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Novembro/2009– Ano XXII – nº 250   ::   Suplemento

 
:: CIÊNCIAS HUMANAS ::

Tania Regina de Luca
País avançou, mas continua desigual
Urbanização e melhores condições de vida da população convivem com concentração de renda e terra

Professora livre-docente da Faculdade de Ciências e Letras, câmpus de Assis, Tania Regina de Luca atua nas áreas de História do Brasil República, principalmente nos temas Historiografia, História Social da Cultura, História da Imprensa, História dos Intelectuais e construção dos discursos em torno da nação e do nacionalismo. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a imprensa na Era Vargas. Sua avaliação de 120 anos de República aponta rupturas e continuidades. (Entrevista a Oscar D’Ambrosio)

Jornal Unesp: Qual é a sua avaliação dos 120 anos da República, celebrados em novembro deste ano?
Tania Regina de Luca: Desde 1889, data da implantação do regime republicano no país, o campo semântico recoberto pela noção de república variou ao sabor de cada momento histórico. Assim, consagraram-se na historiografia brasileira termos como República da Espada, República Civil, República Oligárquica, República Velha e mais de uma República Nova. O olhar detido sobre cada uma dessas repúblicas permite discernir grupos sociais e instituições em luta para afirmar suas concepções de país, povo, nacionalidade, identidade, leituras sobre o passado e projetos para o futuro. Entretanto, quando se bandonam os marcos políticos e se opta por uma visão ancorada em dados populacionais e macroeconômicos, não há como negar que desde a queda da monarquia o país conheceu mudanças significativas.

JU: Quais mudanças foram essas?
Tania: O Brasil nunca foi tão povoado (a população foi multiplicada por treze em um século), tão urbanizado (cerca de 80% dos brasileiros vivem em cidades) e tão rico (a renda per capita foi multiplicada por treze). Em 1970 registrou-se a inversão que fez do Brasil um país urbano (56% contra 44%), condição que daí em diante só se acentuou, pois em 1980 as cidades abrigavam 68% dos brasileiros, montante que em 2000 atingiu a casa dos 80%. Isso indica intensa e radical transformação de cunho econômico, com a concentração no espaço urbano de importantes atividades industriais e de serviços, com ritmo autônomo e cada vez mais independente do mundo agrícola. A partir de 1889, o Brasil, portanto, conheceu mudanças que autorizam tomar a trajetória republicana como sinônimo, senão de ruptura, pelo menos de transformação.

JU: Essas modificações foram apenas positivas?
Tania: Também há motivos de preocupação, como apontam os dados do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), medida comparativa de pobreza para os diversos países do mundo, cujo cálculo varia de zero a um e tem por base alfabetização, esperança de vida e outros fatores sociais. Se é flagrante o contraste entre 1970, quando apenas alguns municípios dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal registravam índices superiores a 0,65, e os resultados de 1991, oportunidade em que tais marcas puderam ser encontradas em todo o território nacional, isso não significou diminuição dos contrastes regionais, perante flagrantes na Alta Amazônia, no Nordeste e no norte de Minas, francamente na retaguarda frente ao Sudeste, Mato Grosso do Sul, sul de Goiás e ao Distrito Federal. Basta ver que o Mapa do Analfabetismo no Brasil (2003) aponta que o percentual de iletrados é 3,4 vezes maior no Nordeste (24,3%), em comparação com o Sul (7,1%).

“O desafio para
a República é
alargar o pacto
social e incorporar,
de fato, os que
estão excluídos”

JU: A distribuição de renda continua a ser um problema?
Tania: Apesar do desempenho medíocre da economia entre 1980 e 2005, com o PIB crescendo em média 2% ao ano (compare-se com a China, 8%, ou a Índia, 6%), o Brasil ainda ostenta o décimo lugar em termos de produção de riqueza, posição que cai para 53.º lugar quando se trata do PIB per capita, o que indica a extrema concentração de renda. Seguimos oscilando entre as dez últimas posições do mundo neste quesito, já que cerca de 1% dos brasileiros mais ricos (1,7 milhão de pessoas) detêm renda equivalente à dos 50% mais pobres (86,5 milhões).

JU: Onde a continuidade da pobreza é mais evidente?
Tania: Ao se voltar para o campo, as marcas da persistência são flagrantes. A concentração da terra no país é indício do fracasso da reforma agrária levada a efeito por sucessivos governos. Os assentamentos concentram-se na Região Norte, enquanto os conflitos pela posse da terra ocorrem no Centro-Sul e no Nordeste, cuja estrutura fundiária não foi modificada. Entre 1986 e 2006, foram assassinados 11 mil trabalhadores rurais e pequenos proprietários e outros 3.200 receberam ameaças. No mesmo período, houve denúncias de escravidão em 368 municípios, envolvendo 140 mil trabalhadores, a maior parte no Nordeste.

JU: Qual é o maior desafio para o futuro da República brasileira?
Tania: O que se coloca como desafio para a República é alargar o pacto social e incorporar, de fato, os que estão excluídos.

 
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