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Outubro/2009– Ano XXII – nº 249   ::   Suplemento

 
:: RESENHA::

Artes Plásticas
O pintor que ajudou Dresden a renascer
Obras feitas no século XVIII por Bernardo Bellotto guiaram reconstrução da cidade após Segunda Guerra

OSCAR D´AMBROSIO

De 13 a 15 de fevereiro de 1945, a cidade de Dresden, na Saxônia, Alemanha, foi alvo das bombas lançadas por 1.400 aviões ingleses e norte-americanos. O resultado foi a destruição da maioria dos edifícios históricos. A reconstrução da área urbana em ruínas tomou como referência a obra e o olhar do pintor italiano Bernardo Bellotto.

A relação entre o artista e a cidade é contada em Dresden: a Florença do Elba (Altamira Editorial, 152 páginas, R$ 50), do historiador Manoel Bellotto e da historiadora e crítica de arte Neide Marcondes, professores aposentados da Unesp. No livro, eles se debruçam sobre os elos entre a paisagem, o pintor e a cidade.

Conhecida como a “Florença do Elba” ou “Fênix alemã”, Dresden já havia sofrido, antes da Segunda Guerra, três grandes destruições. Duas foram causadas por incêndios (1491 e 1685) e uma pelos conflitos durante a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), que envolveu, de um lado, França e Áustria e seus aliados (Saxônia, Rússia, Suécia e Espanha), e, de outro, Inglaterra, Portugal, Prússia e Hannover.

O bombardeio, porém, foi devastador. O saldo foi de mais de 35 mil mortos e uma área de 15 km2 de patrimônio destruída. Locais históricos como o Palácio Real o Teatro Sempereoper, a Galeria das Artes e a igreja Frauenkirche, cuja reconstrução terminou apenas em 2006, foram transformados em escombros.

Vedutismo – Há divergências sobre a data de nascimento de Bernardo (1720/21/22), mas a sua morte é registrada em 17 de novembro de 1780, em Varsóvia, cidade onde se encontrava desde 1766. Bernardo Bellotto (que os autores ainda não conseguiram verificar se tem relações de parentesco com o historiador Manoel) era sobrinho, pelo lado materno, de Giovanni Antonio Canal, que se tornou célebre como Il Canaletto, um dos maiores nomes da pintura paisagística italiana. Após o período de aprendizagem com o tio, foi convidado, aos 26 anos, para trabalhar em Dresden. O nome da cidade, do antigo idioma sorábio, falado por um povo eslavo ocidental, signifi ca “aquele que mora no pântano”.

Essa localidade saxônica estava sob o reinado de Augusto II, disposto a torná-la uma das mais importantes da Europa. Dresden, antes da Guerra das Rosas, situada ao longo do vale do rio Elba, cerca de 200 km ao sul de Berlim, era, na época, um modelo arquitetônico ambicioso. Hoje, visitada pelos autores, que incluíram fotos da cidade atual na obra, ocupa aproximadamente 330 km2, com uma população de 500 mil habitantes.

Bernardo foi chamado pela sua fidelidade de representar universos urbanos com a vedute, a técnica preferida dos príncipes da dinastia Wettin, preocupados em imortalizar suas realizações urbanísticas. O vedutismo é um gênero pictórico que mescla o natural das cores, das fi guras humanas e dos animais em posições dinâmicas. Valoriza ainda a proporção das dimensões, as particularidades arquitetônicas do espaço e a luz. Trata-se, portanto, de uma escritura poética da dimensão urbana na sua atmosfera cotidiana dentro de uma visão realista.

Os planos se misturam, se unem e se superpõem. Segundo os autores, após estudar com o tio na Veneza natal, Bernardo foi adquirindo características próprias na aplicação de cores, luminosidade e geometria das massas arquitetônicas.

O artista empregava a câmara óptica, instrumento de amplo aproveitamento pelos paisagistas desde o século XVI. O recurso consistia numa caixa móvel com um orifício na parte externa. Desse modo, a imagem externa é captada por esse pequeno buraco e projetada na parede oposta da caixa. A aplicação de lentes e espelhos melhorava a qualidade da imagem a ser pintada.

Carreira – Trabalha em Dresden entre 1747 e 1758, produzindo 17 pinturas sobre a cidade, 11 sobre Pirna, local próximo, e cinco sobre a Fortaleza Königstein. Grande parte dessas obras foi copiada pelo artista veneziano em gravuras: 16 das de Dresden, seis das de Pirna e duas das da Fortaleza.

Com formato em média de 53 x 83 cm, o que corresponde a um sétimo da superfície dos trabalhos maiores, essas imagens contribuíram para a divulgação da obra do artista, que tem como características constantes a presença de fi guras humanas em movimento e de cachorros.

Bernardo destacou palácios, monumentos, igrejas, pessoas e o rio Elba, registrando informações fundamentais sobre plano de urbanização, ruas, praças, parques e vegetação. Isso ocorre antes da devastação e, como contam Bellotto e Neide, aponta para a importância da arte para manutenção de registros em que o documental, o dia-a-dia e o lírico se mesclam de maneira aprazível e delicada.

 
  ACI