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Outubro/2009– Ano XXII – nº 249   ::   Suplemento

 
:: LIVROS::

Entrevista: Irineu Bicudo
A aventura de traduzir Euclides
Versão direta do grego de Os elementos exigiu 15 anos de trabalho de matemático de Rio Claro

Escrito por Euclides por volta do ano 300 a.C., o tratado matemático Os elementos é um dos livros mais importantes do mundo ocidental. No entanto, quem desejava ler a obra em português tinha que se contentar com uma versão incompleta do século XVIII, feita a partir da edição latina de Commandino, baseada em manuscritos que mesclavam o texto original com comentários e acréscimos de Téon de Alexandria. Agora, a Editora Unesp lança a primeira tradução completa para o português, feita diretamente do grego durante 15 anos por Irineu Bicudo. Nesta conversa, o doutor e livre-docente em Matemática, professor titular aposentado do Instituto de Geociências e Ciências Exatas, câmpus de Rio Claro, conta como venceu o desafio e destaca a importância desse trabalho clássico. (Entrevista a Oscar D’Ambrosio)

Jornal Unesp: Como surgiu seu interesse pela língua grega?
Irineu Bicudo: Em 1988, fi quei sabendo que a USP estava ministrando um curso de extensão universitária de grego clássico. Isso me atraiu, porque, desde a época em que cursei o ginásio, eu me interessava por línguas. Fiz o primeiro semestre e não parei mais.

JU: Por que traduzir Os elementos, de Euclides?
Bicudo: Trata-se do livro mais notável e influente de toda a história da Matemática. Ele exerceu uma infl uência marcante também fora dela. A ética (1677), do filósofo Spinoza, por exemplo, contém o pensamento de Euclides no sentido de pensar a ética de um modo geométrico, por discutir a existência de Deus por meio de posições. É perfeitamente possível ministrar ainda hoje na universidade um curso de teoria dos números usando Os elementos de Euclides.

JU: Qual foi a maior dificuldade?
Bicudo: A sintaxe do grego é diferente. Como esse idioma tem um poder de expressão maior que as línguas modernas, é difícil traduzir algumas expressões. Posso exemplificar pelo uso que Euclides faz, na construção dos teoremas, de um tempo verbal que nós não temos em português, o imperativo perfeito passivo.

JU: Quanto demorou o processo de tradução?
Bicudo: Foram 15 anos de trabalho. Fui traduzindo os 13 livros em sequência e, ao rever o que traduzia, jogava tudo fora e começava de novo. Fiz isso um punhado de vezes.

JU: Qual a importância da obra hoje?
Bicudo: Ela engloba tudo o que se conhecia de geometria da régua e do compasso feita até então. O que se pensa hoje ser a matemática está embutido em Os elementos. É o primeiro texto em que o raciocínio aparece dedutivamente. O docente do ensino fundamental e médio terá grande interesse na obra, assim como o aluno de graduação em Matemática do ensino superior. Também gostaria que os alunos de Grego dos cursos de Letras a lessem, pois eles não costumam conhecer a parte científica da cultura grega, como a matemática e a medicina.

 
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