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Empreendedorismo
Para que ideias virem bons negócios
Presentes em quatro câmpus, as incubadoras
de empresas garantem formação, infraestrutura
e recursos para os pesquisadores transformarem
seu projeto num empreendimento de futuro
DANIEL PATIRE
Personagens recentes do cenário econômico
brasileiro, as incubadoras de empresas
são ambientes organizados para ajudar
na concretização de novas iniciativas. Elas
oferecem infraestrutura e serviços – como
telefones e internet –, além de consultoria
administrativa e técnica para micro e pequenas
empresas ingressarem no mercado
ou renovarem suas atividades.
Quatro incubadoras estão em atividade
na Unesp, nos câmpus de
Botucatu, Rio Claro, Guaratinguetá
e Jaboticabal, reunindo cerca de cem empreendimentos.
O tempo
de incubação varia de um a
três anos, período em que os empresários são treinados e
capacitados para gestão, estudo
de mercado e outras
ações necessárias à sobrevivência
de seus negócios.
“Antes, o papel das universidades se
limitava a formação de recursos humanos
e produção de pesquisas”, salienta José Arana Varela, diretor-executivo
da Agência Unesp de Inovação (Auin). “Hoje, elas são cobradas pela sociedade para transferir esse conhecimento em
prol do desenvolvimento local.” Parceira
das incubadoras, a Auin gerencia a proteção intelectual do conhecimento gerado
nos câmpus, em suas várias modalidades – como marcas, patentes, direito autoral e proteção de softwares,
entre outras.
Geralmente, as incubadoras
estão ligadas ao
conceito de inovação, que
envolve a criação ou aperfeiçoamento de produtos, serviços ou processos. Muita
coisa pode ser considerada
produto, de máquinas a
novas variedades de plantas.
Serviços são soluções elaboradas para resolver necessidades de
clientes, por exemplo, um software para
gestão de recursos humanos de uma empresa.
Processos são maneiras de realizar
certas atividades, como a organização de
uma linha de produção industrial.
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O Programa Incubadora de Empresas
do Sebrae-SP financia a instalação
das incubadoras no Estado. Por
meio de editais, a proposta investe
em projetos com forte caráter inovador.
Os financiamentos buscam
garantir que a incubadora contrate
os serviços que atendam às necessidades |
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das empresas instaladas. Também são oferecidos serviços
como consultorias sobre gestão
empresarial e financiamento para
participação em eventos, além de
cursos para a capacitação dos empreendedores.
D.P |
Do estudo ao negócio – Dissertações,
teses e linhas de pesquisas da
Universidade podem se tornar bons empreendimentos, segundo o gerente da
Prospecta Incubadora de Base Tecnológica
de Botucatu, Antonio Vicente Silva. “O importante é que elas possuam um
elevado caráter inovador”, ressalta.
A empresa Prime Embryo – Biotecnologia
de Reprodução Animal nasceu
do doutorado de Sara Yamaguishi Tomita na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias
(FCAV), câmpus de Jaboticabal.
Ela avaliou a viabilidade prática e o custo das gestações de bovinos de corte,
a partir de embriões produzidos in vitro. “O trabalho demonstrou que a produção
in vitro em larga escala para cruzamento
industrial poderia ser uma atividade
econômica viável, dado o baixo custo de
produção dos embriões”, diz.
A médica veterinária procurou a Prospecta
e, após a análise inicial, o projeto
passou para a etapa de pré-residência, em que Sara foi orientada por consultores na
elaboração de um plano de negócio, com
custos e análise de mercado detalhados. Nesse período, ela também frequentou
cursos de capacitação do Sebrae-SP. “Um exemplo foi o Empretec, em que aprendemos a importância de valorizar a
relação entre qualidade, eficiência e êxito
empresarial, além de ações voltadas ao planejamento”, relata. Com o plano
aprovado pela incubadora, a Prime-Embryo
começou a operar em 2009.
Criada em 2005, a Prospecta apoia, atualmente, 52 iniciativas, entre empresas
pré-residentes, residentes, associadas e graduadas. (Veja quadro.) Gerida pela Fundação
de Estudos e Pesquisas Agrícolas e
Florestais (Fepaf), da Faculdade de Ciências
Agronômicas (FCA), a entidade tem a
participação da prefeitura de Botucatu.
De acordo com Silva, a principal fonte
atual de recursos para as empresas do
Prospecta é o Pipe (Programa Fapesp Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas).
O dirigente ressalta ainda que, até o
final de 2009, doze iniciativas receberão financiamento do programa Prime (Primeira
Empresa Inovadora). (Leia entrevistas
sobre esses programas na pág. 8)
Graduação – O apoio do Pipe/Fapesp
também garantiu a consolidação da
Tece (Tecnologia e Ciência Educacional),
empresa graduada há um ano pela Incubadora
de Base Tecnológica da UNESP
(Incunesp), do câmpus de Rio Claro.
