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Outubro/2009– Ano XXII – nº 249   ::   Suplemento

 
:: CAPA::

Educação
Professores para novos tempos
Congresso debate soluções para que formação do profissional supere os desafios criados pelas mudanças nas políticas educacionais e pelas inovações tecnológicas

DANIEL PATIRE

A formação de profissionais da Educação passa por um momento de revisão de currículos e atividades, para atender às mudanças como as geradas pelas políticas governamentais e novas tecnologias. Com o tema “Formação de professores e a prática docente: os dilemas contemporâneos”, o X Congresso Estadual Paulista sobre Formação de Educadores (CEPFE) já se tornou uma referência nacional nas discussões sobre os rumos dos cursos de licenciatura. Organizado pela Pró-Reitoria de Graduação (Prograd), o evento aconteceu entre 30 de agosto e 2 de setembro, em Águas de Lindoia (SP).

O congresso reuniu cerca de 490 participantes de 15 Estados, além de registrar a apresentação de 350 trabalhos. “Nestes anos, com as mudanças sociais e os avanços tecnológicos em todos os níveis de aprendizagem, os educadores conheceram novas técnicas e novos materiais”, destacou a pró-reitora de Graduação Sheila Zambello de Pinho. “Isso nos obriga a refletir se o aluno formado em nossos cursos atende a essas necessidades.”

Currículos – Uma das principais discussões do encontro focalizou as exigências incluídas desde 2005 na formação curricular dos professores. A partir desse ano, as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de Pedagogia, do Ministério da Educação (MEC), determinaram que os cursos universitários devem ter disciplinas ligadas à licenciatura infantil e básica, aulas de bacharelado em Pedagogia, além de matérias focadas na gestão e legislação. De acordo com Sonia Terezinha de Souza Penin, diretora da Faculdade de Educação da USP, essa estrutura impossibilita a excelência na formação do especialista, por ser impossível dar o conteúdo previsto em apenas quatro anos.

Núcleo oferece formação continuada
A Prograd implantou, em 2008, o Núcleo de Estudos e Práticas Pedagógicas (NEPP), para que os professores da Unesp tenham espaço de reflexão sobre a atividade de ensino. “Muitos professores da Universidade têm uma formação muito técnica, específica de suas áreas de atuação”, diz a pró-reitora de Graduação Sheila Zambello de Pinho. “E, às vezes, precisam de um maior conhecimento de Pedagogia para transmitir, de maneira mais eficiente, o seu conhecimento.”
 

O NEPP oferece oficinas e fóruns voltados para avaliação, metodologia de ensino e projetos pedagógicos. O núcleo produz e assessora a produção de material didático e colabora com os conselhos de cursos de graduação na elaboração e revisão dos projetos político-pedagógicos. Estão também previstos cursos e palestras para formação e atualização dos professores em prática pedagógica.

D.P

Os novos currículos atendem à Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, que estabeleceu que todo profissional da área deve ter diploma no ensino superior. “Antes, a educação infantil e de 1.ª a 4.ª série do fundamental era feita por professores formados nos chamados Cursos Normais ou de Magistério, no ensino médio”, recorda Sonia. “Às faculdades de Educação cabia destinar professores para ensino médio e o aprofundamento teórico da própria Pedagogia.”

A necessidade de um maior preparo dos especialistas também é sentida na Europa, segundo Maria do Céu Roldão, da Escola de Educação Superior de Santarém, em Portugal. Ela explica que, com a Declaração de Bolonha e a unificação dos currículos do ensino superior europeu, o curso de graduação de Formação de Professores teve um aumento de carga horária. Além disso, os candidatos ao setor só podem atuar se obtiverem um mestrado.

Sem capacitação – “Ensinar implica uma série de competências que o professor não tem”, enfatiza a psicóloga Maria Salete Fábio Aranha, da Faculdade de Ciências (FC), câmpus de Bauru. “E isso é também culpa dos cursos, que não preparam seus estudantes para a prática.” Para ela, as competências de um educador são desenvolvidas com a prática da profissão, que se constitui já na relação do graduando com o docente. “Se os cursos conseguirem adequar suas práticas, teremos uma realidade educacional muito diferente”, assegura.

Hoje, cerca de 330 mil pessoas atuam na educação básica sem a habilitação exigida pela lei. “Além disso, há um déficit de aproximadamente 250 mil professores de Matemática, Física, Química e Biologia no país”, assinala Júlio Emílio Diniz-Pereira, da Universidade Federal de Minas Gerais. Diniz-Pereira constatou que 20% das vagas das universidades públicas são destinadas a cursos de licenciatura. “Entretanto, o baixo salário e a falta de perspectiva na carreira docente não estimulam os jovens”, explica.

