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Outubro/2009– Ano XXII – nº 249   ::   Suplemento

 
:: OPINIÃO ::

Euclides da Cunha e Teodoro Sampaio
José Carlos Barreto de Santana

Gilberto Freyre, ao escrever sobre o centenário de nascimento do engenheiro baiano Teodoro Sampaio (1955), lamentou que aquela data não tivesse “inspirado a nenhum estudioso de coisas nacionais [...] um estudo que o situasse em nossa história intelectual, senão a base de seus bons trabalhos publicados, em virtude de sua condição de ‘eminência parda’ de Euclides da Cunha”.

Euclides da Cunha e Teodoro Sampaio conheceram-se em São Paulo, no início da década de 90 do século XIX,
numa das passagens do primeiro na cidade, enquanto Teodoro integrava a primeira equipe da Comissão Geográfica
e Geológica de São Paulo. Segundo Teodoro Sampaio, uma transação relacionada à necessidade de instalação de Euclides
teria se constituído no elemento que os aproximara.

Duas cartas de Teodoro Sampaio para Euclides da Cunha, do ano de 1893, encontram-se no álbum de correspondência
passiva do autor de Os sertões, existente na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Nelas, o tema central é o interesse de Euclides em obter informações sobre a Escola Politécnica de São Paulo, que seria inaugurada naquele ano e na qual ele pretendia ingressar na condição de professor. Teodoro Sampaio havia sido um dos membros da comissão organizadora da Escola.

Esta amizade se firmaria a partir de 1895, quando Euclides da Cunha faz a opção defi nitiva de deixar a carreira militar e fixa-se em São Paulo, onde passa a trabalhar como engenheiro civil na Superintendência de Obras Públicas do Estado.

Segundo Teodoro Sampaio, o exercício da profissão de engenheiro civil, numa vida errante pelo interior paulista, levava a longos desaparecimentos de Euclides da Cunha e era expresso no “ar de tédio, a trair-lhe uma repugnância invencível”. Mas esta atitude seria modifi cada com as notícias da Guerra de Canudos, que passou a ser assunto frequente nas suas conversas, antes e depois da passagem de Euclides da Cunha pelos sertões baianos.

Quando aconteceu o desastre da Expedição Moreira César, Euclides da Cunha participou de uma conversa na casa de Teodoro Sampaio sobre o assunto e teria levado desta algumas notas sobre as terras do sertão baiano, que Teodoro Sampaio percorrera como engenheiro da Comissão de Exploração do Rio São Francisco e como engenheiro do prolongamento da estrada de ferro da Bahia ao São Francisco.

Os trabalhos de Teodoro Sampaio provavelmente oferecidos a Euclides da Cunha incluíram o artigo “A respeito dos caracteres geológicos do território compreendido entre as cidades de Alagoinhas e a de Juazeiro pelo trajeto da linha férrea em construção”, publicado na Revista de Engenharia, em 1884, com comentários de Orville Derby; e as “Notas sobre a geologia compreendida entre o rio São Francisco e a Serra Geral (do Espinhaço) nas imediações da cidade do Juazeiro”, escritas por solicitação de Orville Derby em 1884, além do então inédito mapa intitulado“Trecho da Carta da Bahia”, que inclui informações sobre o sertão de Canudos.

As conversas entre eles e os trabalhos citados devem ter exercido uma importância considerável para que os primeiros artigos sobre a Guerra de Canudos escritospor Euclides da Cunha antes da sua viagem à Bahia e intitulados “A nossa Vendeia” já trouxessem uma surpreendente abordagem sobre a natureza dos sertões baianos, na qual o autor se demora na descrição do meio físico da região, vista defi nidora do homem que ali vivia e combatia, prefigurando a orientação determinista que seria adotada em Os sertões.

Depois de permanecer na Bahia entre os dias 7 de agosto e 16 de outubro de 1897, Euclides da Cunha retorna a São Paulo e, enquanto escreve o seu livro, continua encontrando em Teodoro Sampaio um interlocutor para as questões relacionadas à natureza dos sertões baianos, relevo, clima e geologia. Processava, assim, a revisão dos seus conhecimentos, tentando superar deficiências que ele mesmo anotara em campos como a geologia e a botânica.

No início de 1898, Euclides da Cunha viu-se envolvido com a reconstrução de uma ponte metálica que desabara na cidade de São José do Rio Pardo, fato que ganharia importância na elaboração do seu livro, vez que se fixou nessa cidade por aproximadamente três anos e encontrou ali um ambiente favorável para a continuidade dos seus estudos.

Durante a sua permanência em São José do Rio Pardo, Euclides da Cunha recebeu a visita de Teodoro Sampaio, escolhido perito do governo na questão do desabamento da ponte. Teodoro Sampaio esteve na cidade entre os dias 22 e 24 de maio de 1898, conforme registrado no seu diário inédito, mantido no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.

O nome de Teodoro Sampaio aparece apenas três vezes em Os sertões, uma delas encabeçando a lista de autores do “esboço geológico para o Estado da Bahia” existente no livro, o que parece muito pouco para quem teve a sua influência sobre Euclides da Cunha reconhecida por diversos autores. Algumas informações fornecidas por Teodoro Sampaio podem ser identificadas no livro, a exemplo do significado de termos tupis ou da passagem do saque em Januária-MG por jagunços sediados em Carinhanha-BA, acontecido quando a Comissão de Exploração do Rio São Francisco passava na região, e que está registrado no “Diário de viagem da Carinhanha à Bahia pelo engenheiro Teodoro Sampaio (1879-1880)” e no livro O Rio São Francisco e a Chapada Diamantina.

Muito se tem escrito sobre o ambiente favorável que Euclides da Cunha encontrou em São José do Rio Pardo, e que teria sido de muita importância para a elaboração de Os sertões. Naquela cidade o escritor encontrou amigos que muito o ajudaram e estimularam durante a produção do livro.

Parece-me importante lembrar que um ambiente favorável e amigos dispostos a colaborar também foram encontrados na capital paulista, e a amizade com Teodoro Sampaio garantiu a Euclides da Cunha substancial colaboração nos seus estudos e até mesmo na redação de Os sertões.

José Carlos Barreto de Santana é reitor e professor titular da Universidade Estadual de Feira de Santana. Doutor em História Social/História das Ciências pela USP, é autor de Ciência e arte: Euclides da Cunha e as Ciências Naturais e organizou para a Companhia das Letras os livros O Rio São Francisco e a Chapada Diamantina e Euclides da Cunha: Esboço biográfico, em parceria com Mario Cesar Carvalho.

Este artigo está disponível no “Debate acadêmico” do Portal Unesp, no endereço http://www.unesp.br/aci/debate/jose_santana.php

 
Este texto não reflete necessariamente a opinião do Jornal Unesp.

 


 
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