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Tania Regina de Luca
País avançou, mas continua desigual
Urbanização e melhores condições de vida da população convivem com concentração de renda e terra
Professora livre-docente da Faculdade
de Ciências e Letras, câmpus de
Assis, Tania Regina de Luca atua nas áreas de História do Brasil República,
principalmente nos temas Historiografia,
História Social da Cultura, História da Imprensa, História dos Intelectuais e
construção dos discursos em torno da
nação e do nacionalismo. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a imprensa na Era
Vargas. Sua avaliação de 120 anos de República
aponta rupturas e continuidades. (Entrevista a Oscar D’Ambrosio)
Jornal Unesp: Qual é a sua avaliação
dos 120 anos da República, celebrados em
novembro deste ano?
Tania Regina de Luca: Desde
1889, data da implantação do regime
republicano no país, o campo semântico recoberto pela noção de república
variou ao sabor de cada momento histórico.
Assim, consagraram-se na historiografia
brasileira termos como República
da Espada, República Civil, República
Oligárquica, República Velha e mais de
uma República Nova. O olhar detido sobre
cada uma dessas repúblicas permite
discernir grupos sociais e instituições em luta para afirmar suas concepções
de país, povo, nacionalidade, identidade,
leituras sobre o passado e projetos para
o futuro. Entretanto, quando se bandonam os marcos políticos e se opta por
uma visão ancorada em dados populacionais
e macroeconômicos, não há como negar que desde a queda da monarquia o
país conheceu mudanças significativas.
JU: Quais mudanças foram essas?
Tania: O Brasil nunca foi tão povoado
(a população foi multiplicada por
treze em um século), tão urbanizado
(cerca de 80% dos brasileiros vivem em
cidades) e tão rico (a renda per capita
foi multiplicada por treze). Em 1970
registrou-se a inversão que fez do Brasil
um país urbano (56% contra 44%), condição
que daí em diante só se acentuou,
pois em 1980 as cidades abrigavam 68%
dos brasileiros, montante que em 2000
atingiu a casa dos 80%. Isso indica intensa e radical transformação de cunho
econômico, com a concentração no espaço urbano de importantes atividades
industriais e de serviços, com ritmo autônomo
e cada vez mais independente
do mundo agrícola. A partir de 1889,
o Brasil, portanto, conheceu mudanças que autorizam tomar a trajetória republicana
como sinônimo, senão de ruptura,
pelo menos de transformação.
JU: Essas modificações foram apenas positivas?
Tania: Também há motivos de preocupação,
como apontam os dados do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), medida comparativa de pobreza
para os diversos países do mundo, cujo
cálculo varia de zero a um e tem por base
alfabetização, esperança de vida e outros
fatores sociais. Se é flagrante o contraste
entre 1970, quando apenas alguns municípios
dos Estados de São Paulo, Rio
de Janeiro e Distrito Federal registravam índices superiores a 0,65, e os resultados
de 1991, oportunidade em que tais marcas
puderam ser encontradas em todo o
território nacional, isso não significou
diminuição dos contrastes regionais,
perante flagrantes na Alta Amazônia, no
Nordeste e no norte de Minas, francamente na retaguarda frente ao Sudeste,
Mato Grosso do Sul, sul de Goiás e ao
Distrito Federal. Basta ver que o Mapa
do Analfabetismo no Brasil (2003) aponta
que o percentual de iletrados é 3,4
vezes maior no Nordeste (24,3%), em
comparação com o Sul (7,1%).
“O desafio para
a República é
alargar o pacto
social e incorporar,
de fato, os que
estão excluídos” |
JU: A distribuição de renda continua a ser
um problema?
Tania: Apesar do desempenho medíocre da economia entre 1980 e 2005, com
o PIB crescendo em média 2% ao ano (compare-se com a China, 8%, ou a Índia,
6%), o Brasil ainda ostenta o décimo
lugar em termos de produção de riqueza, posição que cai para 53.º lugar quando se
trata do PIB per capita, o que indica a extrema
concentração de renda. Seguimos oscilando entre as dez últimas posições do
mundo neste quesito, já que cerca de 1%
dos brasileiros mais ricos (1,7 milhão de pessoas) detêm renda equivalente à dos
50% mais pobres (86,5 milhões).
JU: Onde a continuidade da pobreza é mais
evidente?
Tania: Ao se voltar para o campo, as
marcas da persistência são flagrantes. A
concentração da terra no país é indício do fracasso da reforma agrária levada a
efeito por sucessivos governos. Os assentamentos
concentram-se na Região Norte, enquanto os conflitos pela posse
da terra ocorrem no Centro-Sul e no
Nordeste, cuja estrutura fundiária não foi modificada. Entre 1986 e 2006,
foram assassinados 11 mil trabalhadores
rurais e pequenos proprietários e
outros 3.200 receberam ameaças. No
mesmo período, houve denúncias de
escravidão em 368 municípios, envolvendo
140 mil trabalhadores, a maior parte no Nordeste.
JU: Qual é o maior desafio para o futuro da
República brasileira?
Tania: O que se coloca como desafio
para a República é alargar o pacto
social e incorporar, de fato, os que estão excluídos. |