurança da cidade...
Gnecco: Os Jogos Pan-Americanos, em 2007, o show dos Rolling Stones, em 2006, e os Jogos Sul-Americanos, em 2002 – divididos com São Paulo, onde foram coordenados por mim –, foram eventos realizados no Rio sem nenhum tipo de problema. Além disso, a segurança é um problema mundial – em 2005, no dia seguinte ao anúncio da vitória de Londres como sede dos Jogos Olímpicos de 2012, foram explodidas quatro bombas, deixando 52 mortos e cerca de 700 feridos na cidade.

JU: Qual é o maior desafio para os organizadores?
Gnecco: Os três maiores problemas apontados pelo COI durante a primeira fase da candidatura foram segurança, transporte e acomodações. Apresentamos soluções para os três e fomos selecionados. Quanto à segurança, vamos agir em termos de planejamento, inteligência, prevenção e repressão. Em relação ao transporte, a cidade tem a Floresta da Tijuca na sua área central. Para atravessar de um lado ao outro, os caminhos são a orla, o Túnel Santa Bárbara, o Rebouças e a Linha Amarela. Estamos propondo uma rede de ônibus semelhante ao “Ligeirinho” de Curitiba. Sobre acomodações, o parque hoteleiro do Rio vem sendo modernizado. Uma parte da solução é a mesma do Réveillon: ancorar transatlânticos no porto, já que cada um pode comportar 3 mil pessoas. Outro caminho são os investimentos do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento na construção de moradias que servirão de acomodações para turistas.

JU: Qual foi a sua função no processo de escolha do Rio e qual será de agora em diante?
Gnecco: Trabalhando junto a outros órgãos do governo federal, levantávamos informações sobre os eleitores e a melhor maneira de abordá-los. Isso ajudou a nortear a política do Comitê Olímpico Brasileiro e do próprio Estado brasileiro. Ajudei também a firmar o projeto de legado dos Jogos Olímpicos acordado entre os três níveis de governo, federal, estadual e municipal, para que a Assembleia do COI percebesse que a candidatura era importante para a cidade e o país. A principal função agora é ajudar a solucionar o problema do Laboratório de Controle de Dopagem. Único do país credenciado pela Agência Mundial Antidoping, ele se localiza na Universidade Federal do Rio de Janeiro e terá que ser continuamente atualizado para fazer os exames antidoping dos Jogos.

 
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