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Educação
Professores para novos tempos
Congresso debate soluções
para que formação do
profissional supere os desafios
criados pelas mudanças nas
políticas educacionais e
pelas inovações tecnológicas
DANIEL PATIRE
A formação de profissionais da Educação passa
por um momento de revisão de currículos e
atividades, para atender às mudanças como as
geradas pelas políticas governamentais e novas tecnologias.
Com o tema “Formação de professores e
a prática docente: os dilemas contemporâneos”, o
X Congresso Estadual Paulista sobre Formação de
Educadores (CEPFE) já se tornou uma referência nacional
nas discussões sobre os rumos dos cursos de
licenciatura. Organizado pela Pró-Reitoria de Graduação
(Prograd), o evento aconteceu entre 30 de agosto
e 2 de setembro, em Águas de Lindoia (SP).
O congresso reuniu cerca de 490 participantes de 15 Estados, além de registrar a apresentação de
350 trabalhos. “Nestes anos, com as mudanças sociais
e os avanços tecnológicos em todos os níveis
de aprendizagem, os educadores conheceram novas
técnicas e novos materiais”, destacou a pró-reitora
de Graduação Sheila Zambello de Pinho. “Isso nos
obriga a refletir se o aluno formado em nossos cursos
atende a essas necessidades.”
Currículos – Uma das principais discussões do
encontro focalizou as exigências incluídas desde 2005
na formação curricular dos professores. A partir desse
ano, as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso
de Pedagogia, do Ministério da Educação (MEC),
determinaram que os cursos universitários devem ter
disciplinas ligadas à licenciatura infantil e básica, aulas
de bacharelado em Pedagogia, além de matérias
focadas na gestão e legislação. De acordo com Sonia
Terezinha de Souza Penin, diretora da Faculdade de
Educação da USP, essa estrutura impossibilita a excelência
na formação do especialista, por ser impossível
dar o conteúdo previsto em apenas quatro anos.
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Núcleo oferece formação continuada
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A Prograd implantou, em 2008, o Núcleo de
Estudos e Práticas Pedagógicas (NEPP), para que
os professores da Unesp tenham espaço de reflexão sobre a atividade de ensino. “Muitos professores
da Universidade têm uma formação muito
técnica, específica de suas áreas de atuação”,
diz a pró-reitora de Graduação Sheila Zambello
de Pinho. “E, às vezes, precisam de um maior
conhecimento de Pedagogia para transmitir, de
maneira mais eficiente, o seu conhecimento.” |
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O NEPP oferece oficinas e fóruns voltados
para avaliação, metodologia de ensino e projetos
pedagógicos. O núcleo produz e assessora
a produção de material didático e colabora com os conselhos de cursos de graduação na elaboração
e revisão dos projetos político-pedagógicos.
Estão também previstos cursos e palestras
para formação e atualização dos professores em
prática pedagógica.
D.P |
Os novos currículos atendem à Lei de Diretrizes
e Bases da Educação, de 1996, que estabeleceu que
todo profissional da área deve ter diploma no ensino superior. “Antes, a educação infantil e de 1.ª a 4.ª série
do fundamental era feita por professores formados
nos chamados Cursos Normais ou de Magistério, no
ensino médio”, recorda Sonia. “Às faculdades de Educação cabia destinar professores para ensino médio e
o aprofundamento teórico da própria Pedagogia.”
A necessidade de um maior preparo dos especialistas
também é sentida na Europa, segundo Maria
do Céu Roldão, da Escola de Educação Superior de
Santarém, em Portugal. Ela explica que, com a Declaração
de Bolonha e a unificação dos currículos do
ensino superior europeu, o curso de graduação de
Formação de Professores teve um aumento de carga
horária. Além disso, os candidatos ao setor só podem
atuar se obtiverem um mestrado.
Sem capacitação – “Ensinar implica uma série
de competências que o professor não tem”, enfatiza
a psicóloga Maria Salete Fábio Aranha, da Faculdade
de Ciências (FC), câmpus de Bauru. “E isso é
também culpa dos cursos, que não preparam seus estudantes para a prática.” Para ela, as competências
de um educador são desenvolvidas com a prática da profissão, que se constitui já na relação do graduando
com o docente. “Se os cursos conseguirem adequar
suas práticas, teremos uma realidade educacional
muito diferente”, assegura.
Hoje, cerca de 330 mil pessoas atuam na educação
básica sem a habilitação exigida pela lei. “Além disso,
há um déficit de aproximadamente 250 mil professores
de Matemática, Física, Química e Biologia no
país”, assinala Júlio Emílio Diniz-Pereira, da Universidade
Federal de Minas Gerais. Diniz-Pereira constatou
que 20% das vagas das universidades públicas
são destinadas a cursos de licenciatura. “Entretanto,
o baixo salário e a falta de perspectiva na carreira docente
não estimulam os jovens”, explica.
