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Outubro/2009– Ano XXII – nº 249   ::   Suplemento

 
:: CIÊNCIAS HUMANAS::

Entrevista: José Leonardo do Nascimento
Os sertões influenciou arte e política
Para historiador, obra foi referência para cineasta Glauber Rocha e líderes como Getúlio e Kubitschek

Especialista em Teoria e Filosofi a da História, História da Cultura e das Artes, José Leonardo do Nascimento foi recentemente homenageado pela Casa de Cultura Euclides da Cunha, em São José do Rio Pardo, por sua contribuição para a difusão do pensamento do escritor. Entre outras iniciativas, Nascimento é organizador do livro Os sertões de Euclides da Cunha: releituras e diálogos (Editora Unesp, 2002). Graduado em Filosofia pela USP, mestre em História pela Universidade de Paris III (Sorbonne-Nouvelle), doutor em História pela Universidade de Paris X (Nanterre) e pós-doutor pela Universidade Clássica de Lisboa, ele é livre-docente em História da Arte pelo Instituto de Artes da Unesp, câmpus de São Paulo, onde leciona Estética, História da Arte e Cultura Brasileira. (Entrevista a Oscar D’Ambrosio)

Jornal Unesp: Qual o principal legado que Euclides da Cunha deixa cem anos após a sua morte?
José Leonardo do Nascimento: Os legados de Euclides da Cunha são o tema e o estilo. Os sertões, publicado em 1902, marcou a cultura brasileira e a história do Brasil no século XX. Em 1940, Getúlio Vargas vai à região de Canudos com Os sertões debaixo do braço e conversa com os sobreviventes da guerra. Conta-se até uma história, que não acredito que seja verdadeira, que um dos comandantes do Antônio Conselheiro, “Pedrão”, que era então vivo, se negou a receber o presidente. Além disso, embora seja evidente que a obra não é a única razão de mudança da capital do Rio de Janeiro para Brasília, Juscelino Kubitschek, em 1960, no penúltimo discurso que fez antes da inauguração da cidade, menciona que, enquanto Euclides da Cunha havia escrito que os sertanejos eram criadores de ruínas, Brasília comprovava que os sertanejos eram construtores de cidades modernistas.

JU: Essa influência de Os sertões se dá principalmente na política?
José Leonardo: Ocorre também no cinema. Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, tem a estrutura triádica, como Os sertões, que se divide em “A terra”, “O homem” e “A luta”. O romance é uma sinfonia, porque os três movimentos não se opõem. O segundo acrescenta algo ao primeiro, e o mesmo ocorre com o terceiro em relação aos anteriores. O filme de Glauber é muito euclidiano: começa com a terra, num plano panorâmico sobre a terra seca. Depois vem o homem e, finalmente, a luta. O termo “sertão” já havia surgido duas vezes na carta de Pero Vaz de Caminha, mas, com Euclides, ganha um significado novo na cultura brasileira. O escritor torna-se, então, onipresente entre todos aqueles que escreveram sobre o sertão, porque é um dos construtores desse universo cultural na história do Brasil.

JU: Qual das três partes do livro você julga mais importante?
José Leonardo: Gosto mais da primeira, “A terra”. Há diversas razões. A primeira é que as teorias raciais e racistas não estão presentes. Isso surge mais tarde no livro. Além disso, a obra me dá a impressão de ter uma disposição arquitetônica, em andares. Cada parte é um deles. O terceiro ele não chama de guerra, mas de luta. Isso ocorre talvez porque o atraso da sociedade brasileira é tal que, para Euclides, o confl ito não chega ao estágio da guerra. A sociedade brasileira precisaria passar por um processo evolutivo para que houvesse, de fato, uma guerra, com planejamento e divisões militares. Na estrutura arquitetônica proposta, no primeiro andar estão os materiais de maior resistência. Somente assim a casa fica em pé. É ali que ele descreve um cosmo conflituoso, onde a guerra já está ali, nas espécies naturais brigando pela sobrevivência. As descrições são belíssimas.

JU: A biografia de Euclides da Cunha, que termina com seu assassinato, atrapalha um pouco a imagem que as pessoas têm dele?
José Leonardo: O desfecho trágico impediu que Euclides terminasse o grande livro sobre a Amazônia que ele pensou, imaginou, arquitetou – e não escreveu. Ficou na promessa e em pequenos ensaios, que foram publicados revisados por ele, mas em 1909, após a sua morte. O abrupto final de sua vida, desse modo, acabou interferindo e prejudicando talvez a produção de seu livro de maturidade, porque Os sertões, como ele mesmo dizia, é um livro de juventude.

JU: O Euclides que escreveu sobre a Amazônia é diferente do que acompanhou o episódio de Canudos?
José Leonardo: Euclides mudou. O conteúdo racista e mesmo racial presente em Os sertões se atenua nos últimos trabalhos. Basta lembrar que ele escreveu em sua frase mais célebre: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral”. Há aí uma condenação do mestiçamento que se atenua nos ensaios amazônicos, onde começa a entender o mestiço como indivíduo adaptadoà terra. A impressão é que Euclides estava caminhando para uma valorização da formação étnica da sociedade brasileira, antecipando, de certo modo, Gilberto Freyre.

 
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