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Outubro/2009– Ano XXII – nº 249   ::   Suplemento

 
:: CIÊNCIAS HUMANAS::

Globalização
Visões sobre o mundo pós-crise
Seminário de relações internacionais discute entraves da globalização e força de Estados nacionais

A crise internacional tem obrigado grandes potências a utilizar recursos públicos para salvar indústrias, bancos e seguradoras. As medidas são vistas por muitos como o retorno da importância do Estado na economia e de desaceleração da globalização financeira, em que o grande fluxo de dinheiro enfraqueceu as fronteiras nacionais. O tema foi debatido durante a 7ª Semana de Relações Internacionais Estadocentrismo e Desglobalização, realizada, entre os dias 24 e 27 de agosto, no câmpus da Faculdade de Ciências e Filosofia, em Marília (FFC).

“As crises na década de 90 que atingiram a Ásia e países como México, Argentina e Brasil, e a recente crise financeira internacional revelam o esgotamento do chamado Consenso de Washington, que pregava o liberalismo econômico”, afirma Sebastião Carlos Velasco e Cruz, professor da Unicamp. A frustração frente às reformas liberais, que nos anos 1990 levaram à privatização de empresas públicas, provocou a eleição de vários governos de esquerda na América Latina, que implementaram reformas estatizantes. “O modelo neoliberal vendido como a solução revela agora suas fragilidades”, acrescenta Aldo Rebelo, deputado federal, presente no evento.

Na China, o governo lançou um pacote de US$ 585 bilhões para a área social e infraestrutura. “Foram gastos na construção civil, oferta de linha de crédito à população e à indústria, visando estimular a geração de empregos”, aponta o professor Zhang Qikun, da Universidade Central de Economia e Finanças de Pequim. “Os governos têm sido hoje a mola propulsora da retomada do crescimento econômico”, constata o docente Frâncico Corsi, da FFC.

Tendências – Para Tullo Vigevani, também de Marília, não está clara a tendência de um movimento protecionista. “Mesmo a estatização implementada por alguns governos de esquerda da América Latina ocorre mais para melhorar a distribuição de renda do que uma mudança radical na economia”, observa.

A integração da economia mundial e o perfi l transnacional das empresas representam uma barreira a uma “desglobalização” da economia. O professor Marcos Cordeiro Pires (FFC) cita o caso da Boeing, que utiliza peças procedentes de 34 países na produção de seus aviões. “Se algum país defender o protecionismo estará atirando contra os próprios pés”, assinala.

Já o docente Marcelo Oliveira (FFC) acredita que o mundo viverá uma maior regulamentação e retração do sistema financeiro. “Porém, em áreas como a ecologia, a cultura e o próprio comércio, a globalização tende a se fortalecer”, afirma. “Temas relacionados ao meio ambiente vão exigir cada vez mais soluções globais”, prevê José Blanes Sala, professor de Direito Internacional da FFC e coordenador geral do evento.

Nesse panorama, Sala vê novas oportunidades para os profi ssionais da área, principalmente na promoção dos direitos humanos, da paz e do meio ambiente. A opinião é compartilhada pela professora da Universidade Federal de São Carlos Norma Valencio. Ela desenvolve projetos tecnológicos para adaptação às mudanças climáticas em países africanos e vê o Brasil como protagonista nessas áreas. “Por meio de cooperações técnico-científi cas, podemos servir de exemplo rumo a uma nova era de ética e solidariedade”, acentua.

Julio Zanella

Negociação sobre clima será difícil, afirma diplomata

Negociação “urgente, complexa e abrangente”. É assim que o atual chefe da Divisão de Política Ambiental e Desenvolvimento Sustentável do Ministério das Relações Exteriores, André Carvalho, palestrante no evento de Marília, prevê os debates, em dezembro, na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, em Copenhague, na Dinamarca. Líder da delegação brasileira, ele terá a missão de convencer os países ricos a investirem mais na redução das emissões de gases responsáveis pelo aquecimento global.

Jornal Unesp – A desaceleração da economia mundial vai gerar menos pressão para os principais emissores de gases? André Carvalho – É uma redução momentânea para uma solução de longo prazo. A crise também atinge as economias locais e, com isso, reduz a possibilidade de financiamento para ações de mitigação em países em desenvolvimento.

JU – Já há fundos de financiamento de tecnologia para ajudar os países a evitar o aquecimento global?
Carvalho – Há fundos para ações de adaptação que estão muito abaixo dos necessários. Um dos desafios importantes é aumentar o fluxo de financiamento a tecnologias para mitigação dos impactos do aquecimento global que já se fazem sentir.

JU – Que estratégias o Brasil vai utilizar em Copenhague?
Carvalho – O Brasil vai propor idéias e metas ambiciosas. Em outros encontros, conseguimos quantificar a responsabilidade dos países desenvolvidos no aquecimento global, contribuímos para a criação de Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL) e do Fundo Amazônia.

J.Z.

 
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