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Artes Plásticas
O pintor que ajudou Dresden a renascer
Obras feitas no século XVIII por Bernardo Bellotto guiaram reconstrução da cidade após Segunda Guerra
OSCAR D´AMBROSIO
De 13 a 15 de fevereiro de 1945, a cidade de
Dresden, na Saxônia, Alemanha, foi alvo das
bombas lançadas por 1.400 aviões ingleses
e norte-americanos. O resultado foi a destruição da
maioria dos edifícios históricos. A reconstrução da área urbana em ruínas tomou como referência a obra
e o olhar do pintor italiano Bernardo Bellotto.
A relação entre o artista e a cidade é contada em
Dresden: a Florença do Elba (Altamira Editorial, 152
páginas, R$ 50), do historiador Manoel Bellotto e
da historiadora e crítica de arte Neide Marcondes,
professores aposentados da Unesp. No livro, eles
se debruçam sobre os elos entre a paisagem, o pintor
e a cidade.
Conhecida como a “Florença do Elba” ou “Fênix
alemã”, Dresden já havia sofrido, antes da Segunda
Guerra, três grandes destruições. Duas foram causadas
por incêndios (1491 e 1685) e uma pelos conflitos durante a Guerra dos Sete Anos (1756-1763),
que envolveu, de um lado, França e Áustria e seus
aliados (Saxônia, Rússia, Suécia e Espanha), e, de outro, Inglaterra, Portugal, Prússia e Hannover.
O bombardeio,
porém,
foi devastador.
O saldo foi de
mais de 35 mil
mortos e uma área de 15 km2
de patrimônio destruída.
Locais históricos
como o
Palácio Real o Teatro Sempereoper, a Galeria das Artes e a igreja Frauenkirche, cuja reconstrução terminou apenas em
2006, foram transformados em escombros.
Vedutismo – Há divergências sobre a data de nascimento de Bernardo (1720/21/22), mas a sua
morte é registrada em 17 de novembro de 1780, em
Varsóvia, cidade onde se encontrava desde 1766.
Bernardo Bellotto (que os autores ainda não conseguiram
verificar se tem relações de parentesco com
o historiador Manoel) era sobrinho, pelo lado materno,
de Giovanni Antonio Canal, que se tornou
célebre como Il Canaletto, um dos maiores nomes
da pintura paisagística italiana. Após o período de
aprendizagem com o tio, foi convidado, aos 26 anos,
para trabalhar em Dresden. O nome da cidade, do antigo idioma sorábio, falado por um povo eslavo
ocidental, signifi ca “aquele que mora no pântano”.
Essa localidade saxônica estava sob o reinado de
Augusto II, disposto a torná-la uma das mais importantes
da Europa. Dresden, antes da Guerra das
Rosas, situada ao longo do vale do rio Elba, cerca de
200 km ao sul de Berlim, era, na época, um modelo
arquitetônico ambicioso. Hoje, visitada pelos autores,
que incluíram fotos da cidade atual na obra, ocupa aproximadamente 330 km2, com uma população
de 500 mil habitantes.
Bernardo foi chamado pela sua fidelidade de representar
universos urbanos com a vedute, a técnica
preferida dos príncipes da dinastia Wettin, preocupados
em imortalizar suas realizações urbanísticas.
O vedutismo é um gênero pictórico que mescla o
natural das cores, das fi guras humanas e dos animais
em posições dinâmicas. Valoriza ainda a proporção
das dimensões, as particularidades arquitetônicas do
espaço e a luz. Trata-se, portanto, de uma escritura poética da dimensão urbana na sua atmosfera cotidiana
dentro de uma visão realista.
Os planos se misturam, se unem e se superpõem.
Segundo os autores, após estudar com o tio na Veneza
natal, Bernardo foi adquirindo características
próprias na aplicação de cores, luminosidade e geometria
das massas arquitetônicas.
O artista empregava a câmara óptica, instrumento
de amplo aproveitamento pelos paisagistas desde o
século XVI. O recurso consistia numa caixa móvel
com um orifício na parte externa. Desse modo, a
imagem externa é captada por esse pequeno buraco
e projetada na parede oposta da caixa. A aplicação
de lentes e espelhos melhorava a qualidade da imagem
a ser pintada.
Carreira – Trabalha em Dresden entre 1747 e
1758, produzindo 17 pinturas sobre a cidade, 11 sobre
Pirna, local próximo, e cinco sobre a Fortaleza
Königstein. Grande parte dessas obras foi copiada
pelo artista veneziano em gravuras: 16 das de Dresden,
seis das de Pirna e duas das da Fortaleza.
Com formato em média de 53 x 83 cm, o que corresponde
a um sétimo da superfície dos trabalhos
maiores, essas imagens contribuíram para a divulgação
da obra do artista, que tem como características
constantes a presença de fi guras humanas em movimento
e de cachorros.
Bernardo destacou palácios, monumentos, igrejas,
pessoas e o rio Elba, registrando informações fundamentais
sobre plano de urbanização, ruas, praças,
parques e vegetação. Isso ocorre antes da devastação
e, como contam Bellotto e Neide, aponta para a importância
da arte para manutenção de registros em
que o documental, o dia-a-dia e o lírico se mesclam de maneira aprazível e delicada. |