O MEC estabeleceu que os profissionais sem formação
superior farão sua graduação até 2011, em universidades
públicas. Segundo Helena Costa Lopes de
Freitas, coordenadora de Formação de Professores da Secretaria de Educação Básica, ligada ao MEC, os
educadores podem realizar sua primeira ou até segunda
graduação, em cursos presenciais ou por meio de EaD (Ensino a Distância). “Nas escolas, é comum
um físico dar aula de Matemática, ou um biólogo, de
Química”, explica. “Assim, oferecemos a possibilidade
de uma segunda licenciatura.”
Formação continuada – Entre as medidas
adotadas pelos municípios para cumprir as exigências
da LDB estão parcerias com a iniciativa privada para a
formação continuada dos professores. Um estudo da
USP e da Unesp, financiado pela Fapesp (Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), mostrou
que 645 municípios paulistas firmaram acordos
com empresas de Educação.
“Em 1996, o Estado de São Paulo municipalizou
a Educação Básica”, explica a pesquisadora Thereza
Maria de Freitas Adrião, do Instituto de Biociências,
câmpus de Rio Claro. “Neste processo, muitas cidades
fizeram parcerias para conseguirem atender às demandas.” Thereza ressalta que, com essa solução,
costumam ser adotados sistemas que utilizam
apostilas para os ensinos fundamental e infantil, uma
alternativa que, na sua avaliação, empobrece o processo
de aprendizagem. “O que nos parece é que há
o predomínio de uma formação técnica, para aplicar
as apostilas”, comenta.
A capacitação dos professores, porém, não costuma
interferir no desempenho dos alunos, segundo o
pesquisador João Cardoso Palma Filho, do Instituto
de Artes, câmpus de São Paulo. Ele analisou as avaliações
do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação
Básica), do MEC, de 1995 a 2007, período em que o
governo paulista realizou projetos de formação continuada, enquanto a nota média obtida pelos alunos
caiu. “O educador faz seus cursos, mas não aplica na sala de aula”, sentencia.
Na opinião do professor Luiz Carlos de Freitas, da
Unicamp, as avaliações do MEC, como o Ideb (Índice
de Desenvolvimento da Educação Básica), “responsabilizam”
o gestor da escola pela nota alcançada. Isso
pode esconder distorções da política educacional dos
governos e ocultar as condições operacionais das escolas. “As avaliações de larga escala deveriam ser avaliações
das políticas públicas dos governos”, propõe.
Para muitos especialistas, a formação continuada
deve ser uma responsabilidade das instituições públicas
de ensino superior. Dentro dessa perspectiva,
a EaD pode ser uma possibilidade viável, de acordo
com o professor Klauss Schlünzen Junior, da Faculdade
de Ciências e Tecnologia (FCT), câmpus de
Presidente Prudente. “Com as novas tecnologias, permitimos
que pessoas possam ter acesso a cursos de
qualquer lugar”, diz.
A Unesp conta hoje com 5 mil alunos de todo o país em cursos oferecidos pela Universidade Aberta
do Brasil, uma parceria com o governo federal para a
formação continuada de professores da rede pública.
Em 2010, a Universidade também oferecerá um curso
de formação de educadores do sistema de ensino
paulista por meio da Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo).
Tecnologia e Inclusão – As novas tecnologias
podem ser usadas também como material didático,
por exemplo, em softwares que simulam reações químicas.
Para Schlünzen, o seu uso como ferramenta
didática facilita o aprendizado dos alunos.
Na FCT, a professora Elisa Tomoe Schlünzen
coordena o grupo de pesquisa Ambiente Potencializador
para a Inclusão (API). Nele, alunos elaboram
softwares voltados para a educação de portadores de
algum tipo de deficiência. “Trabalhamos individualmente
com cada uma dessas pessoas, procurando
desenvolver produtos focados nas suas potencialidades”,
relata.
Comemorando a décima edição do Congresso
Estadual Paulista sobre Formação de Educadores, a
pró-reitora Sheila assinala a necessidade de constante
aperfeiçoamento dos professores de todos os níveis
do sistema educacional. “A valorização do profissional
da educação é primordial no processo de melhoria
da qualidade do ensino”, afirma.
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Soluções para a prática de ensino
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O Congresso somou 350 projetos de ensino
apresentados. Entre as propostas estava a das
professoras Maria Cecília Micotti e Maria Augusta Ribeiro, do Instituto de Biociências, câmpus
de Rio Claro, que relataram os resultados de um
trabalho com alunos de graduação e pós, para a alfabetização no primeiro ano do ensino fundamental.
Os estudantes, após o contato com textos
e estratégias pedagógicas, trabalham contos infantis
com as crianças.
“Por meio da leitura do texto, as crianças
identificam os sons das palavras conhecidas e
entram em contato com a forma das letras
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destas
palavras”, esclarece Maria Cecília. “Com
o desenvolvimento da leitura, elas mesmas propõem
projetos como, por exemplo, escrever
uma história.”
Na área de educação infantil, a professora Luciana
Esmeralda Ostetto, da Universidade Federal
de Santa Catarina, apresentou um projeto com quartanistas do curso de Pedagogia, que participam
de oficinas de pintura, artesanato, dança e
cantigas. “A criança aprende por meio da sensibilidade e do fazer, e o aluno de Pedagogia
precisa reaprender essas linguagens”, explica.