Nascida em 2005, a Tece desenvolve
equipamentos educativos para deficientes
visuais e pessoas com dupla deficiência – visual e motora. A responsável pelo
empreendimento é a bióloga Aline Piccoli
Otalara, que elaborou um protótipo
de caneta e régua-guia para escrita em
código braile.
O projeto teve a participação de pesquisadores
do Instituto de Geociências
e Ciências Exatas (IGCE) e do Instituto de Biociências, do câmpus local, além de
professores de braile e deficientes visuais. “Também fizemos parcerias, com a ajuda da Incunesp, com outras empresas já no
mercado há mais tempo, com o Instituto
de Cegos Padre Chico e com o Senai de Rio Claro e Itu”, relata Aline.
Inaugurada em outubro de 2003,
numa parceria da unidade de Rio Claro
com a prefeitura e o Sebrae-SP, a Incunesp beneficia 14 empresas, entre residentes,
associadas e graduadas. “Este
modelo de nascedouro de empresas também contribui para ampliar as potencialidades
econômicas de desenvolvimento
para a região”, reflete Peter Christian
Hackspacher – coordenador da Incunesp
e professor do IGCE.
Outras bases – Entre as 17 empresas
apoiadas pela Inove – Incubadora
para Inovação e Empreendedorismo, do
câmpus de Guaratinguetá, seis receberão
em breve os repasses da Finep. “A
conquista desses recursos é um grande estímulo para os empreendedores, além
de reforçar a credibilidade dessas empresas
no mercado”, afirma o gerente da incubadora,
Altair Emboava de Araújo.
A Inove entrou em operação em
2006. Coordenada pelo professor Janio
Itiro Akamatsu, da Faculdade de Engenharia (FE), contempla negócios tecnológicos
e tradicionais. Além da FE,
ela envolve o apoio do Sebrae-SP, prefeitura,
Faculdades Integradas Tereza
D´Ávila (Fatea) e Associação Comercial
e Empresarial de Guaratinguetá.
Uma das primeiras empresas a se graduarem
foi a Geniart Tecnologia Ltda.
Criada pelos irmãos Lucas e André Martins em 2006, a empresa projeta websoftwares,
isto é, programas e ferramentas
para a internet, como a Venda Mais. “Numa incubadora, todos têm o mesmo
objetivo e vão sofrer problemas parecidos”,
relata Lucas. “Assim, um empreendedor acaba passando experiência para o
outro, gerando uma grande sinergia.”
Agronegócio – Em 2005, o professor
aposentado da FCAV Tomomassa
Matuo, em parceria com pesquisadores
da unidade e da USP de Ribeirão Preto, desenvolveu o EcoSpray F65, uma armadilha
para cigarras – praga dos cafezais
brasileiros.
Com o protótipo, Matuo criou a
Ideia, dedicada ao comércio, pesquisa e
desenvolvimento de máquinas e implementos agrícolas, sediada na Incubadora
de Agronegócios de Jaboticabal – Inagro. “Eu sempre gostei de inventar máquinas, e não tinha ideia de que a invenção é apenas
10% do processo”, esclarece Matuo. “Na incubadora, frequentamos regularmente cursos que nos orientaram sobre
como nos tornar empresários.”
Criada em novembro de 2005, a Inagro
apoia projetos para o agronegócio e reúne
14 empresas – entre residentes e associadas.
Administrada pela Fundação de Apoio à Pesquisa, Ensino e Extensão (Funep),
vinculada à FCAV, conta com a parceria
da prefeitura de Jaboticabal e do Sebrae-SP. De acordo com Fernando Mendes Pereira, professor aposentado de Jaboticabal
e gerente da Inagro, a incubadora
está também colaborando para a implantação
de um Núcleo de Empreendedorismo
junto ao Departamento de Economia
Rural da FCAV. “O núcleo vai estimular os
alunos a produzir projetos mais adequados à necessidade do mercado”, explica.
Evelin Cristina Astolpho, coordenadora
do Programa Incubadora de
Empresas do Sebrae-SP, vê com otimismo o futuro dos negócios que estão
nascendo graças a iniciativas como as
promovidas na Unesp. Ela ressalta que,
no Brasil, 60% das pequenas empresas
vão à falência nos primeiros cinco
anos de vida, enquanto 97% das que
passaram pela incubação sobrevivem a
esse período.“O melhor resultado das
incubadoras é o aumento da probabilidade
de sobrevivência das empresas”,
comenta Evelin.
