UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
"JÚLIO DE MESQUITA FILHO"
Reitoria
 
     
 
Jornal UNESP :::

Setembro/2009– Ano XXII – nº 248   ::   Suplemento

 
:: GERAL::

O Ouvidor Fala
Ética e patrimonialismo
José Ribeiro Júnior

Temos sido invadidos por uma enxurrada de notícias pela mídia, com informações estarrecedoras sobre comportamentos incrivelmente antiéticos e imorais. Denúncias de fortunas que se acumulam ao longo do tempo, algumas aparecendo em curtíssimo espaço de tempo, por pessoas ligadas à vida pública, e a impressão que se tem é de total impunidade. Essas condutas levam o povo a uma desilusão total com a maior parte dos governantes, lideranças religiosas e até mesmo dirigentes de esporte profissional.


O comportamento corrupto existe desde o início da colonização do Brasil. Os administradores enviados para gerir o patrimônio da Coroa portuguesa e em nome do Estado colonizador, dadas as facilidades, iam além dos objetivos do rei. O erário público confundia-se com o erário régio. Dessa forma, formou-se em nossa história brasileira um Estado patrimonialista. Tal modelo consagrou uma mentalidade que não distingue o domínio público do privado. Acrescente-se a isso a formação da família patriarcal gerada nesse processo e o “homem cordial”, conforme descrito por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. O clássico Os donos do poder, de Raymundo Faoro (a primeira edição é de 1958), é de uma atualidade impressionante para quem quiser aprofundar o assunto. Parece-nos que nesses elementos reside a herança do nosso passado que persiste teimosamente nos tempos hodiernos. Esse quadro, destaque-se, assusta ainda mais pela pouca ou nenhuma disposição de nossas autoridades maiores da República em reverter o processo, corrigindo os rumos. Pelo contrário, as notícias colocam com evidência todo um agravamento, a cada dia que passa.

Temos evitado abordar temas politizados e tentado atermo-nos mais aos puramente acadêmicos, mas há um limite. Acreditamos que ainda há na vida pública os cidadãos bem intencionados e dispostos a promover as mudanças necessárias e urgentes. A universidade pode e deve participar com os seus meios disponíveis para transformar a mentalidade prevaricadora. E a Unesp, pela participação dos seus três segmentos, tem como agir, praticando uma atitude crítica cidadã. Ao conceito corrente de ganhos fáceis devemos contrapor o conceito de Ética na política, no trabalho, na aprendizagem profissional, na pesquisa, propondo-nos agir em benefício da sociedade.

A República deve ser preservada em sua totalidade, com todos os seus fundamentos democráticos, extirpando-se o patrimonialismo e, realmente, colocando-se em primeiríssimo lugar o bem comum, com respeito, hoje carente, à dignidade de todos os brasileiros.

 

  ACI