D.P. |
Entrevista: Jordi Quintana Albalat
Tecnologia deve integrar vida escolar
Educador espanhol enfatiza
uso de recursos como
computadores e softwares na
preparação do professor
A Declaração de Bolonha, assinada por 29 estados
europeus em 1999, busca unificar os currículos
do ensino superior da UE (União Europeia).
As instituições desses países têm até 2010 para se
adaptar às novas regras. O professor Jordi Quintana Albalat, da Universidade de Barcelona, na Espanha,
participou da elaboração do novo currículo
do curso de formação de professores, com ênfase
nas TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação)
aplicadas à educação. Albalat desenvolve um estudo sobre novos currículos de instituições espanholas
para cumprimento da Declaração, em parceria com o professor Klauss Schlünzen, da Unesp.
(Entrevista a Daniel Patire)
Jornal Unesp: Como o senhor avalia a inclusão de disciplinas
voltadas para o ensino de TIC nos cursos de formação de professores?
Jordi Quintana Albalat: Segundo o acordo da
União Europeia, as disciplinas de TIC seriam como
mais uma aula no conteúdo do ano letivo. Dessa
maneira, os alunos podem não enxergar a utilização
dessas ferramentas no processo de aprendizagem. Acreditamos que as TIC devem estar impregnadas
em todas as disciplinas do curso, para que esses alunos convivam com as tecnologias. Na reforma curricular, incluímos uma matéria de alfabetização digital
para deixar todos os estudantes no mesmo nível de
conhecimento.
JU: O que o senhor quer dizer com “impregnar”?
Albalat: A Impregnação é a terceira etapa de um
processo para o uso das TIC na educação. O primeiro
passo é a Introdução, em que o futuro educador
aprende sobre as tecnologias, como os softwares
aplicativos e programação de computadores. Depois,
temos a Integração, em que ocorre a utilização cotidiana
dessas ferramentas. Numa terceira fase, o uso dessas tecnologias se torna inconsciente; elas impregnam
os currículos, as atividades educativas, a busca pela informação, o compartilhamento do saber.
JU: Quais as novas habilidades de um educador?
Albalat: Buscamos uma formação em que o educador
esteja familiarizado com as possibilidades criadas
pela computação e pelos recursos audiovisuais,
e saiba utilizar o potencial da Web 2.0 – com toda a
sua interatividade.
JU: E a experiência da formação de professores em Educação
a Distância (EaD)?
Albalat: Vejo um trabalho muito interessante nessa
parceria da Unesp com a Univesp (Universidade
Virtual do Estado de São Paulo), para a formação
continuada de professores. Estudos mostram que o
desempenho de alunos de cursos a distância e de presenciais é muito parecido, tendendo um pouco para
os do EaD. E um professor num desses cursos terá
toda a sua vivência impregnada pelas TIC.
Entrevista: Maria da Assunção de Mendonça
Conhecimento se forma pelo diálogo
Aprendizagem somente ocorre
com a participação do aluno,
segundo especialista portuguesa
“Os valores da democracia constroem-se por
ação direta, e não por delegação”, sentencia a professora
Maria da Assunção de Mendonça, da Universidade
de Évora, ao apresentar as experiências
do Movimento da Escola Moderna (MEM) de Portugal. Essa associação de professores com estrutura
cooperativa de trabalho, criada na década de
1960, conta hoje com cerca de dois mil sócios de
todos os níveis de educação daquele país. (Entrevista
a Daniel Patire)
Jornal Unesp: A prática do MEM consiste na troca
de experiências entre os professores participantes, que, por
meio desse diálogo, constroem o conhecimento pedagógico.
Existe uma escola que sirva de modelo?
Maria da Assunção de Mendonça: Os associados
compartilham suas práticas na procura de
uma escola centrada em uma democracia construída com a participação dos alunos. Dessa forma,
todo o trabalho desenvolvido nas salas não acontece por ordem do professor, mas é feito a partir
da reflexão do aluno quanto às suas necessidades
de aprendizagem, face ao currículo nacional. E ele
pode aprender o conteúdo desenvolvendo projetos.
Depois, os educadores trocam suas práticas, e levam os produtos elaborados em sala de aula. Juntos
também leem textos que venham fundamentar
essa linha de educação.
JU: Como os integrantes do MEM avaliam a Declaração
de Bolonha?
Maria da Assunção: Tem aspectos do acordo
muito próximos da maneira como a Escola Moderna
trabalha, sobretudo, no aprendizado focado
no aluno. É o abandono das aulas expositivas e do
aluno passivo que vai ouvir o que o professor diz e faz uma prova. Essa mudança é ainda o que falta se
cumprir nas universidades, em nível europeu.
JU: O movimento tem ferramentas de EaD?
Maria da Assunção: Temos um sítio na Internet
(www.movimentoescolamoderna.pt), e há dois
anos utilizamos uma plataforma e-learning. Percebemos,
no entanto, que a Web promove a comunicação
e, ao mesmo tempo, tem sido um entrave para uma exposição mais clara e aberta, ou descomprometida.
Penso, entretanto, que esta é uma
fase de adaptação. |