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Denise Moura
República no Brasil: senhora obstinada
Pode-se apontar uma série de problemas sociais, porém, não é possível negar solidez da democracia
Em 15 de novembro, a República no Brasil completa 120
anos. Vale recordar a má vontade do seu nascimento e o
clima de incerteza da sua proclamação e implantação.
O marechal Deodoro, admirador de d. Pedro II, com muito custo
cedeu à insistência do carioca Quintino Bocaiúva e do paulista
Francisco Glicério para que declarasse defi nitivamente o regime republicano, derrubando a monarquia.
Cada qual a seu modo e ambos liberais, Quintino e Glicério
acreditavam na República representativa, com direito amplo de voto, e condenavam a corrupção. Mas o marechal
tinha estreitas relações de amizade e simpatia com d. Pedro II e mal imaginou que ao demitir Ouro Preto, o último chefe
de gabinete, estava golpeando derradeiramente a monarquia e instituindo um regime novo.
Se a República no Brasil veio a contragosto para uns,
como retratado pelos conflitos entre os irmãos machadianos Pedro e Paulo de Esaú e Jacó, e foi indiferente para outros
que assistiram bestificados ao regime novo surgir, na
percepção do jornalista Aristides Lobo, aos 120 anos ela
alcançou uma maturidade que pouca lembrança guarda do
seu difícil nascimento.
Se a alegoria feminina, da Antiguidade à Revolução Francesa
e mais ainda nas revoluções liberais do século XIX, foi uma boa representante do imaginário republicano, no Brasil
de hoje ela poderia ser fi gurada como uma senhora segura, obstinada e austera.
Apesar da corrupção, inerente à administração pública
em todos os continentes e momentos da história, a República conseguiu construir mecanismos e instituições vigilantes
e acionadas para combatê-la. Vários governos de Estados e municípios vêm sendo substituídos por denúncias de compra de voto e uso indevido da máquina pública com fins leitoreiros.
Assim aconteceu com o prefeito de Almenara, uma
pequena cidade do norte de Minas Gerais, quase na divisa com a Bahia, em julho deste ano.
Algumas substituições de governos eleitos podem indicar
retrocesso, mas nenhum processo de aprimoramento é linear, e a República no Brasil passou por uma série de desvios autoritários
no século XX que não impediram, contudo, que
alcançasse uma firme maturidade democrática, inabalável
pelos muitos episódios antidemocráticos que se manifestam em qualquer instituição e situação no mundo.
Há 90 ou 120 anos, a República no Brasil não parecia
que poderia avançar tanto. Até 1988, analfabetos não podiam votar, mas respondiam em juízo por crimes cometidos
e pagavam tributos como todo cidadão eleitor e elegível. As mulheres só se tornaram eleitoras em 1932. Embora existisse
código eleitoral desde os primeiros tempos da República,
inexistia justiça eleitoral e nos municípios a política estava
na mão do coronel que manipulava números para garantir a vitória da situação.
Embora representativa, a República nascia sem os mecanismos
institucionais adequados para fiscalizar a integridade desta representatividade, que ao longo dos seus primeiros
41 anos foi falseada por todas as formas de corrupção.
Hoje, a Justiça Eleitoral garante em grande medida eleições
limpas, fiscaliza o sistema, pune infratores e milhões de pessoas de qualquer parte do território têm direito de escolher
livremente aqueles que irão representá-las.
Se no campo dos direitos sociais os avanços em certa medida
perderam o rumo com a economia de mercado, confundindo-se com nível de riqueza e renda do cidadão, os direitos
políticos de fato amadureceram e seguem direção segura.
Terceiro mandato, no Brasil, é só especulação. O Executivo,
embora com direito de decretar medidas provisórias, não governa
sem um Congresso com posições divergentes. Comissões
parlamentares de investigação das instituições políticas são
periodicamente instituídas.
O Brasil há pelo menos quase 30 anos não experimenta
situações de concentração de poder ou de golpes políticos como recentemente vem ocorrendo em Honduras, ou como no
caso venezuelano.
Pode-se apontar e criticar uma série de problemas sociais,
econômicos, infraestruturais e de corrupção que a sociedade brasileira enfrenta, assim como boa parte das nações no mundo,
mas não é possível negar a solidez da democracia.
Nos primeiros anos da República, os populares, especialmente
os analfabetos, não tiveram o direito de voto e o sistema eleitoral corrompido, com voto aberto e falta de rigor na
apuração, fazia com que boa parte da população não fosse às urnas, principalmente nos centros urbanos. Votar era desnecessário,
porque o resultado já era previamente determinado.
Esta histórica situação de a sociedade organizar-se informalmente
pode ter sido uma aprendizagem para a democracia representativa. Por décadas não foi possível para boa parte da
população agir e escolher através do voto. A saída foram as organizações informais, comunitárias, de bairros. Basta lembrar
que um dos instrumentos de corrosão da ditadura militar no Brasil foram as comunidades eclesiais de base, formadas na
relação de moradores de bairros com suas paróquias.
Em 1990, quando surgiu a possibilidade de participar
eleitoralmente, após o término do primeiro governo saído da campanha em defesa das eleições diretas, a sociedade já estava
pronta para expressar suas opiniões. Bastava dar-lhe o formato institucional prometido em 1889.
Nos 120 anos da República há para comemorar a obstinação
de um regime de parto difícil, erguido com custo,
golpeado muitas vezes, mas que traduz a própria persistência
de uma sociedade.
Denise Moura é doutora em História Econômica pela
USP, com pós-doutorado na universidade nova de Lisboa. É professora no Departamento de História da Faculdade
de História, Direito e Serviço Social da Unesp, câmpus de
Franca, supervisora do Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa Histórica (Cedaph) e pesquisadora da Cátedra
Jaime Cortesão da USP. É autora de Sociedade movediça:
economia, cultura e relações sociais em São Paulo, Editora
unesp, 2006. |