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Entrevista: Irineu Bicudo
A aventura de traduzir Euclides
Versão direta do grego de Os elementos exigiu 15 anos de trabalho de matemático de Rio Claro
Escrito por Euclides por volta do ano
300 a.C., o tratado matemático Os elementos é um dos livros mais importantes do
mundo ocidental. No entanto, quem desejava
ler a obra em português tinha que
se contentar com uma versão incompleta
do século XVIII, feita a partir da
edição latina de Commandino, baseada
em manuscritos que mesclavam o texto original com comentários e acréscimos
de Téon de Alexandria. Agora, a Editora
Unesp lança a primeira tradução completa para o português, feita diretamente do
grego durante 15 anos por Irineu Bicudo.
Nesta conversa, o doutor e livre-docente em Matemática, professor titular
aposentado do Instituto de Geociências
e Ciências Exatas, câmpus de Rio Claro,
conta como venceu o desafio e destaca
a importância desse trabalho clássico.
(Entrevista a Oscar D’Ambrosio)
Jornal Unesp: Como surgiu seu interesse
pela língua grega?
Irineu Bicudo: Em 1988, fi quei sabendo
que a USP estava ministrando
um curso de extensão universitária de
grego clássico. Isso me atraiu, porque,
desde a época em que cursei o ginásio,
eu me interessava por línguas. Fiz o primeiro semestre e não parei mais.
JU: Por que traduzir Os elementos, de
Euclides?
Bicudo: Trata-se do livro mais notável
e influente de toda a história da Matemática.
Ele exerceu uma infl uência marcante também fora dela. A ética (1677), do
filósofo Spinoza, por exemplo, contém
o pensamento de Euclides no sentido
de pensar a ética de um modo geométrico,
por discutir a existência de Deus
por meio de posições. É perfeitamente
possível ministrar ainda hoje na universidade
um curso de teoria dos números
usando Os elementos de Euclides.
JU: Qual foi a maior dificuldade?
Bicudo: A sintaxe do grego é diferente.
Como esse idioma tem um poder
de expressão maior que as línguas
modernas, é difícil traduzir algumas expressões.
Posso exemplificar pelo uso
que Euclides faz, na construção dos
teoremas, de um tempo verbal que nós
não temos em português, o imperativo
perfeito passivo.
JU: Quanto demorou o processo de tradução?
Bicudo: Foram 15 anos de trabalho.
Fui traduzindo os 13 livros em sequência
e, ao rever o que traduzia, jogava
tudo fora e começava de novo. Fiz isso
um punhado de vezes.
JU: Qual a importância da obra hoje?
Bicudo: Ela engloba tudo o que se
conhecia de geometria da régua e do
compasso feita até então. O que se
pensa hoje ser a matemática está embutido
em Os elementos. É o primeiro
texto em que o raciocínio aparece
dedutivamente. O docente do ensino
fundamental e médio terá grande interesse
na obra, assim como o aluno
de graduação em Matemática do ensino superior. Também gostaria que
os alunos de Grego dos cursos de
Letras a lessem, pois eles não costumam
conhecer a parte científica da
cultura grega, como a matemática e
a medicina. |