FINANCIAMENTO
Programas apoiam criação de empresas
Representantes de duas agências de fomento a iniciativas na área de inovação tecnológica falam
dos objetivos e recursos envolvidos em suas propostas. (Entrevistas concedidas a Daniel Patire)
João Eduardo de Morais Pinto Furtado
Fapesp estimula
cultura empreendedora
A Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo),
agência de fomento ligada à Secretaria de Ensino Superior, destina recursos
para a pesquisa científica e tecnológica
em micro e pequenas empresas paulistas. Para isso, utiliza o Pipe (Programa
Fapesp Pesquisa Inovativa em
Pequenas Empresas). De acordo com
João Eduardo de Morais Pinto Furtado, coordenador-adjunto de Pesquisa
para Inovação da fundação e professor
licenciado da Faculdade de Ciências e Letras, câmpus de Araraquara, o programa
promove a cultura de empreendedorismo
tecnológico.
Jornal Unesp: Como o Pipe se insere nas políticas públicas de desenvolvimento?
Furtado: O Pipe é um dos componentes
das políticas de governo
voltadas para a geração de empresas
de tecnologia. Ao longo de 12 anos,
o programa ajudou a criar produtos e
serviços inovadores. Também ajudou a
difundir na cultura universitária uma série de novos conceitos, inclusive
o de que conhecimento de qualidade
pode servir também para produzir
empreendimentos de qualidade. Talvez
este seja o seu principal resultado, pois
desenvolveu pessoas, capacidades empresariais
e culturas de empreendedorismo
tecnológico.
JU: Como funciona o programa?
Furtado: O programa é dividido
em duas fases. O Pipe I serve para
montar um conceito, e o Pipe II serve
para desenvolver esse conceito. O
Pipe I é como uma primeira tentativa
para ver se o projeto vai funcionar.
São recursos de até R$ 125 mil, com
prazo de execução de nove meses. Se
der certo, a fase seguinte é para desenvolver
efetivamente o processo, e tem duração de 24 meses, com valor
máximo de R$ 500 mil.
JU: Qual o papel das incubadoras no processo
de Inovação Tecnológica?
Furtado: As incubadoras servem para auxiliar no processo de amadurecimento
de empresas embrionárias,
fornecendo uma série de
mecanismos para que elas sobrevivam.
Entretanto, elas podem induzir
também a uma ilusão de facilidade.
Por xemplo, após o período de incubação,
essas empresas precisarão
de investidores para se desenvolver.
Para isso, por exemplo, precisam
ter mecanismos de gestão aceitáveis
pelo mercado.
Marcelo Nicolas Camargo
Finep aposta na
ação descentralizada
No início do ano, a Finep (Financiadora
de Estudos e Projetos), ligada
ao Ministério da Ciência e Tecnologia,
lançou o programa Primeira Empresa
Inovadora (Prime), que destinará
R$ 216 milhões, em 12 meses, para
empresas nascentes, por meio de uma
rede de incubadoras. Segundo o coordenador
da área de Subvenção e Cooperação da entidade, Marcelo Nicolas Camargo, o programa é focado na fase
inicial dos novos empreendimentos.
Jornal Unesp: Como o Prime auxilia as
novas empresas?
Camargo: As causas de morte das
empresas nascentes devem ser analisadas
sob dois aspectos. Geralmente, o empreendedor tecnológico é aquele
que tem uma ideia, mas despende uma
parcela grande do seu tempo em outras atividades, para a sua subsistência.
O segundo ponto é que ele desempenha
uma série de atividades, dentro da sua própria empresa, ligadas a administração,
recursos humanos, logística,
vendas, sem a capacitação adequada. Assim, concedemos R$ 120 mil de subvenção,
que chamamos de Kit Prime,
amarrada em quatro linhas específicas. A primeira destina uma verba para o
empreendedor deixar de fazer algumas
atividades, para se focar no seu empreendimento.
A segunda linha deve ser a contratação de um gestor, para implantar
as ferramentas administrativas. As
outras duas rubricas seriam referentes a consultorias em marketing, para estabelecer
estratégias de mercado, e de
gestão, para poder avaliar, por exemplo, quanto custa uma patente.
JU: Como é operado o programa?
Camargo: O programa é operado
de forma descentralizada por 18 incubadoras
pelo país. São elas que abrem
os editais para a contratação das empresas
nascentes com projetos inovadores,
no prazo de até 24 meses.
JU: Quais são as expectativas do programa
com este primeiro edital?
Camargo: A estimativa era conseguir
um número próximo a 1.800
empresas. Mas conseguir captar mais de 1.400 empreendimentos inovadores
foi um sucesso retumbante. E esperamos
que 60% a 70% dessas empresas saiam vitoriosas depois de dois
anos. Até 2012, estima-se investir R$
1,3 bilhão no Prime. E no próximo
edital, que deve ser em 2011, devemos ampliar as agências operadoras e
o número de projetos financiados. |