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Entrevista: José Leonardo do Nascimento
Os sertões influenciou arte e política
Para historiador,
obra foi referência
para cineasta Glauber
Rocha e líderes como
Getúlio e Kubitschek
Especialista em Teoria e Filosofi a da
História, História da Cultura e das Artes,
José Leonardo do Nascimento foi
recentemente homenageado pela Casa
de Cultura Euclides da Cunha, em São
José do Rio Pardo, por sua contribuição para a difusão do pensamento do escritor.
Entre outras iniciativas, Nascimento é organizador do livro Os sertões de Euclides
da Cunha: releituras e diálogos (Editora
Unesp, 2002). Graduado em Filosofia
pela USP, mestre em História pela Universidade de Paris III (Sorbonne-Nouvelle),
doutor em História pela Universidade
de Paris X (Nanterre) e pós-doutor
pela Universidade Clássica de Lisboa, ele é livre-docente em História da Arte pelo
Instituto de Artes da Unesp, câmpus de
São Paulo, onde leciona Estética, História
da Arte e Cultura Brasileira. (Entrevista
a Oscar D’Ambrosio)
Jornal Unesp: Qual o principal legado
que Euclides da Cunha deixa cem anos após
a sua morte?
José Leonardo do Nascimento: Os
legados de Euclides da Cunha são o tema
e o estilo. Os sertões, publicado em 1902, marcou a cultura brasileira e a história do Brasil no século XX. Em 1940, Getúlio Vargas vai à região de Canudos com
Os sertões debaixo do braço e conversa
com os sobreviventes da guerra. Conta-se
até uma história, que não acredito que
seja verdadeira, que um dos comandantes
do Antônio Conselheiro, “Pedrão”,
que era então vivo, se negou a receber o presidente. Além disso, embora seja
evidente que a obra não é a única razão
de mudança da capital do Rio de Janeiro para Brasília, Juscelino Kubitschek, em
1960, no penúltimo discurso que fez antes
da inauguração da cidade, menciona
que, enquanto Euclides da Cunha havia
escrito que os sertanejos eram criadores
de ruínas, Brasília comprovava que os sertanejos eram construtores de cidades
modernistas.
JU: Essa influência de Os sertões se dá
principalmente na política?
José Leonardo: Ocorre também no
cinema. Deus e o diabo na terra do sol, de
Glauber Rocha, tem a estrutura triádica, como Os sertões, que se divide em “A terra”, “O homem” e “A luta”. O
romance é uma sinfonia, porque os três movimentos não se opõem. O segundo
acrescenta algo ao primeiro, e o mesmo
ocorre com o terceiro em relação aos anteriores.
O filme de Glauber é muito euclidiano:
começa com a terra, num plano
panorâmico sobre a terra seca. Depois
vem o homem e, finalmente, a luta. O
termo “sertão” já havia surgido duas vezes
na carta de Pero Vaz de Caminha,
mas, com Euclides, ganha um significado
novo na cultura brasileira. O escritor
torna-se, então, onipresente entre todos
aqueles que escreveram sobre o sertão,
porque é um dos construtores desse universo
cultural na história do Brasil.
JU: Qual das três partes do livro você julga
mais importante?
José Leonardo: Gosto mais da primeira, “A terra”. Há diversas razões. A
primeira é que as teorias raciais e racistas
não estão presentes. Isso surge mais tarde
no livro. Além disso, a obra me dá a impressão
de ter uma disposição arquitetônica, em andares. Cada parte é um deles.
O terceiro ele não chama de guerra, mas
de luta. Isso ocorre talvez porque o atraso
da sociedade brasileira é tal que, para
Euclides, o confl ito não chega ao estágio
da guerra. A sociedade brasileira precisaria passar por um processo evolutivo para
que houvesse, de fato, uma guerra, com
planejamento e divisões militares. Na estrutura arquitetônica proposta, no primeiro
andar estão os materiais de maior
resistência. Somente assim a casa fica
em pé. É ali que ele descreve um cosmo
conflituoso, onde a guerra já está ali, nas
espécies naturais brigando pela sobrevivência. As descrições são belíssimas.
JU: A biografia de Euclides da Cunha,
que termina com seu assassinato, atrapalha
um pouco a imagem que as pessoas têm dele?
José Leonardo: O desfecho trágico
impediu que Euclides terminasse o
grande livro sobre a Amazônia que ele
pensou, imaginou, arquitetou – e não
escreveu. Ficou na promessa e em pequenos
ensaios, que foram publicados
revisados por ele, mas em 1909, após
a sua morte. O abrupto final de sua
vida, desse modo, acabou interferindo
e prejudicando talvez a produção de
seu livro de maturidade, porque Os sertões,
como ele mesmo dizia, é um livro
de juventude.
JU: O Euclides que escreveu sobre a
Amazônia é diferente do que acompanhou o
episódio de Canudos?
José Leonardo: Euclides mudou.
O conteúdo racista e mesmo racial
presente em Os sertões se atenua nos últimos trabalhos. Basta lembrar que
ele escreveu em sua frase mais célebre: “O sertanejo é, antes de tudo, um
forte. Não tem o raquitismo exaustivo
dos mestiços neurastênicos do litoral”.
Há aí uma condenação do mestiçamento
que se atenua nos ensaios
amazônicos, onde começa a entender
o mestiço como indivíduo adaptadoà terra. A impressão é que Euclides
estava caminhando para uma valorização
da formação étnica da sociedade
brasileira, antecipando, de certo
modo, Gilberto Freyre. |