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Setembro/2009– Ano XXII – nº 248   ::   Suplemento

 
:: ENERGIA ::

Bauru
Abacate, nova opção de biocombustível
Polpa de fruta rende óleo e caroço produz etanol, cuja mistura pode competir com o biodiesel de soja

A busca de novas fórmulas para aumentar a produção de biocombustíveis no Brasil rendeu mais um candidato: o abacate. De sua polpa é possível extrair o óleo, e do caroço, o etanol. Da mistura, um biodiesel tão bom ou até melhor que o da soja. A fórmula foi desenvolvida por um professor da Faculdade de Ciências (FC), câmpus de Bauru.

Para chegar a um combustível viável, Manoel Lima de Menezes teve de superar não somente os desafios químicos – como desidratar uma fruta composta em 75% por água –, mas também o de criar equipamentos que pudessem atender às etapas de produção de forma barata e na pequena escala da pesquisa.

O abacate apresenta duas vantagens em relação à soja, de acordo com Menezes. A primeira é que da fruta é possível extrair os dois ingredientes básicos do biodiesel – o óleo e o etanol (no caso da soja é preciso comprar o etanol de cana-de-açúcar).

“Em teoria, os 20% de amido presentes no caroço podem render até 75 litros de álcool por tonelada de caroço”, conta. A cana produz cerca de 85 litros por tonelada. Esse rendimento só não entra no páreo na produção do etanol, segundo o pesquisador, porque a produtividade do abacate em campo é menor que a da cana. O número, no entanto, é mais do que suficiente para a produção do biodiesel, que demanda, para cada 100 litros, cerca de 10 litros de álcool.

Já em relação à soja, pelos cálculos de Menezes, o abacate pode render até 2.800 litros de óleo por hectare contra 400 da oleaginosa. E é aí que está a segunda vantagem. “Além disso o abacate é uma planta perene, que começa a produzir com 4 anos de vida, atinge seu ápice aos 8, mas dá frutos em média por 40 anos”, explica.

A fruta demanda muita energia no processo de secagem. No entanto, o pesquisador acredita que a produtividade e a presença do álcool e do óleo na mesma fonte compensam o gasto.

Improvisos – Para chegar ao produto final, Menezes teve de ir além da Química. O primeiro desafio foi a extração. “Tentei a enzimática, a hidrólise ácida, a alcalina, até descobrir que a desidratação era a melhor opção”, explica. Mas desidratar a
polpa da fruta também não foi fácil. Em fornos tradicionais ele acabou queimando tudo. Até o dia em que adaptou uma velha máquina de lavar roupa com tampa frontal para transformá-la em um forno rotativo.

Após a secagem, o abacate passa por uma prensa, mas nessa etapa não é possível extrair muito óleo, o que levou à necessidade de misturar o farelo com um solvente. Menezes então criou uma centrífuga menorzinha, de cestos, que separou o farelo do óleo com o solvente. A purificação termina com um processo simples de destilação para separar o óleo do solvente. Por outro lado, ele trabalhou na obtenção do etanol e este processo também contou com um invento seu, um reator para fazer a hidrólise e a fermentação do caroço.

Menezes já planeja outros avanços de modo a tornar a produção reciclável. A chave está na glicerina, um dos subprodutos desse processo. A substância, quando aquecida, demora muito para esfriar, o que a torna um substituto do vapor d’água como agente de aquecimento. “Com os resíduos de farelo vamos fazer briquetes de celulose prensada que, ao serem queimados, vão gerar calor para aquecer a glicerina”, planeja.

Giovana Girardi

 
  ACI