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Escultura
A cerâmica vital de Brennand
Força transformadora do artista pernambucano motivou pesquisa apresentada no Instituto de Artes
O prazer de criar comanda a poética
de Francisco Brennand. O que o
mobiliza é a força demiúrgica presente
em todo seu trabalho, tanto na pintura
como na escultura. Esta última é particularmente
enfocada na dissertação de mestrado de Camila da Costa Lima
apresentada no Instituto de Artes (IA),
câmpus de São Paulo.
Orientada pela professora do IA
Lalada Dalglish, a pesquisa discute os
elementos formadores da produção escultórica de Brennand, as influências
recebidas e o processo de criação e materialização
de sua obra. Enfatiza ainda
o barro como sua matéria de trabalho e
diferencial de produção.
Camila acredita que o tema principal
do escultor seja a vida e seu ciclo de nascimento
e reprodução. “O grande mistério talvez seja o ato de transformar tanto
as formas como a matéria. Um bloco de
barro, por exemplo, ganha formas diversas
e, pela queima, o barro modelado se
torna cerâmica”, afirma.
Os principais elementos associados a
essa temática são, como notou João Cabral
de Melo Neto, em poema que dedicou ao artista, o nascimento, o ovo, corpos
e seus fragmentos e a mulher como
geradora de vida. “Há ainda forte influência mitológica”, diz a mestre em Artes. (Veja o poema.)
Evolução das formas – A pesquisadora
mostra como cada pintura, desenho
ou rabisco é um importante elemento na obra do artista. Lembra que ele se
iniciou na pintura para depois partir para
trabalhos com barro e que o desenho é a base de sua criação. “Pode-se perceber
um processo de evolução em sua arte,
como se esta passasse por um aperfeiçoamento
das formas e obtenção de volumes até se tornar escultura”, comenta.
A ligação histórica da família de Brennand
com a indústria cerâmica é determinante
em sua escolha do material, assim como a busca de raízes populares,
que se tornou muito importante na década
de 1970, quando participou do Movimento Armorial, iniciativa liderada pelo
dramaturgo Ariano Suassuna que tinha
como objetivo criar em música, dança, literatura, artes plásticas, teatro, cinema
e arquitetura uma arte erudita a partir
da cultura popular do Nordeste.
Parar, jamais – A escultura do pernambucano,
nesse sentido, como aponta
Camila, é brasileira até no material, pois suas argilas vêm do Nordeste. Isso não
o leva, porém, a um regionalismo. “Seus
temas, ideias e formas superam nacionalidades”, diz a pesquisadora.
Para entender melhor o processo criativo
de Brennand, a mestre destaca a realização
de uma escultura em cerâmica: o desenho inicial (estudo), o modelo em
menor escala, a modelagem, as queimas,
o processo de esmaltação, a montagem dos módulos das esculturas e as técnicas
e processos elaborados e readaptados
constantemente pelo artista e pela equipe de funcionários de sua Oficina.
Quanto ao futuro de sua arte, como ele
mesmo declarou, em 2006, em trecho reproduzido
na dissertação de Camila, manifesta-se uma insatisfação permanente aliada
ao desejo de nunca parar de criar: “Mas
a satisfação eu acredito que não exista em
nenhum artista. Dá sempre a impressão
de uma obra inconclusa. Há sempre a pergunta
se você não facilitou. Eu procurei o
caminho mais fácil ou o mais difícil? O que
eu ainda tenho que fazer? O que eu tenho
de enfrentar? A minha mão já não está tão
firme e, no entanto, eu ainda quero fazer
coisas, estou cheio de ideias.”
Oscar D’Ambrosio
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a Francisco Brennand
fechar na mão fechada o ovo
a chama em chamas desateada
em que ele fogo desateia
e o ovo ou forno tem domadas
então
prender o barro brando no oco
de não sei quantas mil atmosferas
que o faça fundir no útero fundo
que devolva a terra à pedra que era
João Cabral de Melo Neto |
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Oficina no Recife expõe trabalhos |
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Francisco Brennand nasceu em 1927,
no Recife (PE). Ceramista, escultor, desenhista,
pintor, tapeceiro, ilustrador e
gravador, inicia sua formação em 1942,
aprendendo a modelar com o artista
plástico Abelardo da Hora. Posteriormente,
recebe orientação em pintura
de Álvaro Amorim e Murilo Lagreca.
Em 1949, viaja para a França, incentivado
pelo artista Cícero Dias. Frequenta
cursos com André Lhote e Fernand
Léger em Paris, em 1951. Descobre então
na cerâmica seu principal meio de
expressão e realiza diversos painéis e
murais cerâmicos no Brasil e nos EuA.
Em 1971, inicia a restauração da Cerâmica
São João da Várzea, no Recife,
fundada pelo seu pai em 1917. Esse
conjunto deu início a um colossal
projeto de esculturas que deveriam
povoar os espaços internos e externos
do ambiente. Hoje, a Oficina
Brennand reúne um museu permanente
do artista, além da fábrica em
que são produzidas as esculturas e
revestimentos cerâmicos.
OD |
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