UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Reitoria
 
     
 
Jornal UNESP :::

Novembro/2009– Ano XXII – nº 250   ::   Suplemento

 
:: ARTES PLÁSTICAS::

Escultura
A cerâmica vital de Brennand
Força transformadora do artista pernambucano motivou pesquisa apresentada no Instituto de Artes

O prazer de criar comanda a poética de Francisco Brennand. O que o mobiliza é a força demiúrgica presente em todo seu trabalho, tanto na pintura como na escultura. Esta última é particularmente enfocada na dissertação de mestrado de Camila da Costa Lima apresentada no Instituto de Artes (IA), câmpus de São Paulo.

Orientada pela professora do IA Lalada Dalglish, a pesquisa discute os elementos formadores da produção escultórica de Brennand, as influências recebidas e o processo de criação e materialização de sua obra. Enfatiza ainda o barro como sua matéria de trabalho e diferencial de produção.

Camila acredita que o tema principal do escultor seja a vida e seu ciclo de nascimento e reprodução. “O grande mistério talvez seja o ato de transformar tanto as formas como a matéria. Um bloco de barro, por exemplo, ganha formas diversas e, pela queima, o barro modelado se torna cerâmica”, afirma.

Os principais elementos associados a essa temática são, como notou João Cabral de Melo Neto, em poema que dedicou ao artista, o nascimento, o ovo, corpos e seus fragmentos e a mulher como geradora de vida. “Há ainda forte influência mitológica”, diz a mestre em Artes. (Veja o poema.)

Evolução das formas – A pesquisadora mostra como cada pintura, desenho ou rabisco é um importante elemento na obra do artista. Lembra que ele se iniciou na pintura para depois partir para trabalhos com barro e que o desenho é a base de sua criação. “Pode-se perceber um processo de evolução em sua arte, como se esta passasse por um aperfeiçoamento das formas e obtenção de volumes até se tornar escultura”, comenta.

A ligação histórica da família de Brennand com a indústria cerâmica é determinante em sua escolha do material, assim como a busca de raízes populares, que se tornou muito importante na década de 1970, quando participou do Movimento Armorial, iniciativa liderada pelo dramaturgo Ariano Suassuna que tinha como objetivo criar em música, dança, literatura, artes plásticas, teatro, cinema e arquitetura uma arte erudita a partir da cultura popular do Nordeste.

Parar, jamais – A escultura do pernambucano, nesse sentido, como aponta Camila, é brasileira até no material, pois suas argilas vêm do Nordeste. Isso não o leva, porém, a um regionalismo. “Seus temas, ideias e formas superam nacionalidades”, diz a pesquisadora.

Para entender melhor o processo criativo de Brennand, a mestre destaca a realização de uma escultura em cerâmica: o desenho inicial (estudo), o modelo em menor escala, a modelagem, as queimas, o processo de esmaltação, a montagem dos módulos das esculturas e as técnicas e processos elaborados e readaptados constantemente pelo artista e pela equipe de funcionários de sua Oficina.

Quanto ao futuro de sua arte, como ele mesmo declarou, em 2006, em trecho reproduzido na dissertação de Camila, manifesta-se uma insatisfação permanente aliada ao desejo de nunca parar de criar: “Mas a satisfação eu acredito que não exista em nenhum artista. Dá sempre a impressão de uma obra inconclusa. Há sempre a pergunta se você não facilitou. Eu procurei o caminho mais fácil ou o mais difícil? O que eu ainda tenho que fazer? O que eu tenho de enfrentar? A minha mão já não está tão firme e, no entanto, eu ainda quero fazer coisas, estou cheio de ideias.”

Oscar D’Ambrosio

   

a Francisco Brennand

fechar na mão fechada o ovo
a chama em chamas desateada
em que ele fogo desateia
e o ovo ou forno tem domadas
então
prender o barro brando no oco
de não sei quantas mil atmosferas
que o faça fundir no útero fundo
que devolva a terra à pedra que era

João Cabral de Melo Neto



  Oficina no Recife expõe trabalhos

Francisco Brennand nasceu em 1927, no Recife (PE). Ceramista, escultor, desenhista, pintor, tapeceiro, ilustrador e gravador, inicia sua formação em 1942,
aprendendo a modelar com o artista plástico Abelardo da Hora. Posteriormente, recebe orientação em pintura de Álvaro Amorim e Murilo Lagreca.
Em 1949, viaja para a França, incentivado pelo artista Cícero Dias. Frequenta cursos com André Lhote e Fernand Léger em Paris, em 1951. Descobre então
na cerâmica seu principal meio de
expressão e realiza diversos painéis e murais cerâmicos no Brasil e nos EuA.
Em 1971, inicia a restauração da Cerâmica São João da Várzea, no Recife, fundada pelo seu pai em 1917. Esse conjunto deu início a um colossal projeto de esculturas que deveriam povoar os espaços internos e externos do ambiente. Hoje, a Oficina Brennand reúne um museu permanente do artista, além da fábrica em
que são produzidas as esculturas e revestimentos cerâmicos.

OD

  ACI