O MEC estabeleceu que os profissionais sem formação superior farão sua graduação até 2011, em universidades públicas. Segundo Helena Costa Lopes de Freitas, coordenadora de Formação de Professores da Secretaria de Educação Básica, ligada ao MEC, os educadores podem realizar sua primeira ou até segunda graduação, em cursos presenciais ou por meio de EaD (Ensino a Distância). “Nas escolas, é comum um físico dar aula de Matemática, ou um biólogo, de Química”, explica. “Assim, oferecemos a possibilidade de uma segunda licenciatura.”

Formação continuada – Entre as medidas adotadas pelos municípios para cumprir as exigências da LDB estão parcerias com a iniciativa privada para a formação continuada dos professores. Um estudo da USP e da Unesp, financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), mostrou que 645 municípios paulistas firmaram acordos com empresas de Educação.

“Em 1996, o Estado de São Paulo municipalizou a Educação Básica”, explica a pesquisadora Thereza Maria de Freitas Adrião, do Instituto de Biociências, câmpus de Rio Claro. “Neste processo, muitas cidades fizeram parcerias para conseguirem atender às demandas.” Thereza ressalta que, com essa solução, costumam ser adotados sistemas que utilizam apostilas para os ensinos fundamental e infantil, uma alternativa que, na sua avaliação, empobrece o processo de aprendizagem. “O que nos parece é que há o predomínio de uma formação técnica, para aplicar as apostilas”, comenta.

A capacitação dos professores, porém, não costuma interferir no desempenho dos alunos, segundo o pesquisador João Cardoso Palma Filho, do Instituto de Artes, câmpus de São Paulo. Ele analisou as avaliações do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), do MEC, de 1995 a 2007, período em que o governo paulista realizou projetos de formação continuada, enquanto a nota média obtida pelos alunos caiu. “O educador faz seus cursos, mas não aplica na sala de aula”, sentencia.

Na opinião do professor Luiz Carlos de Freitas, da Unicamp, as avaliações do MEC, como o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), “responsabilizam” o gestor da escola pela nota alcançada. Isso pode esconder distorções da política educacional dos governos e ocultar as condições operacionais das escolas. “As avaliações de larga escala deveriam ser avaliações das políticas públicas dos governos”, propõe.

Para muitos especialistas, a formação continuada deve ser uma responsabilidade das instituições públicas de ensino superior. Dentro dessa perspectiva, a EaD pode ser uma possibilidade viável, de acordo com o professor Klauss Schlünzen Junior, da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT), câmpus de Presidente Prudente. “Com as novas tecnologias, permitimos que pessoas possam ter acesso a cursos de qualquer lugar”, diz.

A Unesp conta hoje com 5 mil alunos de todo o país em cursos oferecidos pela Universidade Aberta do Brasil, uma parceria com o governo federal para a formação continuada de professores da rede pública. Em 2010, a Universidade também oferecerá um curso de formação de educadores do sistema de ensino paulista por meio da Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo).

Tecnologia e Inclusão – As novas tecnologias podem ser usadas também como material didático, por exemplo, em softwares que simulam reações químicas. Para Schlünzen, o seu uso como ferramenta didática facilita o aprendizado dos alunos.

Na FCT, a professora Elisa Tomoe Schlünzen coordena o grupo de pesquisa Ambiente Potencializador para a Inclusão (API). Nele, alunos elaboram softwares voltados para a educação de portadores de algum tipo de deficiência. “Trabalhamos individualmente com cada uma dessas pessoas, procurando desenvolver produtos focados nas suas potencialidades”, relata.

Comemorando a décima edição do Congresso Estadual Paulista sobre Formação de Educadores, a pró-reitora Sheila assinala a necessidade de constante aperfeiçoamento dos professores de todos os níveis do sistema educacional. “A valorização do profissional da educação é primordial no processo de melhoria da qualidade do ensino”, afirma.

Soluções para a prática de ensino

O Congresso somou 350 projetos de ensino apresentados. Entre as propostas estava a das professoras Maria Cecília Micotti e Maria Augusta Ribeiro, do Instituto de Biociências, câmpus de Rio Claro, que relataram os resultados de um trabalho com alunos de graduação e pós, para a alfabetização no primeiro ano do ensino fundamental. Os estudantes, após o contato com textos e estratégias pedagógicas, trabalham contos infantis com as crianças.
“Por meio da leitura do texto, as crianças identificam os sons das palavras conhecidas e entram em contato com a forma das letras

 

destas palavras”, esclarece Maria Cecília. “Com o desenvolvimento da leitura, elas mesmas propõem projetos como, por exemplo, escrever uma história.”
Na área de educação infantil, a professora Luciana Esmeralda Ostetto, da Universidade Federal de Santa Catarina, apresentou um projeto com quartanistas do curso de Pedagogia, que participam de oficinas de pintura, artesanato, dança e cantigas. “A criança aprende por meio da sensibilidade e do fazer, e o aluno de Pedagogia precisa reaprender essas linguagens”, explica.

D.P.

