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Globalização
Visões sobre o mundo pós-crise Seminário de relações internacionais discute entraves da globalização e força de Estados nacionais
A crise internacional tem obrigado
grandes potências a utilizar recursos
públicos para salvar indústrias, bancos e seguradoras. As medidas são vistas
por muitos como o retorno da importância
do Estado na economia e de desaceleração
da globalização financeira,
em que o grande fluxo de dinheiro
enfraqueceu as fronteiras nacionais. O tema foi debatido durante a 7ª Semana
de Relações Internacionais Estadocentrismo
e Desglobalização, realizada,
entre os dias 24 e 27 de agosto,
no câmpus da Faculdade de Ciências e
Filosofia, em Marília (FFC).
“As crises na década de 90 que atingiram
a Ásia e países como México,
Argentina e Brasil, e a recente crise
financeira internacional revelam o esgotamento
do chamado Consenso de
Washington, que pregava o liberalismo
econômico”, afirma Sebastião Carlos
Velasco e Cruz, professor da Unicamp.
A frustração frente às reformas liberais,
que nos anos 1990 levaram à privatização
de empresas públicas, provocou a
eleição de vários governos de esquerda na América Latina, que implementaram
reformas estatizantes. “O modelo
neoliberal vendido como a solução revela
agora suas fragilidades”, acrescenta
Aldo Rebelo, deputado federal, presente
no evento.
Na China, o governo lançou um pacote
de US$ 585 bilhões para a área
social e infraestrutura. “Foram gastos
na construção civil, oferta de linha
de crédito à população e à indústria,
visando estimular a geração de empregos”,
aponta o professor Zhang
Qikun, da Universidade Central de
Economia e Finanças de Pequim. “Os
governos têm sido hoje a mola propulsora da retomada do crescimento econômico”,
constata o docente Frâncico
Corsi, da FFC.
Tendências – Para Tullo Vigevani,
também de Marília, não está clara a tendência
de um movimento protecionista. “Mesmo a estatização implementada
por alguns governos de esquerda da
América Latina ocorre mais para melhorar
a distribuição de renda do que
uma mudança radical na economia”,
observa.
A integração da economia mundial
e o perfi l transnacional das empresas
representam uma barreira a uma “desglobalização” da economia. O professor
Marcos Cordeiro Pires (FFC) cita o
caso da Boeing, que utiliza peças procedentes
de 34 países na produção de
seus aviões. “Se algum país defender o
protecionismo estará atirando contra
os próprios pés”, assinala.
Já o docente Marcelo Oliveira
(FFC) acredita que o mundo viverá
uma maior regulamentação e retração
do sistema financeiro. “Porém, em áreas como a ecologia, a cultura e o
próprio comércio, a globalização tende
a se fortalecer”, afirma. “Temas relacionados
ao meio ambiente vão exigir
cada vez mais soluções globais”,
prevê José Blanes Sala, professor de Direito Internacional da FFC e coordenador
geral do evento.
Nesse panorama, Sala vê novas oportunidades
para os profi ssionais da área,
principalmente na promoção dos direitos humanos, da paz e do meio ambiente.
A opinião é compartilhada pela professora
da Universidade Federal de São
Carlos Norma Valencio. Ela desenvolve
projetos tecnológicos para adaptação
às mudanças climáticas em países africanos e vê o Brasil como protagonista
nessas áreas. “Por meio de cooperações
técnico-científi cas, podemos servir de
exemplo rumo a uma nova era de ética
e solidariedade”, acentua.
Julio Zanella
Negociação sobre clima será difícil, afirma diplomata
Negociação “urgente, complexa
e abrangente”. É assim que o atual
chefe da Divisão de Política Ambiental
e Desenvolvimento Sustentável
do Ministério das Relações Exteriores,
André Carvalho, palestrante no
evento de Marília, prevê os debates,
em dezembro, na Conferência da
ONU sobre Mudanças Climáticas,
em Copenhague, na Dinamarca. Líder da delegação brasileira, ele terá
a missão de convencer os países ricos
a investirem mais na redução
das emissões de gases responsáveis
pelo aquecimento global.
Jornal Unesp – A desaceleração
da economia mundial vai gerar menos
pressão para os principais emissores
de gases? André Carvalho – É uma redução
momentânea para uma solução de
longo prazo. A crise também atinge
as economias locais e, com isso, reduz
a possibilidade de financiamento
para ações de mitigação em países
em desenvolvimento.
JU – Já há fundos de financiamento
de tecnologia para ajudar os países a
evitar o aquecimento global?
Carvalho – Há fundos para ações
de adaptação que estão muito abaixo
dos necessários. Um dos desafios
importantes é aumentar o fluxo de financiamento a tecnologias para mitigação
dos impactos do aquecimento
global que já se fazem sentir.
JU – Que estratégias o Brasil vai
utilizar em Copenhague?
Carvalho – O Brasil vai propor
idéias e metas ambiciosas. Em outros
encontros, conseguimos quantificar
a responsabilidade dos países desenvolvidos
no aquecimento global,
contribuímos para a criação de Mecanismos
de Desenvolvimento Limpo (MDL) e do Fundo Amazônia.
J.Z. |