Entrevista: Jordi Quintana Albalat
Tecnologia deve integrar vida escolar
Educador espanhol enfatiza uso de recursos como computadores e softwares na preparação do professor

A Declaração de Bolonha, assinada por 29 estados europeus em 1999, busca unificar os currículos do ensino superior da UE (União Europeia). As instituições desses países têm até 2010 para se adaptar às novas regras. O professor Jordi Quintana Albalat, da Universidade de Barcelona, na Espanha, participou da elaboração do novo currículo do curso de formação de professores, com ênfase nas TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) aplicadas à educação. Albalat desenvolve um estudo sobre novos currículos de instituições espanholas para cumprimento da Declaração, em parceria com o professor Klauss Schlünzen, da Unesp. (Entrevista a Daniel Patire)

Jornal Unesp: Como o senhor avalia a inclusão de disciplinas voltadas para o ensino de TIC nos cursos de formação de professores?
Jordi Quintana Albalat: Segundo o acordo da União Europeia, as disciplinas de TIC seriam como mais uma aula no conteúdo do ano letivo. Dessa maneira, os alunos podem não enxergar a utilização dessas ferramentas no processo de aprendizagem. Acreditamos que as TIC devem estar impregnadas em todas as disciplinas do curso, para que esses alunos convivam com as tecnologias. Na reforma curricular, incluímos uma matéria de alfabetização digital para deixar todos os estudantes no mesmo nível de conhecimento.

JU: O que o senhor quer dizer com “impregnar”?
Albalat: A Impregnação é a terceira etapa de um processo para o uso das TIC na educação. O primeiro passo é a Introdução, em que o futuro educador aprende sobre as tecnologias, como os softwares aplicativos e programação de computadores. Depois, temos a Integração, em que ocorre a utilização cotidiana dessas ferramentas. Numa terceira fase, o uso dessas tecnologias se torna inconsciente; elas impregnam os currículos, as atividades educativas, a busca pela informação, o compartilhamento do saber.

JU: Quais as novas habilidades de um educador?
Albalat: Buscamos uma formação em que o educador esteja familiarizado com as possibilidades criadas pela computação e pelos recursos audiovisuais, e saiba utilizar o potencial da Web 2.0 – com toda a sua interatividade.

JU: E a experiência da formação de professores em Educação a Distância (EaD)?
Albalat: Vejo um trabalho muito interessante nessa parceria da Unesp com a Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo), para a formação continuada de professores. Estudos mostram que o desempenho de alunos de cursos a distância e de presenciais é muito parecido, tendendo um pouco para os do EaD. E um professor num desses cursos terá toda a sua vivência impregnada pelas TIC.

 

Entrevista: Maria da Assunção de Mendonça
Conhecimento se forma pelo diálogo
Aprendizagem somente ocorre com a participação do aluno, segundo especialista portuguesa

“Os valores da democracia constroem-se por ação direta, e não por delegação”, sentencia a professora Maria da Assunção de Mendonça, da Universidade de Évora, ao apresentar as experiências do Movimento da Escola Moderna (MEM) de Portugal. Essa associação de professores com estrutura cooperativa de trabalho, criada na década de 1960, conta hoje com cerca de dois mil sócios de todos os níveis de educação daquele país. (Entrevista a Daniel Patire)

Jornal Unesp: A prática do MEM consiste na troca de experiências entre os professores participantes, que, por meio desse diálogo, constroem o conhecimento pedagógico. Existe uma escola que sirva de modelo?
Maria da Assunção de Mendonça: Os associados compartilham suas práticas na procura de uma escola centrada em uma democracia construída com a participação dos alunos. Dessa forma, todo o trabalho desenvolvido nas salas não acontece por ordem do professor, mas é feito a partir da reflexão do aluno quanto às suas necessidades de aprendizagem, face ao currículo nacional. E ele pode aprender o conteúdo desenvolvendo projetos. Depois, os educadores trocam suas práticas, e levam os produtos elaborados em sala de aula. Juntos também leem textos que venham fundamentar essa linha de educação.

JU: Como os integrantes do MEM avaliam a Declaração de Bolonha?
Maria da Assunção: Tem aspectos do acordo muito próximos da maneira como a Escola Moderna trabalha, sobretudo, no aprendizado focado no aluno. É o abandono das aulas expositivas e do aluno passivo que vai ouvir o que o professor diz e faz uma prova. Essa mudança é ainda o que falta se cumprir nas universidades, em nível europeu.

JU: O movimento tem ferramentas de EaD?
Maria da Assunção: Temos um sítio na Internet (www.movimentoescolamoderna.pt), e há dois anos utilizamos uma plataforma e-learning. Percebemos, no entanto, que a Web promove a comunicação e, ao mesmo tempo, tem sido um entrave para uma exposição mais clara e aberta, ou descomprometida. Penso, entretanto, que esta é uma fase de adaptação.

 
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